A visão racional e progressista do espiritismo

“(…) o livre-pensamento eleva a dignidade
do homem; faz dele um ser activo, inteligente,
em lugar de uma máquina de crer”.
Allan Kardec (Revista Espírita, Fevereiro, 1867)

Para descarga, os três livros já publicados. Aconselho vivamente a sua leitura.

Apresentam uma visão actualizada do espiritismo racional e progressista

“…A filosofia espírita rompeu com a dicotomia entre o sagrado e o profano. O que importa para os espíritos entrevistados por Allan Kardec, na elaboração de “O Livro dos Espíritos”, é a chamada lei natural.
Para eles, a lei natural é a própria “lei de Deus”.
“É a única verdadeira para a felicidade do homem”, pois “indica-lhe o que deve fazer ou não fazer” (pergunta 614, p.361).
Eles vêem na Natureza e em suas leis a presença da divindade que a tudo preside como “inteligência suprema e causa primeira de todas as coisas”, como disposto na pergunta nº 1 de O Livro dos Espíritos.
A lei natural, vista sob esse prisma, envolveria todos os fenómenos do Universo e, logo, também as relações dos seres humanos entre si e com a divindade, retirando esta do sobrenatural.
Dessa forma, o que para a teologia estava contido na revelação sagrada, sobrenatural e não necessariamente conforme a razão, para os espíritos entrevistados por Kardec era potencialmente alcançável pela razão humana, eis que a lei natural se encontra inscrita “na consciência” do ser inteligente (questão 621).

Sobre a designação dos espíritas como “livres-pensadores” Diz-nos Milton Rubens Medran Moreira no quarto capítulo da primeira obra aqui apresentada:
“…Em artigo que publicou na Revista Espírita de Janeiro de 1867, Allan Kardec, em plena sintonia com as tendências do novo tempo em que se firmava a autonomia de pensamento, saudou o advento de uma “nova denominação pela qual se designam os que não se sujeitam à opinião de ninguém em matéria de religião e de espiritualidade, que não se julgam ligados pelo culto em que o nascimento os colocou sem seu consentimento, nem à observação de práticas religiosas quaisquer”. Essa nova categoria de homens e mulheres, segundo ele, eram os “livres-pensadores”. E ali ele situava os verdadeiros espíritas, explicitando: “Todo homem que não se guia pela fé cega é, por isso mesmo livre-pensador”, para acrescentar: “A este título os Espíritas também são livres-pensadores”.

Paulo de Tarso “criador do Cristo Mítico e Místico”

 

da série “FLORESTA COM ESPELHO”, grafite e acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites, 10 de Abril de 2000

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Seguem dois artigos de grande importância cultural, da autoria de LISZT RANGEL,  relacionados com o período histórico em que tomou poderes o dogmatismo religioso, nos primeiros tempos a seguir à morte de Jesus de Nazaré, com imensas e trágicas repercussões históricas que se estenderam praticamente a todo o mundo, durante dois milénios.
 
A figura histórica mais marcante em aspectos decisivos foi “Paulo de Tarso”, conhecido mais habitualmente como “S. Paulo”.
As suas cartas, que foram inseridas pelas autoridades eclesiásticas no novo testamento, serviram para configurar a ideologia da “santíssima trindade”, da figura sacralizada de “Jesus Cristo”, etc.

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PRIMEIRO ARTIGO:

18 de Dezembro de 2020.

Sim, como já demonstrei em pesquisas anteriores, Paulo de Tarso não foi só o Fundador do Cristianismo, conforme defendem modernos exegetas e historiadores, ele foi o criador do Cristo Mítico e Místico.

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Segundo o rigoroso Dicionário Oxford da Igreja Cristã, Paulo é o “criador do sistema doutrinário e eclesiástico da Igreja”.

Para agravar ainda mais o seu currículo manchado de sangue dos cristãos e dos judeus, Paulo foi o maior responsável pelo completo desaparecimento da mensagem de Jesus, tornando o Galileu, praticamente, um “ninguém”.

