“O Espiritismo na Arte” de Léon Denis, breve tratado sobre o destino sublime de todas as humanidades

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Wassily Kandinsky, Montanha (1909) óleo s/ tela, 109 x 109 cm, visto em WikiPaintings – Visual Art Encyclopedia – Städtische Galerie im Lenbachhaus, Munique, Alemanha

Os visitantes encontrarão um ficheiro PDF da obra referida ao fundo destes textos que pedem a vossa boa atenção de leitores.

O livro que aqui se apresenta, “O Espiritismo na Arte”, da autoria de Léon Denis, é muito difícil de sintetizar, pela abundância de qualidades e informações que nos oferece.
O entendimento da arte é uma área especializada de conhecimentos e, certamente, uma daquelas que mais genuinamente acompanha e sinaliza a evolução dos espíritos.

São incessantes as indicações de parte dos autores da obra que nos dão a conhecer a impossibilidade de compreendermos certas ideias expressas devido ao condicionamento evolutivo das almas. Com efeito, muitas das coisas que são ditas chocam na barreira intransponível de uma linguagem incapaz de ir além da troca das ideias de sentido sempre muito relativo; o das nossas palavras, cujo significado se restringe ao que os dicionários pobremente nos oferecem para defini-las, infinitamente longe das linguagens do pensamento dos altos céus inundado de luz e música.

Falei atrás em autores e quem lê deverá ficar um pouco surpreendido por esse facto, pois que a autoria designada da obra é de uma só pessoa, Léon Denis. O seu conhecimento das coisas, nesta como ao longo de toda a sua monumental e excelente tarefa de estudioso, escritor e divulgador do espiritismo, também se configura como um “ensinamento comunicado pelos espíritos” dada a interpenetração de noções elaboradas pela sua própria sensibilidade. Incluo portanto na autoria da obra a pluralidade das entidades que “comunicam”, isto é – que escrevem (espíritos um e os outros!…).
A vasta percepção dos ensinamentos adquiridos pela leitura das obras de Léon Denis constitui sempre um eco genuíno do “diálogo entre humanidades”, isto é – entre a nossa vivente no corpo material – e a sua fraterna e tão íntima contraparte vivente no mundo do Além.
Não vou muito para além disto nesta apresentação para não tornar longas as razões que a leitura do livro pode fornecer melhor que a sua mesmo que entusiástica apresentação. A minha apresentação é, ou deseja ardentemente ser, entusiástica, não somente pelo que o livro nos diz mas sobretudo pela janela aberta de ansiedade esperançosa que desenha na mente de quem o leia; Janela aberta que dá para as altitudes que nos esperam depois da grande jornada de revisitação das vidas.
Muitas e muitas das coisas ditas no livro deixam-nos perplexos, com mais dúvidas que certezas, mas tão luminosamente ansiosos de espaço e de emoções que vale a pena correr o risco de lê-lo, para que disso tenhamos consciência, ou para que disso recolhamos um certamente vigoroso impulso nessa direcção.
Entusiasmado com esse facto fiz os possíveis, ao “tratar” o livro para uma leitura ao meu gosto, de prepará-lo para terceiros com a intenção honesta de entendimento o mais fácil possível.
Não vou expandir-me em razões que justifiquem esse trabalho. Aceito, por isso, todas as críticas que queiram fazer-me e prometo corrigi-las, se fizerem o favor de me escrever, fornecendo as respectivas razões.

Um dos reparos que foi feito a Léon Denis a respeito de certos momentos desta obra, refere a tendência, muito francesa, de se deixar entusiasmar pela bondade das tradições culturais gaulesas. A adjectivação de alguns críticos é pesada e não vou elaborar muito a esse respeito.
A já muito provecta idade do autor quando escreveu este trabalho, os vários sofrimentos importantes que o seu corpo físico lhe impôs – entre eles, o da cegueira – obrigam-me a aceitar como uma dádiva excepcionalmente generosa da sua abnegação, o trabalho que fez com toda a habitual lucidez nos últimos anos da sua existência.
Atendendo que os escritos não foram por ele colocados em livro e que apenas os publicou numa revista do seu próprio país para uma minoria sócio cultural com características muito próprias, deram-me coragem para omitir no texto as referidas ideias de algum “chauvinismo francófilo”. Coloquei nesses pontos o símbolo seguinte: (…)
Quem quiser dar-se ao trabalho pode ir lê-las nos textos originais, dado que os dou a conhecer com toda a clareza.

Ilustrações de Wassily Kandinsky

Tenho uma enorme admiração pela obra deste artista e as imagens que incluo são todas anteriores a 1922, ano em que foram publicados os artigos mensais de Léon Denis. Não tenho dúvidas que um artista da craveira de Wassily Kandinsky, que residiu muito tempo em Paris na fase derradeira da sua vida, deve perfeitamente ter sido do conhecimento do cultíssimo Léon Denis. Foi aliás não apenas um artista criador de enorme talento mas também um pensador do mais elevado valor intelectual e, impossível seria omiti-lo, profundamente espiritualista.
É mundialmente famosa a sua notável obra “Do espiritual na Arte”, que gostaria de vir a abordar nestas páginas com o devido cuidado e aprofundamento.
Sem ser uma obra espírita, seria uma forma excelente de reforçar tantas das empolgantes afirmações que nos oferece “O Espiritismo na Arte”, obra raríssima pelo tema e pelos seus admiráveis conteúdos.
Nela, pela mão e com os comentários de Léon Denis, outros insignes autores sem explicarem o que não é possível explicar, estimulam a convicção profunda da elevação sem limites que o nosso destino nos reserva, na longa estrada que merece ser percorrida com plena coragem, com vontade inabalável e a mais segura certeza de vamos alcançá-la.

espiritismo.cultura@gmail.com

Comentário final a “O Espiritismo e a Arte” da autoria de Léon Denis:

O estudo do Espiritismo nas suas relações com a arte incide nos mais vastos problemas do pensamento e da vida. Mostra-nos a ascensão do ser, na escala das existências e dos mundos, em direção a uma concepção sempre mais ampla e mais precisa das regras da harmonia e da beleza, segundo as quais todas as coisas são estabelecidas no Universo.
Nessa ascensão magnífica, a inteligência cresce pouco a pouco; os germes do bem e do belo, nela depositados, desenvolvem-se ao mesmo tempo que a sua compreensão da lei de eterna beleza se amplia.
A alma chega a executar a sua melodia pessoal, sobre as mil oitavas do imenso teclado do Universo; É penetrada pela harmonia sublime que sintetiza a ação de viver e interpreta-a segundo seu próprio talento, desfruta cada vez mais as felicidades que a posse do belo e do verdadeiro proporciona; felicidades que, desde este mundo, os verdadeiros artistas podem entrever.
Assim, o caminho da vida celeste está aberto a todos, e todos podem percorrê-lo, por seus esforços e seus méritos, e conseguir a posse desses bens imperecíveis que a bondade de Deus nos reserva.
A lei soberana, o supremo objetivo do Universo é, por conseguinte, o belo.
Todos os problemas do ser e do destino se resumem em poucas palavras. Cada vida deve ser a realização do belo, o cumprimento da lei. O ser que alcança uma concepção elevada dessa lei e das suas aplicações, deve ajudar todos aqueles que, abaixo dele, persistem no esforço por se elevarem .
Por sua vez, os seres inferiores devem trabalhar para assegurar a vida material e, em seguida, tornar possível a liberdade de espírito necessária aos pensadores e aos pesquisadores. Assim se consolida a imensa solidariedade dos seres, unidos numa ação comum.
Toda a ascensão da vida em direção aos cumes eternos, todo o esplendor das leis universais se resumem em três palavras: beleza, sabedoria e amor!.

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Léon Denis – O Espiritismo na Arte

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O estado das almas após a morte – JOHANN CASPAR LAVATER – seis cartas de um sábio suíço 59 anos antes de “O Livro dos Espíritos”

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Sophie Marie Dorothea Auguste Louise de Württemberg (1759-1828)
Sophie Marie Dorothea Auguste Louise de Württemberg (1759-1828)

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Apresentação do trabalho que ao fundo se encontra em ficheiro PDF

– Correspondência que Johann Caspar Lavater, sábio suíço, endereçou a Maria Feodorovna, de seu nome de família Sophie Marie Dorothea Auguste Louise de Württemberg (1759-1828) segunda esposa de Paulo Petrovich Romanov (1754-1801), herdeiro de Catarina II e que viria a ser Paulo I imperador da Rússia; Seis cartas de um sábio suíço escritas 59 anos antes de “O Livro dos Espíritos” publicadas na REVISTA ESPÍRITA de ALLAN KARDEC em Março, Abril e Maio de 1868

É de crer que os dotes de mediunidade e a elevação espiritual de Maria Feodorovna e o manifesto interesse do seu marido no tema em questão possa ter levado o casal, que visitara Lavater na Suiça antes de Paulo Petrovitch ter ascendido ao trono, a solicitar-lhe os esclarecimentos que sabiam que ele poderia fornecer-lhes.
Aqui se publica, em documento PDF, a correspondência acima referida, cuja excepcional qualidade literária e o surpreendente nível dos conhecimentos e sensibilidade espírita surpreendem qualquer leitor por terem surgido muito tempo antes de ter sido codificada a doutrina em questão.

Já conhecia estes trabalhos de há muito por inclusão dos mesmos numa obra muito conhecida de Léon Denis, “O Porquê da Vida”.

A versão publicada que eu conhecia dessa obra, editada pela FEB, não refere a Revista dos Espíritos  de Março, Abril e Maio de 1868 como fonte dos textos e talvez por isso não publica os comentários de Allan Kardec e mais uma importante comunicação do próprio Lavater sobre o espiritismo, feita a 13 de Março de 1868 na Sociedade de Paris, pelo Senhor Morin, em sonambulismo espontâneo.

A versão em língua portuguesa a que recorri, foi colhida num importante instituto para o estudo da obra de Allan Kardec, há muito recomendado nas páginas de “espiritismo cultura” e de “espiritismo estudo”: o IPEAK, Instituto de Pesquisas Espíritas Allan Kardec.

Para que não haja equívocos, a primeira coisa de que faço anteceder esta publicação é a opinião de Allan Kardec a respeito dessas cartas.

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Johann Caspar Lavater, pintura de Alexander Speisegger, 1785, Gleimhaus Halberstadt

Johann Caspar Lavater (1741-1801), foi poeta, dramaturgo, teólogo e conselheiro espiritual da área do protestantismo, tendo estabelecido relações de amizade com muitos dos mais notáveis intelectuais e pensadores do seu tempo.
Uma das tarefas a que se dedicou – que nesse tempo suscitou vivo interesse – foi a criação dos estudos de fisiognomia, sobre a análise do carácter das pessoas com base nos seus traços fisionómicos. Foi um intelectual de vastos recursos, escritor dotado e homem de causas, sensível quanto à moralidade e à justiça, sendo notável a correspondência que trocou com individualidades culturais de elevada craveira da época em que viveu. A sua vida, riquíssima de empenhamentos de valor, acabou dolorosamente ao ter participado na resistência oferecida aos invasores franceses de Zurique.