Em suas cartas, Paulo ignora completamente as presenças de José e Maria e só se refere duas vezes a Tiago como “o Irmão do Senhor”, na condição de apóstolo.
Quanto aos amigos de Jesus, ele só cita João uma única vez e quanto a Pedro, além de lembrá-lo de sua “covardia” em negar Jesus, se incomoda ao ponto de nominar o pescador de “O Apóstolo dos circuncidados” e ainda ridiculariza os demais galileus, chamando-os de “iminentes discípulos”, (2Cor. 11:15; 12:11).
Se autopromovendo como o “Apóstolo de Jesus Cristo” (1Cor. 1:1; 2Cor. 1:1) fazia propaganda de suas desventuras, asseverando que havia sobrevivido a um número espetaculoso de açoites, naufrágio e apedrejamentos.
Não se pode esquecer da suposta aparição de Jesus que, por sugestão, se acredita ter sido em Damasco (Gl. 1:17), quando dali em diante, o ex fariseu ficaria cego. As testemunhas dessa “Graça”, foram apenas os seus servos assalariados.
Atualmente, estudiosos do Novo Testamento já acreditam que ele possuía dificuldades prévias na visão, e até mesmo Carl Gustav Jung já havia desconfiado que ele poderia sofrer de epilepsia, de malária e até de cegueira psicogenética, conforme se observa em sua segunda carta aos Coríntios (12:7).
Isso explicaria, em muito, o porquê dele apenas ter forças para começar a escrever as suas cartas, fazendo apenas as saudações, para em seguida, os escribas continuarem, enquanto ele as ditava em grego.
Isto facilita a compreensão da grande incongruência em sua personalidade, uma vez que por carta se apresentava austero, enérgico e agressivo, mas enquanto falava às pessoas, era fraco e não sabia argumentar (2Cor. 10:10).

O Paulo de Tarso como Saulo, o fariseu e assassino de cristãos, foi um grande fracasso, até porque nem os judeus de Jerusalém, muito menos os de Damasco o aceitavam e graças ao ódio que disseminou, ele precisou fugir da cidade na escuridão da noite, escondido como um malfeitor dentro de um cesto (Atos, 9:20-25).
Por esses e outros motivos, os amigos de Jesus não o acolheram, mas o marketing de se achar escolhido por um Cristo que só ele viu, fez Paulo se arvorar com autoridade para levar suas opiniões pessoais como mensagem de Deus aos gentios, “Não sou apóstolo? Não vi Jesus, nosso Senhor?”(1Cor. 9:1).
A ambição dele era tão impressionante que não foram poucas as vezes que o vimos chamar a si de “um dos embaixadores de Cristo” (2Cor. 5:20), ou até mesmo se vendo como “um ministro de Cristo junto às nações”(Rm. 15:16).

Este é o Paulo de Tarso, o verdadeiro criador do Cristo Mítico e Místico do Cristianismo.
Este foi o homem que atiçou o ódio entre judeus e cristãos e depois fez o jogo inverso; eis o manipulador das massas que dizia ter sido “arrebatado até o terceiro céu” (2Cor. 12:2-4) e como um demagogo ainda fingia não ser “digno de ser chamado de apóstolo”, (1Cor.15:9).
Na verdade, foi um grande articulista em defesa de sua causa própria. Ganhou dinheiro entre judeus, fama entre os gentios, desenvolveu um sistema de crenças em que ora usava as Antigas Escrituras, ora as distorcia para agradar à plateia.
Graças à “graça” que ele disse ter sido por ela salvo, milhares de pessoas se jogaram nos braços da morte, nas arenas, esperando por uma segunda vinda de Cristo.
O Cristo Redentor de quem ele se dizia ser representante, vendendo com bases nas escrituras dos Judeus, velhas crenças travestidas em novas, o fez ser e fazer de tudo, a fim de conquistar uma ovelha para seu rebanho que até hoje se multiplica, “Para os judeus, fiz-me como judeus; para os que estão sujeitos à Lei, fiz-me como se estivesse sujeito à Lei; para aqueles que vivem sem Lei, fiz-me como se vivesse sem Lei; tornei-me tudo para todos.” (1Cor.9:20-22).

 

SEGUNDO ARTIGO:

26 de dezembro de 2020

A pergunta parece tola, mas quando se lê Paulo de Tarso em sua primeira carta aos Coríntios, especificamente em 11:1,”Sede meus imitadores, como eu mesmo sou de Cristo”, a situação se revela extremamente grave.
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A gravidade de Paulo se ter considerado espelho de Cristo e a buscar seus seguidores para uma religião que acabara de fundar entre os gentios, fez de Paulo não só um narcisista manipulador sob a óptica da Psicanálise, mas um estrategista político-religioso numa perspectiva da História.
 

A situação criada por Paulo e por seus “obscuros companheiros”, conforme os denomina o historiador Geza Vermes, foi tão distorcida e completamente destoante da mensagem de Jesus de Nazaré que, até hoje, os leigos crêem de forma crédula e ingénua que a mensagem de Jesus chegou ao Ocidente graças ao fariseu dissidente do Judaísmo.

Além de Paulo, nenhum de seus amigos conheceram Jesus e pouco se importaram em buscar a originalidade do pensamento do Galileu, muito menos, deram credibilidade aos pescadores que conviveram com ele.
Isto se explica por muitos argumentos. Entretanto, de início, ressalto dois, o que Paulo buscava para si era distinto do que reunia a comunidade judaica dos amigos de Jesus, em Jerusalém;
em seguida, nada mais do que óbvio, é que a vida e a mensagem de Jesus não despertava nele qualquer interesse, o que justifica a sua fixação obsessiva no sofrimento e na ressurreição daquele que passou a chamar de Senhor.
Por isso mesmo, se vê insistentemente sair das pregações de Paulo, a fé cega e irrestrita na Parusia, o que significa a crença na volta de Cristo para promover o Juízo Final e despertar os mortos para um reino glorioso.

Sendo assim, conforme já demonstrei em texto anterior, o senhor Paulo de Tarso foi o responsável directamente pela criação de novas crenças e adequações de antigas e que serviram de base para a Cristandade.
São raríssimos os momentos em que ele se revela em alguma afinidade com Jesus. O que se encontra neste sentido, se explica pela proximidade de crenças judaicas vigentes na época de ambos.
Em verdade, existem mínimas possibilidades, sequer mesmo teológicas, muito menos históricas, de encontrar continuidade da mensagem de Jesus naquela professada pelo narcisista Apóstolo dos Gentios.

Como Judeu que era, Yeshua ben Yossef ou conforme o conhecemos por Jesus, não aceitava qualquer referência a si que pudesse colocá-lo acima de seu Elohins (Criador). Até mesmo no que diz respeito aos poucos ensinos que lhe sobraram em autenticidade, vê-se a profunda diferença: “Portanto, deveis ser perfeito como o vosso Pai Celeste é perfeito”(Mt.5:48),
ao contrário de, como disse Paulo na sua Carta aos Coríntios: “Exorto-vos, portanto, sede meus imitadores.” (1Cor.4:16).

Para entender este pensamento atribuído a Yeshua, deve-se estudar a identidade cultural e religiosa do povo judeu do século I E.C (Era Comum), e não, fazer as devidas adequações, típicas da herança paulina, e que muitos ainda o fazem vinte séculos depois, como se isto fosse possível e honesto. Após breve introdução reflexiva, a pergunta inicial se mantém, “Como imitar alguém que não se conhece?”

Para tirar da disputa os pretensos seguidores de Jesus da Pós Modernidade e dar-lhes o devido lugar reconhecido de “Imitadores de Paulo”, faz-se mister esclarecer que qualquer evocação da figura de Cristo, assim como alguma suposta analogia do seu amor universal, nada disto tem a mínima relação com Jesus de Nazaré e com a essência da sua mensagem.