O teor exacto da sua participação no exercício da mediunidade, a forma como adquiriu os vastos conhecimentos sobre o mundo espiritual e as suas regras antes de ter sido fundado o espiritismo, julgo serem um mistério oculto pelo tempo, podendo estar algures detalhes que não conheço.
Com efeito, a sistemática aversão da cultura oficial e académica perante os fenómenos da vida do Além, levaram a que o interesse de Lavater por essa temática fosse, mais do que falsificada e posta a ridículo, inteiramente escamoteada.
As árvores, sabemo-lo de boa fonte, conhecem-se pelos frutos. A árvore de Johann Kaspar Lavater produziu frutos cujo aroma perdurou pelos séculos e nós somos apenas um exemplo dos muitos espíritos que com eles se sentiram felizes e ilustrados.

Johann Caspar Lavater
O ESTADO DAS ALMAS APÓS A MORTE

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Camila ou a mediunidade do povo não-espírita no tempo da penumbra

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  • A mediunidade de Camila
  • Outras manifestações dos espíritos
  • Comentários e anexos à narrativa acerca de Camila
  • Espíritos bons e espíritos maus
  • A Dupla Vista
  • Qualidades dos médiuns/Allan Kardec
  • Qualidade dos espíritos/Allan Kardec
  • “O martirológio dos médiuns”/Léon Denis

Os adeptos convictos da doutrina espírita dizem que, conduzindo a evolução completa dos espíritos à máxima sabedoria, isso equivale por certo à conquista da máxima felicidade.
Todo o tempo que tivermos de passar distantes desse objectivo ideal, será um tempo de penumbra e desconhecimento, por isso, de infelicidade.
Pobres dos mártires da mediunidade, durante séculos tão duramente incompreendidos na posse de uma faculdade que ninguém, nem eles mesmos, sabiam explicar.
Terá sempre o povo de expiar a culpa dos iluminados ausentes, distraídos ou simplesmente inexistentes?
É favor lerem até ao fim.

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NOTA:

Esta narrativa é feita por uma testemunha directa que viveu os factos e que residia muito perto de casa de Camila. Os nomes das pessoas e da localidade onde ocorreram são fictícios, mas podem ser largamente testemunhados (acrescentados até de muitos pormenores) por todos os habitantes da localidade onde tiveram lugar.
Note-se tudo se passava no período em que a doutrina espírita era proíbida pelo regime fascista vigente muito favorável à igreja católica.
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132-C-EA mediunidade da Senhora Camila, uma figura conhecida a nível nacional

No Olival da minha infância havia uma personalidade conhecida em todo o país que nem o Padre Queirós conseguiu destronar: a Senhora Camila ou simplesmente a Camila, também conhecida como “a bruxa do Olival”.
Ela ficava ofendida quando lhe chamavam bruxa, dizia simplesmente que era “médium”. Segundo a cultura espírita um “médium” é uma pessoa que, por faculdades inatas, tem a capacidade de efetuar comunicações com os espíritos, ou seja, com as almas das pessoas que viveram neste mundo e já morreram, e ser veículo dessas comunicações.
A Camila afirmava que punha as suas capacidades mediúnicas ao serviço dos outros. O problema é que fazia disso profissão e, embora não levasse propriamente dinheiro a ninguém, quem lá ia pagava-lhe como queria ou podia. E parece que ganhava o suficiente para viver pois dava para sustentar o marido e um rol de sobrinhos (ela não tinha filhos), embora num nível de vida baixinho, de acordo com a média do Olival.
Atendendo ao nível de vida da altura, à evidente humildade de Camila e de todos os seus familiares, à sua acessibilidade e aos serviços que prestava, o conceito em que era tida não era de pessoa exploradora, dado que – dos seus parcos meios – ainda repartia do que tinha.

No Olival quase toda a gente era religiosa, acreditava em Deus, na existência da alma, na vida para além da morte, no Céu, no Inferno, enfim, em tudo o que dizia a doutrina católica. A questão era saber se as almas do outro mundo podem manifestar-se através de outras pessoas, os “médiuns”, e se podem ter influência na vida dos que cá estão. Ninguém tinha resposta para isso.
O Padre Queirós, pároco ao tempo todo poderoso na localidade que em tudo interferia, era contra a Camila, é claro, apesar de no Novo Testamento, nos três Evangelhos sinópticos – S. Mateus, S. Marcos e S. Lucas – serem referidas diversas situações em que Jesus de Nazaré encontrou pessoas atormentadas por espíritos malignos e ele próprio expulsava os “demónios” ficando as pessoas completamente bem e aliviadas.

NOTA: É provável que naquela época, como ainda acontece nos nossos dias, se atribuíssem à influência dos “demónios” todas as enfermidades cuja causa era desconhecida, principalmente a mudez, a epilepsia e a catalepsia. Portanto, muitas vezes, aquilo que se chamou “expulsão dos demónios” era, de facto, mais uma “cura” que Jesus efectuava.

Por exemplo, S. Mateus, cap. 8, 16 conta-nos:

“À tarde levaram a Jesus muitas pessoas que estavam possuídas pelo demónio. Jesus, com a sua palavra, expulsou os espíritos e curou todos os doentes”.

E sobre a missão dos discípulos, de que os padres devem ser sucessores, diz-nos S. Lucas, cap. 9, 1-2:

“ Jesus convocou os Doze e deu-lhes autoridade sobre demónios e para curar doenças. E enviou-os a pregar o reino de Deus e a curar.”

 

NOTA: A palavra possesso, na sua aceção vulgar, supõe a existência de demónios, ou seja, de uma categoria de seres de natureza má, e a coabitação de um desses seres com a alma, no corpo de um indivíduo. Mas, como não há demónios nesse sentido, e como dois Espíritos não podem habitar simultaneamente o mesmo corpo, também não há possessos, segundo as ideias ligadas a essa palavra. Pela expressão possesso não se deve entender senão a dependência absoluta da alma em relação a Espíritos imperfeitos que a subjuguem.

Os padres da igreja católica, ao serem “ordenados” recebem entre outros poderes o de “expulsar os espíritos malignos que andam no mundo para atormentar as almas”, ou seja, de fazerem exorcismos. São contudo muito raros os padres que exercem esse poder.
Vi na televisão uma reportagem sobre um padre já idoso, que era exorcista, dizia-se como tal e tratava pessoas atormentadas (a reportagem mostrava um caso concreto).
Explicou que além de padre tinha capacidades mediúnicas, que conseguia comunicar com os espíritos que atormentavam as pessoas, e afastá-los, de modo a libertá-las do seu sofrimento.
Dizia-se no Olival que os padres não queriam exorcizar os espíritos que atormentavam as pessoas porque corriam o risco de eles próprios ficarem atormentados, risco que não queriam correr, além de que nem todos tinham capacidades mediúnicas.
Explicava ainda o padre exorcista que havia outros em várias dioceses, escolhidos pelos bispos, que reconheciam as suas capacidades. Tudo dentro da Igreja Católica.
Mas o Padre Queirós negava todos os poderes da Camila, ameaçava quem lá fosse com o Inferno. Contudo as pessoas, mesmo as que não acreditavam, estavam como o espanhol que afirmava:“Yo no me creo en brujas, pero que las hay, las hay”.
Toda a gente tinha medo de ser apoquentado pelas almas do outro mundo e ninguém a incomodava.
A Camila era uma boa pessoa e de boas contas. Era a pessoa mais gorda que nós conhecíamos e ainda parecia maior ao lado do marido, pequeno e franzino. Andava vestida à moda da aldeia daquele tempo, humildemente, com uma saia mais ou menos justa pelo joelho, um avental, sem meias e descalça todo o ano, em casa ou na rua. Dizia que por ser forte não aguentava os sapatos.
Vivia numa casa muito humilde onde tinha construído uma divisão à parte, a que chamava a “casa dos trabalhos”, onde recebia os seus clientes e tinha a ajuda de vários colaboradores seus familiares.
Às vezes na rua ouviam-se vozes estranhas e contava-se que, quando recebia os espíritos, estes falavam com a sua própria voz, pela boca da Camila.
Também ela, por vezes , era atormentada por “Espíritos maus” que não conseguia afastar.
Os familiares procuravam ajudá-la a libertar-se como podiam e, nesse caso, ouvíamos na rua choros e gritos e às vezes até insultos, mas tudo acabava por se resolver.

NOTA: Sabemos que não é este o processo que o Espiritismo aconselha, mas era o que eles, por desconhecimento, faziam. “As práticas do exorcismo, até hoje vigentes no Judaísmo e no Catolicismo, destinam-se a afastar o espírito inferior, a que chamam “demónio”, de maneira agressiva e violenta.
No espiritismo o método empregado é o da persuasão progressiva do obsessor e do obsidiado (o possesso, como se dizia). É o que se chama “doutrinação”, ou seja, esclarecimento de ambos à luz do espiritismo.
Não se usa nenhum ingrediente especial. Emprega-se apenas a prece e a conversação persuasiva. Esclarecido o obsidiado, atinge-se o obsessor, que ficam, por assim dizer, vacinados contra novas ocorrências obsessivas.” (J. H. P.)

As pessoas que frequentavam a casa da Camila eram de vários níveis: se era gente pobre ou da classe média sempre passavam pela venda próxima a comer e a beber qualquer coisa e também a descansar. Vinham de camioneta até à localidade à beira da estrada e depois a pé até ao Olival. Outras vinham em carros de praça. Mas às vezes apareciam grandes carros de luxo de pessoas ditas importantes que não queriam ser vistas e muito menos reconhecidas. A Camila tinha, por isso, alguma influência mesmo fora do Olival.

Num ano em que estivemos nas Termas, ela também lá estava. Logo no primeiro dia, sem nada lhe pedirmos e porque éramos conhecidos e vizinhos, arranjou-nos uma consulta rapidíssima no médico da Termas. Também verificámos que tratava o dono das Termas, do Hotel e das Pensões com o maior à vontade e ia à cozinha buscar comida e petiscos que distribuía pelos seus conhecidos.
Lembro-me de um dia nos ter trazido um pratinho de moelas como grande petisco e de que eu, por ser ainda criança, não gostei nada. O dono das termas e todos os funcionários a tratavam com o maior respeito e cordialidade como se de pessoa íntima se tratasse.
A Camila era conhecida por todo o lado e pôs o Olival no mapa de Portugal. As tais pessoas que lá iam contavam as suas histórias, a razão porque lá iam, os resultados que tinham alcançado, etc. Às vezes contavam coisas mirabolantes.