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VER:
LISZT RANGEL, http://lisztrangel.com/

 

O roustainguismo nas obras de Chico Xavier, por SÉRGIO ALEIXO

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O artigo que aqui se publica, da autoria de SÉRGIO ALEIXO tem muita importância e foi publicado em vários blogues (citado por vários autores) e na sua importantíssima obra “O PRIMADO DE KARDEC”

PREFÁCIO do livro da autoria de
Artur Felipe de A. Ferreira

Allan Kardec, o insigne Codificador do Espiritismo, inspirado nos ditados dos espíritos superiores, por chamou-nos a atenção para o perigo de aceitarmos sem exame o que nos chega do mundo espiritual.
Ressaltou, sempre que o pôde, a importância do estudo e do aprofundamento das questões, em nossa incessante busca pela verdade, para que não nos deixássemos levar por concepções fantasiosas e exóticas, sempre oriundas da ignorância acerca das leis naturais que nos regem a todos.
Confirmando este esforço conjunto dos espíritos verdadeiramente comprometidos com o bem e a justiça, o Espírito Erasto, presente à reunião geral dos espíritas de Bordéus—cidade em que o advogado J. B. Roustaing estava prestes a desenvolver suas estranhas teses —, advertiu acerca da luta que teriam aqueles adeptos do Espiritismo contra uma turba de espíritos inferiores, razão pela qual afirmou ser-lhe obrigação premuni-los contra o perigo.
Da mesma forma, Sérgio Aleixo nos brinda com a presente obra, cumprindo com o seu dever de espiritista, preocupado que é, e como todos o devemos ser, com os rumos do movimento espírita no Brasil e no mundo.
Deixou corajosamente de lado a postura inerme que predomina no nosso meio que, a pretexto de caridade, fecha os olhos para os desvios, adulterações e tentativas de ridicularização do Espiritismo.
Munido de dados históricos hauridos em fontes fidedignas, como bom discípulo de J. Herculano Pires, Sérgio Aleixo utiliza seu grande poder de observação e análise para mostrar que as teses rustenistas (roustainguistas) aportaram no Brasil, depois de ignoradas na França à época de Kardec, como um autêntico“Cavalo de Tróia”, que tem por objectivo provocar a cizânia, o cisma em nossas fileiras, justamente como Erasto, em Bordéus, previra que aconteceria, pela acção de “ditados mentirosos e astuciosos,emanados de uma turba de espíritos enganadores,imperfeitos e maus”.
Nada mais exacto, já que, para melhor ludibriarem, os espíritos que se comunicaram com Roustaing, através de uma só médium, Émilie Collignon, valeram-se, em seus ditados, de nomes venerados: os apóstolos de Jesus, Moisés, etc.
Porém, como os prezados leitores poderão observar,foram e ainda são muitos os artifícios utilizados na tentativa de impor aos espíritas toda uma série de conceitos, ideias e teorias que, além de antidoutrinárias, são absurdas e ilógicas e que, por diversas vezes,se chocam com a razão e o bom-senso.

Este trabalho de Sérgio Aleixo é, portanto, de fundamental importância, como mais um alerta que nos chega, para que possamos separar o joio do trigo em matéria de Espiritismo, ajudando-nos, ao demais, a entender como tudo se passou (e passa) e os meios empregados pelos espíritos mistificadores e falsos sábios na tentativa inglória de provocar a derrocada do Espiritismo com enxertias que se vão espraiando pouco a pouco, tal qual erva daninha num jardim de flores. Aproveitemos todos esta oportunidade de estudo e reflexão, de modo que possamos colaborar para a unidade doutrinária a partir do melhor entendimento do Espiritismo em suas bases sólidas, que se assentam na codificação kardeciana.
É seguindo este imperativo que o confrade Sérgio Aleixo nos presenteia, mais uma vez, com estudos diligentes e questionadores, que merecem, por parte de todos os espíritas sérios, muita atenção e respeito, a fim de que não nos tornemos pedra de tropeço àquilo que nos é mais caro: o Espiritismo.

 

Ao fim desta publicação encontra-se um vídeo recente, também da autoria de Sérgio Aleixo, que actualiza o tema do artigo.

 

Pode ser uma imagem de 2 pessoas, livro e texto que diz "SERGIO FERNANDES ALEIXO SERGIO FERNANDES ALEIXO 0 Espírito das Revelações Fundamentos Relação Espiritismo oCristianismo Cristo o MAIS PROFUNDO RELIGA Fundamentos históricos conceituais despiritimo SERGIO FERNANDES ALEIXO LEIXO Com quem falaram OS profetas? FUNDAME TOS BiBLICOS NOLOGIA ESPiRIT o Primado de Kardec Metodologia espírita ecisma rustenista"

.SergAl(o termo “rustenismo” é usado no Brasil como equivalente a “roustainguismo”, isto é, referido à obra de Jean-Baptiste Roustaing)


O rustenismo é deturpação perigosa, porque se alastra sorrateiro, não em suas obras principais, mas mediante livros psicografados por Chico Xavier.

Conforme prevê o assim chamado “Pacto Áureo” (05/10/1949), “cabe aos espíritas do Brasil porem em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de maneira a acelerar a marcha evolutiva do Espiritismo”. Pois bem! Isto passou ao art. 63 do estatuto da Casa-Mater do rustenismo no mundo, que regista:

O Conselho [Federativo Nacional da F.E.B.] fará sentir a todas as sociedades espíritas do Brasil que lhes cabe pôr em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de Francisco Cândido Xavier.

Entre outras piadas de além-túmulo, no capítulo I desta obra, “a amargura divina” de Jesus “empolga” toda uma “formosa assembleia de querubins e arcanjos” e ele, “que dirige este globo”,[1] não sabe sequer onde é o Brasil.
Não bastasse isto, no cap. XXII, o confuso Jean-Baptiste Roustaing emerge do estatuto da F.E.B. para ser equiparado a Léon Denis e a Gabriel Delanne, figurando adiante destes na condição de cooperador de Allan Kardec para “o trabalho da fé”.
Subsiste ainda o questionamento levantado por Júlio Abreu Filho em O Verbo e a Carne, isto é, por que Humberto de Campos se referiu a Roustaing, Denis e Delanne em Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho de 1938 e, no livro Crónicas de Além-Túmulo, de 1937, reportou-se tão só a Denis e Delanne?

Em O Consolador, de Emmanuel, há, igualmente, certas estranhezas. Será que houve, então, uma afronta à integridade conceitual do movimento espírita, do tipo “pílula dourada”, sob a chancela do trabalho do médium de maior projecção dos últimos tempos? Foi isto à revelia dele ou, por outra, com sua anuência? Mas como provar qualquer hipótese? Da própria F.E.B., em 1942, Chico Xavier recebeu a informação de que seus originais, após publicação, eram inutilizados por aquela instituição.[2]

A contradição seguinte parece mesmo sugerir o douramento da pílula rustenista na obra de Chico Xavier: o problema do Espírito Santo, expresso nos ns. 303 e 312 de O Consolador. O Espírito Santo não pode ser “a centelha do espírito divino, que se encontra no âmago de todas as criaturas” e, a um só tempo, uma “falange de Espíritos”. Só a primeira resposta, à questão 303, faz sentido à luz do Evangelho e da codificação kardeciana. Já a segunda, à pergunta 312, reflecte o rustenismo e, se for interpolação febiana, que ironia, porque se esmera em elucidar outra interpolação, mas bíblica.

O texto oferecido pelo interlocutor da F.E.B. (abaixo, a negrito), conforme parecer insuspeito do tradutor da Bíblia de Jerusalém (Paulinas, 1985), apresenta “um inciso ausente dos antigos manuscritos gregos, das antigas versões e dos melhores manuscritos da Vulgata, […] uma glosa marginal introduzida posteriormente” em 1.ª João, cap. 5, vv. 7-8, onde se lê: “Porque há três que testemunham [no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo, e esses três são um só; há três que testemunham na terra]: o espírito, a água e o sangue, e esses três são um só”.