Lembro-me de uma conversa de um homem dos seus quarenta anos, que vinha sozinho, a quem um tio meu se atreveu a perguntar se ele acreditava mesmo que a Camila tinha o poder de curar. A resposta foi pronta:
– Absolutamente, disse o homem. Absolutamente. De tal modo que farei tudo o que ela me mandar fazer.
O meu tio ficou perplexo. Porquê tanta convicção? Então o homem contou a história.
Disse que a primeira vez que fora à consulta fê-lo como último recurso, num grande desespero. Tinha uma filhinha de seis anos muito doente e já tinha recorrido a vários médicos que não conseguiram curá-la. Mandaram-na para casa “desenganada”, como se dizia, inconsciente, à espera do fim.
Tinha-a deixado nesse estado quando partiu para o Olival. Foi à Camila, ela comunicou com os espíritos, ele contou tudo o que pôde e pediu ajuda. Então o Espírito, através dela, respondeu:
– Não chores mais, a tua menina vai melhorar.
O homem mostrou-se incrédulo e o Espírito continuou:
– Já começou a melhorar. Neste momento está sentada na cama a comer uma tigela de sopas de leite.
O Espírito deu-lhe alguns conselhos de procedimentos a seguir, a consulta acabou e o homem saiu desanimado. Não acreditava no que tinha ouvido e pensava que a filha ia morrer.
Nessa altura não havia telemóveis nem sequer telefone para confirmar os factos. Foi para casa e ao chegar esperava-o a esposa sorridente, com a menina ao colo, que confirmou a história das sopas de leite e até a hora em que tinha acontecido.
Desde então o homem ia com frequência à Camila quando tinha qualquer problema ou precisava de algum conselho, ou mesmo só para agradecer e dizia-o a toda a gente.

Outras manifestações de espíritos

203-O-ExorLá em casa nunca fomos à bruxa ou a um “médium”, nem à Camila nem a qualquer outro lado. Mas a verdade é que tínhamos razões de sobra para acreditar “que havia coisas difíceis de explicar”, como diziam. Só que não queríamos envolver-nos num domínio desconhecido em que havia pessoas sérias e conhecedoras mas também muitos oportunismos e aldrabices, e de que na realidade tínhamos medo.
Lembremo-nos de que quando os meus pais foram morar para a casa pequena e pobre da Rua onde eu nasci, ela foi ainda mais barata por ter fama de ser “assombrada”. E eles bastante se assustaram com essa assombração.
Contavam os meus pais (os dois ouviam e sentiam a mesma coisa ao mesmo tempo) que durante a noite, muitas vezes, começavam a ouvir umas pancadas, como se fossem uns passos, a caminhar pela casa e a dirigirem-se à porta do quarto.
A partir do momento em que as começavam a ouvir ficavam completamente paralisados, incapazes de se mexer e de falar, fosse por medo ou por qualquer outra razão. Os passos entravam no quarto, saltavam para cima da cama e começavam a calcá-los, lentamente, caminhando desde os pés até ao pescoço (nos dois ao mesmo tempo).
Paravam um pedacinho calcando na garganta e, quando eles já estavam cheiinhos de medo de ficar asfixiados, os passos começavam a retirar-se e iam-se embora da mesma forma que tinham chegado. Só quando já não se ouviam, os meus pais voltavam a ser capazes de conversar um com o outro. Ouvi-os contar esta história inúmeras vezes.
Eles tinham muito medo mas nem pensavam em sair daquela casa pois não tinham dinheiro nem alternativa. Limitavam-se a rezar. Passados uns tempos largos os passos deixaram de aparecer.

Segundo Allan Kardec, “as pancadas e os movimentos são para os Espíritos os meios de atestarem a sua presença e chamarem sobre eles a atenção, exatamente como quando uma pessoa bate para advertir que há alguém”. Eles estarão a precisar de ajuda e a solução não é fugir-lhes mas sim ajudá-los, se não houver outro processo, através de um “médium”, por exemplo, para tentar saber o que se passa; se não for possível, pelo menos pela oração, para que encontrem o seu caminho junto dos espíritos de luz.
Como se torna absolutamente claro por esta narrativa, estes factos não foram inventados, lidos num suplemento de fim de semana ou vistos na televisão. Foram vividos pelos meus pais e são diretamente conhecidos por mim, por meus irmãos, por todos os outros membros da família e poderão ser largamente acrescentados por um inquérito local feito junto das pessoa de certa geração.

224-SomosEspíritos bons e Espíritos maus
In “O Espiritismo na sua expressão mais simples”, de Allan Kardec

Acreditou-se que os Espíritos, pelo único fato de serem Espíritos, deviam ter a soberana ciência e a soberana sabedoria: foi um erro que a experiência não tardou a demonstrar.
Entre as comunicações dadas pelos Espíritos, há as que são sublimes de profundeza, de eloquência, de sabedoria, de moral, e não respiram senão a bondade e a benevolência; mas, ao lado disso, há as muito vulgares, levianas, triviais, grosseiras mesmo, e pelas quais o Espírito revela os instintos mais perversos.
É, pois, evidente que elas não podem emanar da mesma fonte e que, se há bons Espíritos, há também Espíritos maus.
Os Espíritos, não sendo senão a alma dos homens, não podem naturalmente tornar-se perfeitos deixando o seu corpo; até que hajam progredido, conservam as imperfeições da vida corpórea; por isso, existem em todos os graus de bondade e de maldade, de saber e de ignorância.
Os Espíritos comunicam, geralmente, com prazer e para eles é uma satisfação ver que não foram esquecidos; descrevem voluntariamente as suas impressões ao deixar a Terra, a nova situação, a natureza das suas alegrias e sofrimentos no mundo dos Espíritos onde se encontram; uns são muito felizes, outros infelizes, alguns mesmo suportam tormentos horríveis, segundo a maneira pela qual viveram e o emprego bom ou mau, útil ou inútil que fizeram da vida.
Ao observá-los em todas as fases da sua nova existência, segundo a posição que ocuparam na Terra, seu género de morte, o seu carácter e seus hábitos como homens, chega-se a um conhecimento senão completo, pelo menos bastante preciso, do mundo invisível, para nos darmos conta do nosso estado futuro e pressentir a sorte feliz ou infeliz que ali nos espera.

205 avulso pp

A Dupla Vista

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  • Explicação de alguns factos considerados sobrenaturais
  • Como é que a Senhora Camila sabia que a menina estava melhor e a tomar as suas sopas de leite?
  • Foi de facto assim e isso prova que estava assistida por um Espírito bondoso. Uma das qualidades dos Espíritos desencarnados é ver à distância e através dos corpos opacos. Também há Espíritos encarnados que têm essa capacidade a que se chama dupla vista. Vejamos do que se trata:

“A Génese, capítulo XIV (Os Fluidos)

22. O perispírito é o traço de união entre a vida corporal e a espiritual: é por ele que o espírito encarnado está em contínuo contacto com os desencarnados; é por ele, enfim, que ocorrem, com o homem, fenómenos especiais que não têm a sua origem na matéria tangível, e que, por essa razão, parecem sobrenaturais.
É nas propriedades e nas irradiações do fluido perispiritual que se deve procurar a causa da dupla vista, ou vista espiritual, que também se pode chamar de vista psíquica, da qual muitas pessoas são dotadas, muitas vezes a contragosto (…).

O perispírito é o órgão sensitivo do espírito, é por seu intermédio que o espírito encarnado tem a percepção das coisas espirituais que escapam aos sentidos carnais.
Pelos órgãos do corpo, a visão, a audição e as diversas sensações são localizadas e limitadas à percepção das coisas materiais; pelo sentido espiritual, elas são generalizadas; o espírito vê, ouve e sente por todo o seu ser o que se encontra na esfera de irradiação do seu fluido perispiritual.

No homem, esses fenómenos são a manifestação da vida espiritual; é a alma que actua fora do organismo e pode ver para além das coisas materiais.

Na dupla vista, ou percepção pelo sentido espiritual, ele não vê pelos olhos do corpo, embora muitas vezes, por hábito, ele os dirija em direção ao ponto que chama a sua atenção. Ele vê pelos olhos da alma, e a prova disso é que vê tudo também com os olhos fechados, e além do alcance da sua visão.
(…)

27. A visão espiritual é necessariamente incompleta e imperfeita nos espíritos encarnados, e, por consequência, sujeita a aberrações. Tendo sua sede na própria alma, o estado da alma deve influenciar as percepções que a visão espiritual dá. De acordo com o seu grau de desenvolvimento, as circunstâncias e o estado moral do indivíduo, ela pode proporcionar, seja durante o sono, seja no estado de vigília:
− A percepção de certos factos materiais reais, como, por exemplo, o conhecimento de casos que se passam a grandes distâncias, os detalhes descritivos de uma localidade, as causas de uma enfermidade e os remédios convenientes.
− A percepção de coisas também reais do mundo espiritual, como, por exemplo, a visão dos espíritos (…).

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QUALIDADES DOS MÉDIUNS
In: “O que é o Espiritismo” de Allan Kardec

79. A faculdade mediúnica é uma propriedade do organismo e não depende das qualidades morais do médium; ela se nos mostra desenvolvida, tanto nos mais dignos, como nos mais indignos. Não se dá, porém, o mesmo com a preferência que os Espíritos bons dão ao médium.

80. Os Espíritos bons comunicam mais ou menos de boa-vontade por esse ou aquele médium, segundo a simpatia que lhe votam. A boa ou má qualidade de um médium não deve ser julgada pela facilidade com que ele obtém comunicações, mas pela sua aptidão em recebê-las boas e em não ser ludibriado pelos Espíritos levianos e enganadores.

81. Os médiuns menos moralizados recebem também, algumas vezes, excelentes comunicações, que não podem vir senão de bons Espíritos, o que não deve ser motivo de espanto: é muitas vezes no interesse dos médiuns e com o fim de dar-lhes sábios conselhos. Se eles os desprezam, maior será a sua culpa, porque são eles que lavram a sua própria condenação. Deus, cuja bondade é infinita, não pode recusar assistência àqueles que mais necessitam dela. O virtuoso missionário que vai moralizar os criminosos, não faz mais que os bons Espíritos com os médiuns imperfeitos.
De outra sorte, os bons Espíritos, querendo dar um ensino útil a todos, servem-se do instrumento que têm à mão; porém, deixam-no logo que encontram outro que lhes seja mais afim e melhor se aproveite de suas lições.
Retirando-se os bons Espíritos, os inferiores, que pouco se importam com as más qualidades morais do médium, acham então o campo livre. Resulta daí que os médiuns imperfeitos, moralmente falando, os que não procuram emendar-se, tarde ou cedo são presas dos maus Espíritos que, muitas vezes, os conduzem à ruína e às maiores desgraças, mesmo na vida terrena.
Quanto à sua faculdade, tão bela no começo e que assim devia ter sido conservada, perverte-se pelo abandono dos bons Espíritos e, afinal, desaparece.

82. Os médiuns de mais mérito não estão ao abrigo das mistificações dos Espíritos embusteiros; primeiro, porque não há ainda, entre nós, pessoa assaz perfeita, para não ter algum lado fraco, pelo qual dê acesso aos maus Espíritos; segundo, porque os bons Espíritos permitem mesmo, as vezes, que os maus venham, a fim de exercitarmos a nossa razão, aprendermos a distinguir a verdade do erro e ficarmos de prevenção, não aceitando cegamente e sem exame tudo quanto nos venha dos Espíritos; nunca, porém, um Espírito bom nos virá enganar; o erro, qualquer que seja o nome que o apadrinhe, vem de uma fonte má.
Essas mistificações ainda podem ser uma prova para a paciência e perseverança do espírita, médium ou não; e aqueles que desanimam, com algumas decepções, dão prova aos bons Espíritos de que não são instrumentos com que eles possam contar.