Portanto, o interlocutor febiano, no n. 312 de O Consolador, driblou a parte do texto bíblico que se refere ao testemunho de Jesus em “espírito, água e sangue”, para só se referir à glosa marginal, ensejando a Emmanuel esta interpretação da Trindade: “Pai” => Deus, “Verbo” => Jesus, e “Espírito Santo” => “legião dos Espíritos redimidos e santificados que cooperam com o Divino Mestre, desde os primeiros dias da organização terrestre”. Definição tipicamente rustenista do Espírito Santo, assim como, por vezes, do Espírito da Verdade e mesmo do Consolador: “conjunto dos Espíritos puros, dos Espíritos superiores e dos bons Espíritos”; ou “falange sagrada dos Espíritos do Senhor”.[3]

Há, no entanto, um prefácio amistoso de Emmanuel ao livro Vida de Jesus, de Antonio Lima (F.E.B.) Na obra é defendida a tese do corpo meramente fluídico do Cristo. Da mesma forma em relação a Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, que menciona Roustaing ao lado de Delanne e Denis como cooperador de Kardec, e que é prefaciado por Emmanuel. Sobre A Grande Síntese, de P. Ubaldi, escritor que reeditou a queda angélica e a involução como pressuposto para a evolução, postulados afins do rustenismo, o jesuíta disse:

Aqui, fala a Sua Voz [de Jesus] divina e doce, austera e compassiva. […] é o Evangelho da Ciência, renovando todas as capacidades da religião e da filosofia, reunindo-as à revelação espiritual e restaurando o messianismo do Cristo, em todos os institutos da evolução terrestre. Curvemo-nos diante da misericórdia do Mestre e agradeçamos de coração genuflexo a sua bondade. Acerquemo-nos deste altar da esperança e da sabedoria, onde a ciência e a fé se irmanam para Deus.[4]

Ante um comunicado destes, natural é que alguns mais exaltados digam que Kardec foi superado por Ubaldi. Quanto a este pensador italiano, ao indigesto Roustaing e até ao excêntrico Ramatis, será que adeptos de suas doutrinas heterodoxas podem ter pleiteado para publicações afins o “aval” dos já cultuados instrutores de Chico Xavier, na intenção de facilitar a infiltração de tais obras no movimento espírita? E Chico? Analisava tudo? Infelizmente, não. Ele dizia que não era da sua competência entrar na apreciação sequer dos livros que psicografava, sendo um simples “animal de carga”.[5] E os Espíritos que davam o “aval”? Eram mesmo os seus guias? Em caso positivo, são confiáveis?
Normal é que o estudioso se reserve o direito de duvidar, até porque a codificação kardeciana assegura que “o melhor [médium] é o que, simpatizando somente com os bons Espíritos, tem sido enganado menos vezes”, assim como preconiza que, “por melhor que seja um médium, jamais é tão perfeito que não tenha um lado fraco, pelo qual possa ser atacado”.[6] Kardec já advertira também: “Pelo próprio fato de o médium não ser perfeito, Espíritos levianos, embusteiros e mentirosos podem interferir em suas comunicações, alterar-lhes a pureza e induzir em erro o médium e os que a ele se dirigem”. Consignara o mestre que este é, sim, “o maior escolho do Espiritismo” e que o meio determinante para evitá-lo é o “discernimento”; e por quê? Kardec assim responde:

As boas intenções, a própria moralidade do médium nem sempre são suficientes para o preservarem da ingerência dos Espíritos levianos, mentirosos ou pseudossábios, nas comunicações. Além dos defeitos de seu próprio Espírito, pode dar-lhes guarida por outras causas, das quais a principal é a fraqueza de carácter e uma confiança excessiva na invariável superioridade dos Espíritos que com ele se comunicam.[7]