83. Não nos deve admirar ver maus Espíritos obsidiarem pessoas de mérito, quando vemos na Terra homens de bem perseguidos por aqueles que o não são.
É digno de nota que, depois da publicação de “O Livro dos Médiuns”, o número de médiuns obsidiados diminuiu muito; os médiuns, prevenidos, tornam-se vigilantes e espreitam os menores indícios que lhes podem denunciar a presença de mistificadores.
A maioria dos que se mostram ainda nesse estado não fizeram o estudo prévio recomendado, ou não deram importância aos conselhos que receberam.

84. O que constitui o médium, propriamente dito, é a faculdade; sob este ponto de vista, pode ser mais ou menos formado, mais ou menos desenvolvido.
O médium seguro, aquele que pode ser realmente qualificado de bom médium, é o que aplica a sua faculdade, buscando tornar-se apto a servir de intérprete aos bons Espíritos.
O poder que tem o médium de atrair os bons e repelir os maus Espíritos, está na razão da sua superioridade moral, da posse do maior número de qualidades que constituem o homem de bem; é por esses dotes que se concilia a simpatia dos bons e se adquire ascendência sobre os maus Espíritos.

85. Pelo mesmo motivo, as imperfeições morais do médium, aproximando-o da natureza dos maus Espíritos, tiram-lhe a influência necessária para afastá-los de si; em vez de se impor, sofre a imposição destes.
Isto não só se aplica aos médiuns, como também a todos indistintamente, visto que ninguém há que não esteja sujeito à influência dos Espíritos.

86. Para impor-se ao médium, os maus Espíritos sabem explorar habilmente todas as suas fraquezas e, entre os nossos defeitos, o que lhes dá margem maior é o orgulho, sentimento que se encontra mais dominante na maioria dos médiuns obsidiados e, principalmente, nos fascinados. É o orgulho que faz se julguem infalíveis e repilam todos os conselhos.
Esse sentimento é infelizmente excitado pelos elogios de que são objecto; basta que um médium apresente faculdade um pouco transcendente, para que o busquem, o adulem, dando lugar a que ele exagere sua importância e se julgue como indispensável, o que vem a perdê-lo.

87. Enquanto o médium imperfeito se orgulha pelos nomes ilustres, frequentemente apócrifos, que assinam as comunicações por ele recebidas e se considera intérprete privilegiado das potências celestes, o bom médium nunca se crê assaz digno de tal favor; ele tem sempre uma salutar desconfiança do merecimento do que recebe e não se fia no seu próprio juízo; não sendo senão instrumento passivo, compreende que o bom resultado não lhe confere mérito pessoal, como nenhuma responsabilidade lhe cabe pelo mau; e que seria ridículo crer na identidade absoluta dos Espíritos que se lhe manifestam. Deixa que terceiros, desinteressados, julguem do seu trabalho, sem que o seu amor-próprio se ofenda por qualquer decisão contrária, do mesmo modo que um actor não se pode dar por ofendido com as censuras feitas à peça de que é intérprete.
O seu carácter distintivo é a simplicidade e a modéstia; julga-se feliz com a faculdade que possui, não por vanglória, mas por lhe ser um meio de tornar-se útil, o que faz de boamente quando se lhe oferece ocasião, sem jamais incomodar-se por não o preferirem aos outros.
Os médiuns são os intermediários, os intérpretes dos Espíritos; ao evocador e, mesmo, ao simples observador, cabe apreciar o mérito do instrumento.

88. Como todas as outras faculdades, a mediunidade é um dom de Deus, que se pode empregar tanto para o bem quanto para o mal, e da qual se pode abusar. Seu fim é pôr-nos em relação directa com as almas daqueles que viveram, a fim de recebermos ensinamentos e iniciações da vida futura.
Assim como a vista nos põe em relação com o mundo visível, a mediunidade liga-nos ao invisível.
Aquele que dela se utiliza para o seu adiantamento e o de seus irmãos, desempenha uma verdadeira missão e será recompensado. O que abusa e a emprega em coisas fúteis ou para satisfazer interesses materiais, desvia-a do seu fim providencial e, tarde ou cedo, será punido como todo homem que faça mau uso de uma faculdade qualquer.

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IDENTIDADE DOS ESPÍRITOS
In: “O que é o Espiritismo” de Allan Kardec

93. Uma vez que no meio dos Espíritos se encontram todos os caprichos da humanidade, não podem deixar de existir entre eles os ardilosos e os mentirosos; alguns não têm o menor escrúpulo de se apresentar sob os mais respeitáveis nomes, com o fim de inspirarem mais confiança. Devemos, pois, abster-nos de crer de um modo absoluto na autenticidade de todas as assinaturas de Espíritos.

94. A identidade dos espíritos é uma das grandes dificuldades do Espiritismo prático, sendo muitas vezes impossível verificá-la, sobretudo quando se trata de Espíritos superiores, antigos relativamente à nossa época.
Entre os que se manifestam, muitos não têm nomes para nós; mas, então, para fixar as nossas ideias, podem tomar o nome de um Espírito conhecido, da mesma categoria da sua; de modo que, se um Espírito comunicar com nome de S. Pedro, por exemplo, nada nos prova que seja precisamente o apóstolo desse nome; tanto pode ser ele como outro da mesma ordem, como ainda um enviado seu.
A questão da identidade é, neste caso, inteiramente secundária e seria pueril atribuir-lhe importância; o que importa é a natureza do ensino, se é bom ou mau, digno ou indigno da personagem que o assina; se esta o subscreveria ou repeliria: eis a questão.

95. A identidade é de mais fácil verificação quando se trata de Espíritos contemporâneos, cujo carácter e hábitos sejam conhecidos, porque é por esses mesmos hábitos e particularidades da vida privada que a identidade se revela mais seguramente e, muitas vezes, de modo incontestável.
Quando se evoca um parente ou um amigo, é a personalidade que interessa, e então é muito natural buscar-se reconhecer a identidade; os meios, porém, que geralmente emprega para isso quem não conhece o Espiritismo, senão imperfeitamente, são insuficientes e podem induzir a erro.

96. O Espírito revela sua identidade por grande número de circunstâncias, patenteadas nas comunicações nas quais se reflectem seus hábitos, carácter, linguagem e até locuções familiares.
Revela-se ainda nos detalhes íntimos em que entra espontaneamente, com as pessoas a quem ama: são as melhores provas; é muito raro, porém, que satisfaça às perguntas directas que lhe são feitas a esse respeito, sobretudo se elas partirem de pessoas que lhe são indiferentes, com intuito de curiosidade ou de prova.
O Espírito demonstra a sua identidade como quer e pode, segundo o género de faculdade do seu intérprete e, às vezes, essas provas são superabundantes; o erro está em querer que ele as dê, como deseja o evocador; é então que recusa sujeitar-se às exigências.
 “O Livro dos Médiuns”, cap. XXIV; Identidade dos Espíritos.
− “Revue Spirite”, 1862, pág. 82: Fait d’identité.)

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“O martirológio dos médiuns” / Léon Denis
Léon Denis, no capítulo XXV da sua notável obra “No Invisível” disse-nos o seguinte:

O médium é muitas vezes uma vítima e, quase sempre, essa vítima é uma mulher. Na Idade Média qualificavam-na de feiticeira e queimavam-na.
A Ciência actual, menos bárbara, contenta-se em deprimi-la, aplicando-lhe o epíteto de histérica ou de charlatã.
(…)

Quando são necessárias grandes dedicações para reconduzir a Humanidade ao caminho de seus destinos, é muitas vezes na mulher que elas se encontram. O que dissemos das irmãs Fox, poder-se-ia dizer dos médiuns mais notáveis.
Joana d’Arc foi queimada viva, por não ter querido renegar as aparições e vozes que percebia. E não termina com ela o martirológio da mulher médium. Em contraposição a algumas que se têm deixado seduzir pelas vantagens materiais e recorrido à fraude, quantas outras não têm sacrificado a própria saúde e comprometido a existência pela causa da verdade!
Se a mediunidade psíquica é isenta de perigos, como veremos adiante, quando utilizada por Espíritos adiantados, o mesmo se não dá com as manifestações físicas, sobretudo com as manifestações que, repetidas e frequentes, vêm a ocasionar ao sensitivo uma considerável perda de força e de vitalidade. As irmãs Fox esgotaram-se com experiências e extinguiram-se na miséria.
A REVUE SPIRITE, de Abril de 1902, noticiou que os derradeiros membros da família Fox haviam sucumbido, em Janeiro, de frio e de privações.
A Sra. Hauffe, a célebre vidente de Prévorst, foi tratada com o máximo rigor por seus próprios pais e expirou aos 28 anos, ao fim de inúmeras tribulações.
A Sra. d’Espérance perdeu a saúde.
Depois de Home, Slade e Eglinton, a Paladino foi acusada de fraudes voluntárias.

Certos médiuns têm sido submetidos a todas as torturas morais imagináveis, e isso sem exame prévio, sem investigação verdadeiramente séria.
(…)

Em tempos mais recentes, vimos uma médium alemã perseguida com uma sanha brutal e, apesar de respeitáveis testemunhos, sacrificada às exigências de mais tacanho espírito de casta. Pretendia-se o que nas mais altas rodas se apregoava, “pôr um freio a todas as manifestações de um espiritualismo rebelde aos dogmas oficiais”.
Ana Rothe foi detida e recolhida à prisão. A detenção durou oito meses. Durante esse tempo, morreram-lhe o marido e a filha, sem que ela pudesse assistir aos seus últimos momentos. Permitiram-lhe unicamente que fosse ajoelhar sobre seus túmulos, metida entre dois polícias.
Afinal, termina o inquérito; instaura-se o processo. Os depoimentos favoráveis afluem: o professor Koessinger, o filólogo Herman Eischacker e o Dr. Langsdorff presenciaram os fatos e nenhuma fraude conseguiram descobrir.
O Sr. George Sulzer, presidente da Corte de Apelação de Zurique, atesta sua convicção na inocência da Sra. Rothe.
O primeiro magistrado do cantão de Zurique, na ordem judiciária, não receia expor à publicidade suas crenças íntimas, para com elas beneficiar a acusada.
Outros magistrados afirmam a autenticidade dos transportes de flores, que ela obtinha em plena luz. Essas testemunhas viam flores ou frutos desmaterializados reconstituir-se na sua presença, condensar-se em matéria palpável, como um floco de vapor que, pouco a pouco, se transformava e solidificava, no estado de gelo. Esses objectos moviam-se horizontalmente e outras vezes desciam lentamente do forro da sala.

O director da Casa de Detenção em que ela passou os oito meses de prisão preventiva, declarou que o ensino moral dado aos seus detidos nunca se aproximou, como efeito produzido, da impressão causada pelas comovedoras práticas, do carácter mais edificante, feitas pela médium em transe a suas irmãs transviadas.
Ana Rothe não passava, entretanto, de uma simples mulher do povo, sem instrução, sem cultura de espírito.

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A mediunidade do piano, fala Frederic Chopin

Frederic Chopin (1810-1849)
Frederic Chopin (1810-1849)

Trago aqui hoje a tradução de uma comunicação mediúnica feita pelo médium inglês LESLIE FLINT, no dia 19 de Dezembro de 1959.

Necessário será dizer-se – para que não haja equívocos – que não se trata de um médium espírita e sim de uma pessoa que se movimentou na área espiritualista inglesa.
A comunicação, que não me parece fantasista nem discordante da  cultura espírita, inclui até uma clara referência à reencarnação, facto que contrasta com o posicionamento da religião espiritualista inglesa.

O espírito comunicante foi o de FRÉDÉRIC CHOPIN, músico conhecidíssimo de enorme talento, nascido em 1 de março de 1810 e falecido em 17 de outubro de 1849. Em termos resumidíssimos dir-se-á que foi um compositor polaco do período romântico, amplamente considerado um dos maiores compositores para piano de todos os tempos.

No fim da sua comunicação o espírito de Frederic Chopin, e porque era Dezembro, regista os seus votos de Feliz Natal. Despretenciosamente mas com muita alegria, espiritismo cultura irmana-se com esta atitude e deseja a todos os visitantes, nesta quadra e no próximo ano, muitas felicidades, plena alegria e o mais bem sucedido progresso espiritual.

Leslie Flint (1911-1994), médium inglês de voz directa
Leslie Flint (1911-1994), médium inglês de voz directa

Tradução feita a partir do site The Leslie Flint Educational Trust que é dedicado a perpetuar a personalidade e acção de Leslie Flint, considerado – no meio espiritualista em que viveu inserido – um dos mais extraordinários médiuns de sempre.

Betty Greene e George Woods, colaboradores de Leslie Flint
Betty Greene e George Woods, colaboradores de Leslie Flint

 A coleção de gravações de vozes paranormais de George Woods e Betty Greene, auxiliares do médium, é considerada a prova mais convincente e aceitável que foi oferecida ao mundo sobre a existência depois da morte.

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Notas e objectivos desta tradução:

A explicitação das ideias transmitidas pelo espírito de Frederic Chopin, revelação das suas percepções do mundo espiritual, da sua vivência da música e da criatividade artística nesse plano.

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Greene:  Boa tarde.
Woods:  Oh, boa tarde.

Chopin: Não sei realmente se é de tarde ou de manhã. O tempo para nós, espíritos, é sempre uma noção muito incerta. Quando regressamos de visita às vossas condições terrenas vemo-nos sempre numa situação confusa acerca de várias coisas. O tempo é sempre problemático. É muito  difícil saber qual é o dia da semana. É coisa que só cabe na vossa mente, o vosso calendário confunde-nos. Mas não tem importância. De qualquer forma, desejo-vos Bom Dia!

Woods: Bom Dia.

Chopin: Sabem, estou muitíssimo interessado em tudo aquilo que estão a tentar fazer. Sois muitíssimo ambiciosos (como vós dizeis) em propagar de facto esta verdade. Produzistes estes aparelhos de gravação, gravadores como lhes chamais. É muito interessante. É magnífico, penso eu. Só desejava que isso pudesse ter sido possível no meu tempo, dispor de tais aparelhos. Mas as coisas então eram diferentes. Não tínhamos nada disso. Foi há muito tempo.

Greene:  Posso saber qual o seu nome, por favor?
Chopin:  O meu nome é Chopin.
Greene: Oh, Chopin!
Woods:  Chopin, oh!
Chopin:  Frédéric Chopin.
Greene: Que maravilha!

Chopin: Que coisa formidável seria ter tido este género de aparelhos para fazer gravações de música. Teria sido um recurso formidável, imagine-se! Vós agora tendes tudo. A ciência tem feito maravilhosas descobertas. O vosso mundo está diferente de tudo o que era possível imaginar. As pessoas têm tantas possibilidades. É muito frequente ouvir as pessoas no vosso mundo queixarem-se acerca da idade moderna, mas são muitos os seus privilégios. Tantos! É certo que em relação a vários assuntos dispõem de coisas que podem causar alarme e preocupação e podem, sim, causar grande infelicidade, mas as compensações são muitas.

Greene:  Poderia fazer o favor de falar-nos de si? A pergunta habitual que fazemos é a respeito da passagem para o mundo espiritual, como se sentiu e como se encontra agora?

Chopin: Querem saber a respeito da minha morte, é isso?

Greene:  Sim.

Chopin: Fiquei muito surpreendido. Provavelmente tinha muito poucos conhecimentos (como vós dizeis). De facto não tinha nenhuns. Não tinha qualquer religião. Suponho que seria católico mas muito fraco. Era um católico muito mau. Não tinha ideias definidas a respeito das coisas. Quando lá cheguei foi uma surpresa. Encontrei imensos amigos, pessoas que conhecera há muitos anos; amigos que tinha conhecido quando era mesmo um menino, todos lá.

Apenas me recordo de estar muito doente, deitado na cama. Os meus amigos – alguns deles – estavam comigo, e gradualmente tudo pareceu afastar-se para cada vez mais longe de mim, até que tudo ficou quieto.

Deixei de ouvir vozes. Deixei de me aperceber ou de tomar conhecimento de nada. Era como se estivesse a deslizar para longe, para cada vez mais longe de tudo. Já nada parecia real. O que fora deixara de o ser. Comecei então a ver uma luz enorme. De início apenas uma pequena claridade que se tornou cada vez mais intensa… acompanhada de sons. Música que se expandia e se tornou cada vez mais e mais forte. E comecei a ouvir sons, que eram música. Começou a aumentar e tornou-se sonora, como se tratasse de uma grande, grande orquestra, magnífica! Tentei ouvir, como vós dizeis, que melodia era. Parecia um tema fascinante. Não o reconheci, não era música com que estivesse minimamente familiarizado. Era diferente, muito mais magnífica que tudo o que ouvira antes…

Depois apercebi-me subitamente de que me encontrava num edifício magnífico. Era um lugar formidável com um auditório completo, tudo repleto de gente. As cores magníficas. Tudo mergulhado em cores e, não obstante, translúcido. Podia ver-se através das cores e, contudo, parecia que estava respirando por dentro das coisas, como se todas me envolvessem, como se estivessem a tornar coisas vivas. Não sei como explicar, era tudo formidável. Era… (pausa) … como se fosse matéria viva, tudo ali… em harmonia. Difícil, impossível de descrever.

Vi o magnífico edifício vivo de cor e vibração e música. A pouco e pouco alguns indivíduos destacaram-se da massa dos presentes. Alguns tinha eu conhecido. Era gente muito chegada, da minha juventude, gente minha. Era formidável! A música deteve-se e a cor começou a tornar-se mais (como dizeis) definida, porque de início fora muito suave e… admirável.

Entretanto as cores começaram a fundir-se e a tornar-se uma linda cor, não sei como diga – da família do azul, um azul diferente de tudo aquilo que tivera visto antes. Em vez da policromia, tudo se transformou e adquiriu o tom daquele perfeito azul, e tudo parecia reflectido na luz. As pessoas começaram a aproximar-se de mim e senti-me cercado de amor, calor e harmonia.

Muitas pessoas que tinha conhecido cumprimentaram-me e deram-me as boas vindas. E mostraram-me a pouco e pouco, não sei como o fizeram, revelando as coisas à minha mente, suponho, de forma que pudesse ver para lá das paredes daquele edifício. Parecia que nos tínhamos deslocado em grupo para fora dele. As paredes pareciam ter desaparecido e todos estávamos nos terrenos adjacentes a uma casa magnífica. Porque podia vê-la à distância, com torreões e belas cores e um lindo lago à frente da casa. Fazia pensar um pouco em Versalhes com as fontes os pássaros e os animais.

Vi alguns veados. A longo de uma grande avenida arborizada pareceu-me seguir, com todas aquelas pessoas, como se… Ao longo dessa caminhada tive a sensação de me dirigir algures, como se fosse ser recebido. Não sei mas era essa a sensação – a estar a ser levado para o edifício. Lembro-me de que quando lá cheguei havia uma longa escadaria. Pensei comigo mesmo “Que estranho, tantos degraus para subir!”… Mas nada me lembro quanto a passos nem degraus. Os pés nem tocavam os degraus. Era como se fosse transportado por sobre cada um deles sem necessidade de fazer esforço. Foi uma das coisas que mais me impressionou: senti que o esforço deixara de existir, enquanto que previamente na terra, tudo o que fizesse era feito com tal esforço!… Terrível. Não pude fazer grande coisa durante muito tempo. Tinha que descansar.

Aqui senti-me tão leve, tão diferente, tão cheio de vitalidade, nada exigia esforço. Na minha mente, contudo, ao ver os enormes degraus, pensei: “Que grande quantidade de degraus para subir”. Eram restos das minhas preocupações terrenas. Comecei então a convencer-me de que estava liberto pela enfermidade e pelos problemas do corpo. Tinha um corpo diferente, que não tinha visto, mas sentia que era diferente. Estava inquieto para ver como era. Estranho que tenha que se pensar nestas coisas: “Oh, sinto-me diferente, já não tenho que me esforçar, imagino o diferente que estou”.

Tudo conduziu para que concluísse nessa altura que passara por uma enorme mudança.

Quando cheguei à escadaria comecei a subi-la (como vós dizeis…) e entrei na tal casa que vira à distância. Na frente estava um pátio espaçoso com um arco enorme (como lhe chamais…) e passei por ele. Avancei para dentro do edifício para uma sala com teto alto, abobadado. O piso empedrado finamente polido muito belo. Nas paredes belas imagens de pessoas por todo o lado. Passeei olhando tudo com a sensação que estava a ser levado, sem que ninguém me mostrasse o caminho que eu parecia já conhecer. Ao atravessar a galeria dos retratos pensei: “Julgo que reconheço aqui algumas pessoas, mas de há muito tempo, é estranho”. Ainda hoje não tenho uma ideia clara de tudo o que se passou ali comigo.

Lá continuei e por fim cheguei a uma sala espaçosa onde estava muita gente, com um estrado elevado ao fundo, ou plataforma com degraus e nele um homem de belíssima figura, elegantemente vestido com um longo casaco doirado e púrpura, longos cabelos negros e ondulados até aos ombros, belos olhos castanhos, brilhantes. A sensação que tive era de que devia ser uma alta individualidade da maior importância.

Aproximei-me dele e tive o sentimento de estar a ser recebido, como pode ser-se recebido por um papa ou outra figura assim. Dirigiu-se a mim, saudando-me e apresentando-me as boas vindas, anunciando-me que tinha sido trazido para a esfera da música, e que ficaria ali como seu hóspede (como dizeis). As suas boas vindas eram-me entregues em nome de todos e faria uma visita acompanhado para ser apresentado, visitando a residência que me estava reservada nas imediações da grande casa, onde continuaria a fazer música e a estudar. Era a sociedade de músicos e artistas. Ali encontrei altas individualidades, como Miguel Angelo. Tanta gente que fora grande, como Cellini.

Greene:  Continue, é extraordinariamente interessante.
Woods:  Sim, muito interessante.