O problema, todavia, é mais complexo, transcende a simetria óbvia entre a F.E.B. e a obra de Roustaing. Não constitui rustenismo a doutrina das almas gémeas, que, segundo Emmanuel, são criadas umas para as outras e umas às outras destinadas na eternidade, contrariando o comentário kardeciano ao n. 303-a de O Livro dos Espíritos, que diz: “É necessário rejeitar esta ideia de que dois espíritos, criados um para o outro, devem um dia fatalmente reunir-se na eternidade”. A F.E.B. até questionou o ensino das almas gémeas na obra O Consolador, ali o deixando, contudo, a pedido do próprio jesuíta.[8]

Quanto a isto, já não faz o menor sentido a hipótese de interpolação da Casa-Mater por força do rustenismo, que nunca professou a existência de almas gémeas, assim como jamais disse, por exemplo, que Marte é mais avançado em civilização do que a Terra, ou que os exilados adâmicos vieram de um suposto orbe não purificado física e moralmente, que guarda muitas afinidades com nosso mundo na órbita do “magnífico sol” Capela; na verdade, segundo a astronomia, um sistema de sóis com ausência de planetas.[9]

De fato, consta que Emmanuel teria dito a Chico Xavier que deveria permanecer com Jesus e Kardec caso lhe aconselhasse algo em desacordo com as palavras de ambos.[10] Mas nenhum ensino contrário a Kardec deixou de ser publicado por essa razão. Eis o fato.[11] De mais consistente lógica e de melhor proveito à clareza analítica, portanto, é que se atribua ao próprio Emmanuel tudo aquilo que dos seus livros conste.
Só Chico Xavier teve o poder de dirimir as dúvidas, mas nunca o fez, nunca levantou uma suspeita sequer sobre a F.E.B.; ao contrário, não é difícil encontrar-lhe pronunciamentos com os mais efusivos aplausos à Casa do “Anjo” Ismael, assim como ao grande J. Herculano Pires, maior opositor do rustenismo febiano. O médium sempre aparece ao lado de todos os partidos.
De tudo, restam os objectos, milhares de milhares de livros, o papel e a tinta, a confusão nas estantes, sempre bem acessível aos neófitos que chegam às casas espíritas e aos incautos leitores em busca de um Consolador que lhes dê milagrosas respostas. Só se pode julgar do que foi publicado. Eis a verdade. Cabe, pois, aos espíritas atentos a apreciação rigorosa de toda obra mediúnica, segundo os padrões de Kardec. Este deve ser o procedimento dos adeptos estudiosos, e a produção atribuída a qualquer Espírito não pode nem deve escapar a isso, seja quem for ou quem se diga ser.
Não passa de temeridade, com lamentáveis consequências já em curso, a ideia de que não se deve agir deste modo para não confundir ou chocar os simples. Na prática, isto é licitar ao Espiritismo que erros manifestos sejam arrolados à conta de patrimônio das consolações que prodigaliza a seus adeptos.
Encaminhemos os simples à segurança e pureza da fonte original do Espiritismo, à codificação kardeciana, em vez de entretê-los com equívocos que, mais tarde, os surpreenderão desprevenidos e, quem sabe, os convidarão à apostasia. O que disse Erasto a Kardec?
Deve-se eliminar sem piedade toda palavra e toda frase equívocas, conservando no ditado somente o que a lógica aprova ou o que a Doutrina já ensinou. […] Na dúvida, abstém-te, diz um dos vossos antigos provérbios. Não admitais, pois, o que não for para vós de evidência inegável. Ao aparecer uma nova opinião, por menos que vos pareça duvidosa, passai-a pelo crivo da razão e da lógica. O que a razão e o bom-senso reprovam, rejeitai corajosamente. Mais vale rejeitar dez verdades do que admitir uma única mentira, uma única teoria falsa. Com efeito, sobre essa teoria poderíeis edificar todo um sistema que desmoronaria ao primeiro sopro da verdade, como um monumento construído sobre a areia movediça.[12]
Para o movimento espírita, no entanto, isto não há passado de meras frases de efeito, inseridas em retóricas quase sempre desmentidas pelo cotidiano institucional da maior parte dos adeptos do espiritismo à moda da Casa-Máter do rustenismo. Sobre o assunto espinhoso deste capítulo, decerto que muito a propósito são as reflexões de nosso valoroso confrade Artur Felipe de A. Ferreira, em seu artigo “De Que Lado Está Emmanuel?”.[13]