Chopin: Sabem, é extraordinário: nada sabemos a respeito de nós mesmos enquanto vivemos na Terra. Somos muito obtusos (como dizeis)… Talvez em certa medida seja importante que não nos seja permitido saber muito. Talvez seja melhor.

Encontrei pessoas deste lado com quem convivera na minha encarnação anterior na Terra. Lembro-me de há muito, na Terra, ter discutido a possibilidade da reencarnação. Não era teoria muito popular. Nada a que se desse importância, não era discutido pelas pessoas.

Os meus conhecidos, religiosos ou não, ou aceitavam o cristianismo completamente como haviam sido educados, ou pouca ou nenhuma religião seguiam, a menos que fossem muçulmanos, judeus ou coisa assim. Sabeis naturalmente que em Paris havia muita gente atenta a toda a espécie de “ismos”, coisas ocultas em que eu me interessara até certo ponto, mas que não tivera tempo para aprofundar. Não sei muito a respeito do assunto, mas era assunto discutido por amigos meus.

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Sei agora porém que nem todos somos almas novas. Apraz-nos pensar por vezes que somos almas jovens. Gostamos de pensar que nascemos, morremos depois e de novo viveremos numa esfera mais elevada na companhia de Deus. Teorias sempre muito simplificadas. Mas a vida é coisa mais difícil, em certo sentido mais complicada, o que faz dela algo de muito mais interessante.

Já estivemos na Terra muito mais vezes antes.

Descobri que vivera muitas vidas, de diferentes formas. Vejam a minha vida, como a da muita gente, tal como uma progressão, em largas fases sucessivas, alternando esferas sendo necessário regressar à Terra para adquirir novos conhecimentos ou cumprir certas tarefas, ou encontrar pessoas para ajudá-las na sua evolução.

Não temos a ideia a respeito de quanto aprendemos uns com os outros. É muito importante termos a noção de que não vivemos isolados.

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Vivemos lado a lado, uns para os outros e de nós mesmos como dos outros. Somos todos do mesmo espírito, embora em corpos diferentes, e todos contribuímos para os outros na medida do possível. Na minha vida, na minha última encarnação, contribui muito para a música mas, noutras vidas, contribuí de outras maneiras.

Não posso dizer-lhes tudo agora mas sei que quanto mais antiga é uma alma, mais progresso assimilou e é essencial que aprendamos pela prática e que o planeta Terra é como uma escola onde é essencial que aprendamos e ajudemos ouras pessoas a aprender. Por vezes somos enviados de regresso na qualidade de professores.

A minha tarefa no planeta terminou – no ponto de vista de ter habitado um corpo físico – mantendo entretanto as ligações em aberto dado que sinto que posso vir a ser útil. Ajudo também vários músicos no vosso mundo que se encontram a fazer esforços, a tentar energicamente progredir; gente com capacidade que julgo poder tornar-se valiosa no sentido em que podem engrandecer a vida e contribuir para a sua beleza. E além disso, claro, tentamos fazer passar por música certas ideias e sugestões que talvez não possam ser dadas por palavras!… Como sabem, a música às vezes consegue dizer mais às pessoas do que as palavras.

A religião é algo… qualquer coisa… muito dentro de cada um. Há muitas ideias que não podem traduzir-se por palavras, não podem ser descritas, nada se pode ler sobre elas, como não se sabe escrever a seu respeito. A verdadeira religião é algo que deriva da alma e do íntimo do homem, que não pode ser descrito ou analisado.

É como uma expressão pessoal, a parte divina, eterna, da pessoa, que não pode ser destruída, permanente através de toda a humanidade e de todos os tempos. Essa é a verdadeira religião, a verdadeira realização e desenvolvimento da alma e do entendimento dela. Não é qualquer coisa, como alguns julgam, que pode descrever-se num livro; o fim, o princípio, nada tendo existido antes ou depois. É a ignorância que faz as pessoas dizerem essas coisas.

A verdadeira religião e o seu entendimento, a realização da pessoa e da unidade com o Divino e os objetivos e o plano – todas essas coisas estão para além do espaço e do tempo, para além dos livros, para além do que o homem possa dizer por palavras. Coisas que em si, estão profundamente escondidas no íntimo, mas que podem ser reveladas com o tempo e a experiência. E nós não podemos fazer tudo numa só vida ou numa só era.

Greene:  A música dos nossos dias deve ter-lhe desagradado por vezes, não é assim?

Chopin:  Bem, de alguma não gosto e de outra não desgosto. Penso que por aqui e por ali surgem algumas propostas, reproduções de obras que podem ser um produto do seu tempo. Como sabem a música muda. Embora as notas sejam poucas, é admirável o que se pode fazer com elas. Podem reproduzir-se muitos sons e muitas experiências da alma interior, das condições da vida, da experiência e da época. Não aprecio muita da vossa música moderna, não obstante respeito aqueles que são sinceros e se esforçam por reproduzir algo sentido com intensidade e que para si representa os valores do seu tempo.

É evidente que a música real, a verdadeira e grandiosa música é algo que está para além do vosso mundo. Essa deriva do lado espiritual do homem e é a realização da grandeza e da unicidade com Deus.

A grande música é algo que realmente nasceu no espírito, e aparece reproduzido, talvez de modo muito deficiente, no vosso mundo. Os grandes génios da música, sejam de que época forem, reproduzem por meio de sons, como dizeis, certos aspectos do ser superior: a aspiração do homem.
O Senhor ia dizer algo?

Woods: Sim, ia; A vossa música é muito diferente da música feita na Terra? Muito mais avançada?

Chopin: Claro que é muito diferente. Temos muitos instrumentos que não existem na Terra. Nos níveis mais altos da evolução podemos criar música sem instrumentos, por acção exclusiva do pensamento – que no mundo espiritual é criativo. Um grande músico, por exemplo, pode compor e executar uma obra completa sem usar um só instrumento. Do mesmo modo que pode, por si mesmo, criar todos os sons.

Por consequência, os espíritos que estiverem em sintonia com os seus pensamentos ouvirão a reprodução daquilo que o compositor tenha criado.

Reparem que muito naturalmente vos habituastes a que tudo entre vós tenha a matéria como origem, dado que vivem num mundo material.

Têm que ter uma pá para cavar um buraco no chão e um violino para executar um concerto. E ambos os instrumentos têm que ser mecânicos. São objectos construídos e idealizados pelo homem para conseguir certas coisas, ou atingir certos objectivos. No mundo espiritual o pensamento é de tal forma preponderante e forte que, quando se sabe e se pode usá-lo, qualquer coisa de fundamental e poderoso, como o próprio som (por exemplo) pode ser conseguido sem o uso de objectos.

Os espíritos podem produzir o som por si mesmos, colocando em vibração a harmonia e a atmosfera (?…) Podem pois criar música sem dispor de instrumentos. Ao fim ao cabo, o pensamento antecede a fala, o pensamento aparece antes (em vez?…) da fala e do som. Aqui o nosso pensamento pode ser percebido por aqueles que se encontram em harmonia connosco, no mesmo sistema de vibração. Mesmo fechando os olhos é-vos possível ver figuras no escuro. A vossa imaginação faz isso.

O que é a imaginação? Ninguém respondeu ainda a esta pergunta. Muitas vezes, é a realidade. Aquilo que imaginais é, frequentes vezes, mais real do que as coisas apreendidas pela consciência.

O homem do mundo material, embora tenha avançado tremendamente em muitos domínios, é ainda muito ignorante em relação ao poder e à força que encerra o espírito. Foi-vos dito: “Batei e abrir-se-vos-á”. Mas poucos se dão ao trabalho de bater, ficando contentes com aquilo que lhes foi dado. Frequentes vezes aqueles que mais empenhados em ver e saber, são os mais ignorantes, porque não fazem a menor ideia do poder que está contido em si mesmos. Parecem satisfeitos com o que lhes foi ensinado, ou o que já sabem, não continuando na busca. Não “batem” à porta. Há na Terra muita gente sincera, bondosa, honesta e feliz. Mas muito infantil!…

Greene: Pode parecer-lhe uma pergunta muito tonta, mas qual é a sua impressão de um piano quando pela primeira tocou no mundo espiritual?

Chopin: a impressão que tive é de que estava em casa porque, sem piano, sentia-me perdido. Por isso me senti feliz quando pude fazê-lo.

Greene: Quais eram as diferenças? Foi diferente o que sentiu?

Chopin: Bem, não, senti exactamente o mesmo. Ao mesmo tempo porém parecia ter uma tonalidade mais rica, mais bela, e não tinha as mesmas limitações que na Terra. Mas devo observar que isto se passou apenas nos primeiros momentos de chegada aqui, para me dar felicidade, para me dar a ideia de que estava em casa. Gradualmente comecei a dar-me conta das possibilidades aqui disponíveis e comecei a tornar-me mais capaz de fazer coisas mais elevadas.

Bem vejam, nós limitamo-nos devido à falta de conhecimentos. À medida do avanço no saber, ficamos menos limitados e aquilo que nos esforçamos por fazer torna-se progressivamente mais realizável e mais insigne. E o formidável que é! Imaginais o maravilhoso que é um mundo sem limitações, para além daquelas que estabelecemos?
Nada é impossível, tudo o que é bom é possível e tornamo-nos cada vez mais capazes à medida do esforço que fazemos para isso.

O vosso mundo é limitado mas apenas porque o homem assim o fez. Na sua ignorância não vê, não concebe as capacidades e as possibilidades reais. Limita-se a pensar no que é material e nas respectivas acções consequentes. Mas não há limites para aquilo que o homem possa conseguir se buscar profunda e seguramente o que deriva do espírito. O poder do espírito vence tudo, como bem sabeis, mediante os milagres de Jesus e de outros espíritos superiores. O que aparece como limitações, não o são. Nada é impossível se o homem tiver fé; fé no Criador e fé no poder que ele nos dá.

Tenho grande alegria em vir até vós e poder falar connvosco.
Gostaria imenso de poder regressar de novo…

 Woods:  Posso fazer-lhe uma pergunta?
Chopin: Sim Senhor.
Woods:  Gosto muito de tocar piano mas nem sequer conheço as notas. Gosto de tirar melodias ao piano e coisas assim. Não toco senão quando estou só, porque se ririam de mim. Divirto-me fazendo a música que consegui criar por mim mesmo. Gosto de me sentar num jardim – sei que as pessoas iriam rir-se de mim se soubessem – escuto certos sons e imagino que os transformo em música, esquecendo o barulho circundante. Portanto, será música aquilo que faço?

Chopin: Indirectamente, é. Mas vejamos, como todas as coisas, realizar exige esforço, trabalho. No vosso mundo para se tocar piano é preciso ser treinado. É preciso saber o que é um piano e aquilo que se pode conseguir com ele e os dedos têm de ser acostumados à agilidade, etc. Para consigo mesmo, obviamente, existe o desejo inato de ser criativo e de tocar, e no mundo espiritual longe das limitações da carne, sem dúvida criará e fará música!…

Como está no seu mundo limitado, devido à falta de experiência e porque como criança não foi treinado, tudo são limitações. Apesar de tais limitações não é impossível para uma pessoa que nunca tocou piano, na condição de dispor dessa fé, poder controlar as limitações de tal forma que seja capaz de tocar piano como um mestre.