[1] Revista Espírita. Jan/1864. Um Caso de Possessão. Senhorita Júlia. Nota: O sábio Hahnemann é quem afirma ali que o Espírito de Verdade dirige este globo, ou seja, a Terra.
[2] Cf. SCHUBERT, Sueli Caldas. Testemunhos de Chico Xavier, p. 23-24. Apud DA SILVA, Gélio Lacerda. Conscientização Espírita. Chico Xavier, Emmanuel e a F.E.B.
[3] Os Quatro Evangelhos. Vol. I, n. 9; Vol. II, n. 187; Vol. IV, n. 1.

Nota: Quanto ao Espírito da Verdade, é curioso, o rustenismo muito se divide, porque subsiste na obra a instrução dos bons Espíritos que, em Bordéus — na casa de Roustaing e na de Sabo —, chegaram a revelar que se tratava de Jesus, como o próprio advogado fez questão de consignar a Kardec, bem antes do cisma que promoveria. (Cf. Revista Espírita. Jun/1861. Correspondência.) Evidentemente, os Espíritos que passaram a substituir os Iniciadores se valeram de uma autêntica revelação destes para impor aos bordeleses mais incautos lamentáveis sistemáticas a título de comandos do Cristo, de Moisés, dos evangelistas, de Maria e dos apóstolos. J.-B. Roustaing, infelizmente, faliu ante provável missão que não chegou a cumprir, tornando um pouco mais árdua a gigantesca tarefa do gênio lionês. Não foi sem motivo que disse o mestre sobre o livro rustenista: “[…] ao lado de coisas duvidosas, em nosso ponto de vista, encerra outras incontestavelmente boas e verdadeiras, e será consultada com proveito pelos espíritas sérios […]”. (Revista Espírita. Jun/1866. Os Evangelhos Explicados.)

[4] Ob. cit. 18.ª ed. Trad.: Carlos Torres Pastorino e Paulo Vieira da Silva. Vol. II. Z
5] Cf. Emmanuel. 15.ª ed., F.E.B., Prefácio, p. 21. Cf. DVD Pinga-Fogo 2. Clube de Arte. Cf. ALEIXO. Ensaios da Hora Extrema. Não Há Médiuns Infalíveis.
[6] O Livro dos Médiuns. XX, 226, 9.ª e 10.ª
[7] Revista Espírita. Fev/1859. Escolhos dos Médiuns.
[8] Cf. n. 323 e nota à primeira edição.
[9] Cf. Emmanuel, “A Tarefa dos Guias Espirituais”. A Caminho da Luz, cap. 3. Cf. ALEIXO. Ensaios da Hora Extrema. Kardec e os Exilados.
[10] Diálogo dos Vivos [em parceria com Herculano Pires], cap. 23: Permanecer com Jesus e Kardec.
[11] Cf. ALEIXO. Ensaios da Hora Extrema. Léon Denis, Emmanuel e as Almas Gêmeas; Mística Marciana e Segurança Doutrinária; Kardec e os Exilados; Sobre André Luiz.
[12] O Livro dos Médiuns, 230.
[13] http://coerenciaespirita.blogspot.com/2008/10/de-que-lado-est-emmanuel.html

O vídeo acima, encontra-se no YouTube horizontalmente invertido, da direita para a esquerda. Isso deforma inclusivamente o título do livros que Sérgio Aleixo segura na mão “Francisco Cândido Xavier, Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”. Tentei mudar isso, mas não consegui. O próprio rosto de Sérgio Aleixo está um pouco deformado.

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