Veja que embora estes aspectos materiais sejam importantes, nem sempre são o inconveniente que as pessoas julgam. Nada é impossível e, se alguém tiver fé, pode ser que resulte. O senhor pode ser controlado de certa forma para tocar o piano, mas não seria coisa propriamente sua.

Woods:  Sim

Chopin: Quando estiver aqui, se tiver esse desejo e eu vejo que tem, tornar-se-á músico, muito mais, e será capaz de tocar.

Mas ainda terá que passar por várias fases. Não há um caminho certo e rápido (como dizeis…) para o sucesso. Tudo tem que ser feito gradualmente. Tudo tem que ser conquistado, sabem? Temos de sofrer para alcançar. Entretanto, tenho que ir-me, porque a energia enfraquece.

Foi uma alegria estar entre vós. Desejo-vos um feliz Natal. Até à vista, Deus vos abençoe Senhora e Senhor.

But it has been joy for me to come to you.  I wish you a happy Noël.  Au revoir. God bless you, Madame et Monsieur.

Woods, Greene:  Muito obrigado.

FIM DA GRAVAÇÃO

Nota:

A minha intenção em realçar a amarelo o momento da comunicação de Frederic Chopin em que fala da reencarnação e do regresso reiterado ao plano da vida material, baseia-se no facto de que, sendo Leslie Flint inglês, “médium psíquico” como se diz em Inglaterra, na área de influência espiritualista, adquire particular relevância este claríssimo posicionamento.

De facto, a religião espiritualista britânica, porque assim se assume organizadamente, não perfilha a tese reencarnacionista. A franqueza e a lealdade com que este momento da comunicação aparece transcrito na documentação publicada pelo The Leslie Flint Educational Trust, confere significado especial ao facto e dá nota de probidade das pessoas que fizeram o trabalho.

O realce que tive a iniciativa de fazer, para além de se basear no teor do que nos diz o espírito de Frederic Chopin é uma homenagem a essa atitude de autenticidade cultural e de honestidade intelectual.

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lugar@lfa – uma vanguarda do espiritismo em Portugal

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“O peregrino sobre o mar de névoa”, pintura de Caspar David Friedrich

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Do livre arbítrio à possibilidade da adulteração

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Apresentando o espiritismo vocação pluralista e não dispondo de órgãos unificados de poder, maior é o risco de desencontros entre os seus adeptos e do aparecimento de versões e adulterações diversas, cada uma reclamando a sua total legitimidade.

Tenhamos em atenção o seguinte:

“…a terceira revelação é coletiva no sentido de não ser feita para privilégio de pessoa alguma; assim sendo ninguém pode dizer-se seu profeta exclusivo. Ela foi feita simultaneamente por toda a Terra para milhões de pessoas de todas as idades, de todas as épocas e condições, desde a mais baixa até à mais alta escala…”

Allan Kardec; A GÉNESE; Capítulo I (Carácter da Revelação Espírita), nº 45.

lugar@lfa / a circunstância humana nas mãos do espírito

Venho hoje apresentar aos meus estimados leitores o trabalho de um português, Gilberto Ferreira, que nos oferece, em ritmo muito fluente, as suas intensas explorações no domínio da cultura espírita, em duas plataformas internáuticas de real valor:

“lugar@zul” foi a tarefa percursora, desde Setembro de 2010, e

“lugar@lfa” a mais recente, afirma-se desde Setembro de 2012.

Ambas têm o carácter de uma “selecta” ou repositório de textos escolhidos para ilustrar aspetos filosóficos, científicos ou de índole moral da cultura espírita. Os endereços respectivos de há longo tempo se encontram indicados na coluna à direita destes textos, no local dedicado às “Visitas recomendadas”.

Mais de quatrocentos textos depois…

O manancial de textos revelados por Gilberto Ferreira é enorme, cobre um leque alargado de autores e deriva de um processo intelectualmente estimulante para viajar através do universo riquíssimo da cultura espírita.
Trabalha diariamente com afinco. Basta conferir as datas das publicações. Estas não são apenas uma acumulação de referências; Ao longo do tempo tem vindo a marcar caminho, obrigando o visitante a pensar e a evoluir, pelo que sugiro com todo o empenho que as leituras de descoberta e exploração deste manancial sejam feitas começando pelo princípio…
Se fosse obrigado a apontar um defeito ao autor (e só obrigado poderia fazer esse injustificado exercício!…) seria denunciar o ritmo incansável das suas publicações.

O acompanhamento estético

Instalado num “template” blogger de visualizações dinâmicas “lugar@lfa” segue as pisadas do seu antecessor, “lugar@zul”, mas o formato e os enquadramentos mudam, podendo ambos ser visitados com proveito.

LugarAlfa

“lugar@lfa” beneficia de uma invulgar sofisticação gráfica que o visitante pode apreciar segundo um de vários formatos à escolha. Do “Classic” ao “Timeslide” são sete os formatos selecionáveis no menu em cima, do lado esquerdo. Clica um, vê o blogue de uma maneira, clica outro e as mesmas coisas aparecem ordenadas de modo diferente. Prodígios do “web design”, é evidente.
A versão “Flipcard” permite visionar em modalidades diferentes com grafismo próprio os textos mais recentes, as datas de publicação, as etiquetas e o elenco de autores.
Quanto às obras o autor fez a opção de lhes conferir “personalidade visual”. Muito prático para a associação de ideias e muito sugestivo esteticamente.
Na segunda coluna dos menus e passando com o cursor pelo local onde estão enumeradas as páginas interiores, temos o acesso a treze subsectores, todos eles recheados dos mais variados conteúdos artísticos e culturais.

Os conteúdos, a qualidade das ideias, a marcha do tempo

A abertura com que destas plataformas se pode contemplar a cultura espírita é muito rica e abrangente. É muitíssimo raro no universo da nossa língua, encontrarem-se lugares da net sobre cultura espírita com tão franca abertura, um tão esclarecido desejo de VER ATRAVÉS do movimento das ideias em marcha ao longo do tempo.
Há nomes importantes para a cultura espírita, evocados por Gilberto Ferreira, que muito raramente são citados, alguns deles obreiros notáveis do vastíssimo património histórico e do imenso prestígio da Cultura Espírita!…

Se visitarmos entretanto os seguintes pontos de passagem para os textos dos autores mais representados:

Allan Kardec
http://lugaralfa.blogspot.pt/search/label/Allan%20Kardec
Gabriel Delanne
http://lugaralfa.blogspot.pt/search/label/Gabriel%20Delanne
Léon Denis
http://lugaralfa.blogspot.pt/search/label/L%C3%A9on%20Denis
Camille Flammarion
http://lugaralfa.blogspot.pt/search/label/Camille%20Flammarion
Ernesto Bozzano
http://lugaralfa.blogspot.pt/search/label/Ernesto%20Bozzano
Herculano Pires
http://lugaralfa.blogspot.pt/search/label/Herculano%20Pires
Manoel Philomeno de Miranda
http://olugardovento.blogspot.pt/search/label/Manoel%20Philomeno%20de%20Miranda

…concluiremos que, em termos quantitativos, só estes autores  (e não são a totalidade das referências de qualidade certificada) acumulam cerca de 400 textos.
Se atentarmos nos nomes em causa, começamos a ver muito claro quanto à estratégia de princípios e de métodos de estudo.

Lugar 03

Conclusão a respeito das linhas de coerência

O autor não é simplista nas suas opções internáuticas e não é adepto de abordagens instantâneas. O visitante, se desejar aprofundar o que há para ver, tem que desejar fazê-lo, com tempo e paciência.
Em última análise restará a hipótese desejável de passar à leitura das obras completas, e é para isso que se fazem as “selectas” de textos dedicados a qualquer assunto.
Quanto às questões de princípio, no respeito pelas ideias e no valor da cultura que tanto respeitamos, o labor quotidiano de Gilberto Ferreira merece crédito e consideração por dar indicações seguras, já não da perfeição inquestionável e absoluta, mas por ser tarefa em busca das coisas que nem são fáceis nem são cómodas.

“lugar@lfa” e “lugar@zul” são, na minha opinião, um contributo honesto e coerente com as prestigiadas raízes culturais do Espiritismo em Portugal.

E já agora, se me dão licença, só mais algumas linhas a esse respeito:

As prestigiadas raízes culturais do espiritismo em Portugal

O “movimento espírita português” conseguiu afirmar outrora uma personalidade notável que foi sustentada por uma plêiade de intelectuais e de investigadores prestigiados. As suas raízes mergulhavam profundamente no tecido de influências universalistas do pensamento de Allan Kardec e de seus mais legítimos seguidores.
A lamentável ocorrência histórica da sua proibição durante meio século fizeram com que tivessem mudado os tempos e as vontades, tendo o mundo à volta registado também importantes modificações.
Muita coisa se perdeu e o movimento encontra-se muito necessitado de repensar alguns modelos importados, reforçando a qualidade cultural e os critérios de exigência intelectual que ostentou outrora.

Lugares da net em língua portuguesa com o juízo crítico e o critério cultural de “lugar@lfa” são raros e ajudam os interessados mais atentos a encontrar as linhas mais claramente identificadas com a seriedade intelectual que acima refiro.

200 milhões de brasileiros, multidão de visões do mundo

No Brasil há muito de tudo. A imensa juventude e o esplendor da policromia étnico-cultural do mais populoso país onde se fala a NOSSA língua (quer dizer de quase 300 milhões de pessoas espalhadas por todo o mundo!) produz inspiração, trabalho, descoberta e entusiasmos dos mais variados matizes.
Para ir lá buscar coisas convém, entretanto, estar atento e saber escolher.
É lá justamente onde se tem processado de modo palpitante o desencontro/encontro do pluralismo espírita. Aos meus compatriotas recomendaria eu, se me dessem licença e tolerassem o atrevimento, que não olhem só numa direção – aquela de onde sopra o vento.

“lugar@lfa” e a sua versão mais antiga “lugar@azul” são sítios elaborados com vontade e método dando quase todos os dias notícias de todos esses fenómenos, razões e pensamentos, no intuito de nos ajudar a pensar neles, bebendo nas melhores fontes.

Fraternas saudações a todos e um grande abraço de parabéns a Gilberto Ferreira.

 

Coerentemente com a mensagem acima, e para não se pensar que há aqui reservas quanto a autores e investigadores brasileiros, junto se acrescenta uma citação de um texto publicado no dia 27 de Outubro último por “lugar@lfa” sobre um grande espírita de elevadissimo prestígio e de autoria de um activo autor de elevado sentido crítico, ambos brasileiros.

Alexandre Cabanel-Saint-Louis-Tendo a coroa de espinhos 1878
São Luís com a coroa de espinhos, pintura de Alexandre Cabanel

apóstolos de verdade ~

Viva José Herculano Pires!

José Herculano Pires
José Herculano Pires

Este ano faz precisamente trinta anos que desencarnou José Herculano Pires, um dos maiores vultos do Espiritismo do Brasil. Sim, foi, precisamente, na noite do dia 9 de março de 1979, que a sua alma gloriosa de grande missionário, defensor da pureza doutrinária do Espiritismo e consolidador da Doutrina Espírita em terras brasileiras, regressou à Pátria Espiritual. Foi com justa razão que Jorge Rizzini, seu biógrafo, viu em sua pessoa um “Apóstolo de Allan Kardec”, com o que concordamos plenamente.

José Herculano Pires nasceu na antiga Província do Rio Novo, que é hoje a bela cidade de Avaré, no interior do Estado de São Paulo, no dia 25 de setembro de 1914. Era o filho primogénito de José Pires Correa casado com Bonina Amaral Simonetti Pires, que lhe deu sete filhos. Seu pai, inicialmente, era farmacêutico, mas abandonou a profissão para se tornar um dos mais brilhantes jornalistas do interior de São Paulo. Sua mãe foi uma distinta pianista de Avaré.
Herculano Pires pertencia a uma tradicional família católica da classe média e, na infância, teve sérios problemas de saúde.
A sua faculdade como médium vidente, começou a manifestar-se quando ele era ainda menino. Tinha visões reais de Espíritos andando de noite pela casa.
Em 1920 a sua família transferiu-se para a cidade de Itaí e depois para Cerqueira César, voltando, logo em seguida, para Avaré, onde foi matriculado na Escola de Comércio, fundada e dirigida pelo Professor Jonas Alves de Almeida.
Na adolescência, Herculano Pires foi aprendiz de tipógrafo e aluno do erudito Professor Pedro Solano de Abreu, e, durante dois anos, de 1927 a 1929, trabalhou com seu pai, na Gráfica Casa Ipiranga que o Sr. Pires Correa fundara em Cerqueira César, onde residia com a família e onde lançou o primeiro jornal político, um semanário em forma de tablóide, que recebeu o título de “O Porvir”. Herculano Pires foi o seu tipógrafo auxiliar e, nesse órgão da imprensa, publicou os seus primeiros versos e variados contos.

Herculano Pires, além de poeta e jornalista, foi também professor e grande escritor.

Desde a adolescência interessou-se muito pelo estudo de temas filosóficos. Deixou então o Catolicismo e, por influência de um parente próximo, Sr. Francisco Correa de Mello, tornou-se teosofista, passando a estudar a fundo os principais livros dessa filosofia, principalmente os de Helena Blavatsky, fundadora da Sociedade Teosófica Mas, pouco depois veio a desilusão, porque verificou que a Teosofia lhe apresentou certas explicações que lhe pareciam absurdas.
Estava então propenso a se entregar ao Materialismo marxista, quando, certo dia, em 1936, encontrando-se com um amigo, que era espírita e fiel discípulo de Allan Kardec, foi por ele desafiado a ler “O Livro dos Espíritos”. Muito a contragosto, aceitou o desafio. Leu e gostou. Gostou tanto que se tornou espírita convicto, levado pelo raciocínio e pela lógica indestrutível que encontrou no Missionário lionês, em quem o astrónomo francês, Camille Flammarion, viu o bom senso encarnado.
Para Herculano Pires, ser espírita “significa viver o Espiritismo; transformar os princípios doutrinários em norma viva de conduta, para todos os instantes da nossa curta existência na Terra; é praticar o Espiritismo, não apenas no recinto dos Centros ou no convívio dos confrades, mas, em toda a parte: na rua, no trabalho, no lar, na solidão dos próprios pensamentos”.
Tornou-se conferencista eloquente e muito solicitado pelos presidentes de centros espíritas. Num deles, situado na cidade de Ipauçu, encontrou, certa vez, a bela jovem Maria Virgínia de Anhaia Ferraz, também espírita, por quem se apaixonou e com quem veio a casar-se no dia 11 de dezembro de 1938, numa cerimónia apenas civil, em casa da noiva.

Herculano Pires foi um grande polemista, tendo mantido discussões acaloradas com pastores protestantes e sacerdotes católicos e até mesmo com muitos confrades espíritas defensores da obra “Os Quatro Evangelhos” de João Baptista Roustaing, publicada em Bordéus, em maio de 1866. Ele não era de cruzar os braços diante das mistificações e abusos praticados no meio espírita, como acontece hoje.

Ao grande Mestre as nossas sinceras homenagens de admiração e respeito.

/…

Erasto de Carvalho Prestes, in O Franco Paladino, Maio de 2009 / Órgão de divulgação do Espiritismo codificado pelo Mestre Allan Kardec – Viva José Herculano Pires!, 1º fragmento solto da obra.

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Palavras para uma jovem vidente

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Palavras para uma jovem vidente que não sabe bem o que vê, para que viva em paz com esse dom e seja feliz, dando – se for possível e se quiser – importantíssimo testemunho do mesmo.

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Soube de uma jovem que, além de ver o que todos vêem, tem o privilégio de ver os espíritos. Outrora teve graves problemas mas habituou-se e aprendeu a viver com isso. Não retirou lições nem procurou conhecer tal fenómeno, o que foi pena.
O que escrevi foi para ela em primeiro lugar mas resolvi partilhar com todos os visitantes deste sítio.

Minha amiga,
É muito importante que saiba que poder ver os espíritos não é sintoma de doença ou desarranjo mental. Muita gente, sobretudo as crianças têm tido dons iguais ou parecidos, a que a indiferença e a ignorância têm virado as costas, tornando desconfortável uma realidade que pertence à natureza e à ordem normal das coisas. Sentir realmente uma presença invisível andar pela casa, um olhar que observa atrás de nós os nossos gestos, por isso já toda a gente passou, sem saber explicar bem o que é.
Outra coisa é ver mesmo os vultos silenciosos de pessoas reais, figuras indistintas que avançam pela casa – como me diz – sem fazerem parte do número dos vivos.
Vou tentar fazer para si um resumo simples de conhecimentos que levam muito tempo a acumular, essenciais para compreender esse facto, sabendo tirar partido dele e podendo utilizá-lo em benefício de terceiros.

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O MUNDO VISÍVEL E O OUTRO

As suas visões dão prova indesmentível da realidade abrangente da natureza, a mesma que contemplamos e sentimos com os nossos vulgares cinco sentidos: a vista, o ouvido, o olfato, o tato e o gosto.
A minha amiga tem a prova de que há gente que passeia por aí – espíritos iguais ao nosso, num outro estado, esperando talvez receber um aceno de simpatia ou um recado que lhes dê coragem para continuar a viagem seguindo os seu caminho.
Em concreto: Depois de mortos todos nós vamos continuar vivos de outra maneira.

Os vultos que tem visto, são figuras reais e representam pessoas que deixaram a vida material e que possuem outras faculdades e dispõem de outra forma de estar e de se deslocarem.
Não podem fazer-nos mal algum nem intervir nas nossas vidas no plano material. No plano mental são quase como outra pessoa qualquer com quem nos cruzamos na rua, embora tenham outras capacidades que são importantes.
Que fique muito claro: se tivermos bem construída a nossa personalidade e se estiver bem colocada a nossa força de vontade, os espíritos não podem fazer-nos mal algum.
Se alguém quiser vender-nos uma enciclopédia ou um conjunto de panelas inox, pode bater à nossa porta para nos convencer a isso. A decisão da compra depende exclusivamente da nossa vontade.
O trato com os espíritos está quase ao mesmo nível, embora o seu potencial de influenciar vontades deva ser melhor esclarecido.

A NATUREZA REAL DOS ESPÍRITOS

Quando acordarmos do outro lado da vida quando esta que vivemos agora se acabar, também seremos espíritos como aqueles que vê lá em casa.
Libertos das dores do corpo e das múltiplas limitações seremos, mental e moralmente, as mesmas pessoas que éramos antes, com preocupações pessoais inerentes à nossa individualidade. Estaremos livres das nossas limitações e necessidades físicas e teremos faculdades muito especiais, que são bem conhecidas e podem ser explicadas.

Com o falecimento não há perda de autonomia de individualidade e o mais natural é que o espírito liberto siga o seu caminho de evolução e aprendizagem. Há muitos casos também de espíritos menos preparados que ficam por aqui, pendentes das suas preocupações anteriores, de tal forma que há muitos que julgam que ainda estão vivos e insistem em habitar entre nós.
A observação experimental de milhões de casos de que há conhecimento comprova isso de forma clara.

Os espíritos mais bem informados e com melhor condição evolutiva passam logo em frente, avançando por uma estrada de aprendizagem, aperfeiçoamento e até de felicidade. Mas para atingir esse patamar teremos que desempenhar com brio, humildade e abnegação todas as tarefas que nos competem!…

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107-Ch-tO AMBIENTE OPRESSIVO DO PLANETA TERRA

A sina deste mundo, na condição material e muito problemática em que estamos mergulhados, é ter de ficar a conviver com aqueles espíritos que ainda não tiveram a lucidez e a vontade de entender que o caminho é para cima e para a frente. No espaço do nosso mundo é muito mais numeroso o contingente dos espíritos invisíveis (que estão por todo o lado) do que o número de pessoas materialmente vivas.
Esses espíritos insistem em ficar presos ao desconforto da vida terrena. São esses, minha amiga, que vê passear silenciosa e misteriosamente em sua casa, nos momentos em que diz ao seu simpático marido: “Olha, hoje temos visitas!…”
Não serão só esses que vêm visitá-la, pode estar certa. Mas por agora não vou complicar este simples resumo.

FACTOS IMPORTANTES DE NATUREZA CIENTÍFICA

Ninguém deve ter medo do universo oculto que nos rodeia e de que só muito poucas pessoas se apercebem, como a minha amiga. A nossa atitude deve ser de uma grande naturalidade, confiança e espírito positivo.
Os contratempos e a perturbação pelos quais passou e aos quais demorou a habituar-se por ignorar as razões substanciais que estavam por detrás deles, tinham sido evitados de forma muito fácil.
Por isso estou aqui a conversar consigo, fazendo votos de que a mensagem possa servir a mais gente, isto é, a mais espíritos.
Quanto mais esclarecida for a nossa posição, melhor será a influência de que vamos poder usufruir E TRANSMITIR a muitas dessas almas perturbadas, confusas e não obrigatoriamente más.
Algumas estarão apenas temporariamente perdidas sem saber o que fazer.
O conhecimento das leis da natureza que governam as interações dos espíritos é fundamental, e bem assim a influência das nossas atitudes sobre o NOSSO PRÓPRIO espírito.
A lei da causa e do efeito e a lei das afinidades, de que falo mais abaixo, governam todo o género de interinfluências positivas e negativas que determinam a nossa lucidez, a FELICIDADE e, como no seu caso, a própria SAÚDE.
Moral da história: para certos problemas que podem resolver-se pelo conhecimento das suas causas naturais não é preciso andar a tomar drogas que nem fazem bem à saúde e muito menos resolvem o problema.

104-O-UMoA VISUALIZAÇÃO DOS ESPÍRITOS E COMO SE PROCESSA

Como está explicado em “O Livro dos Mediuns” capítulo I, nº 54 o ser humano é composto de três elementos distintos.

  1. A alma, ou espírito, é o princípio inteligente da nossa personalidade cuja constituição e natureza não conseguimos discernir com exatidão. De imensa complexidade, caracteriza-se por elevado grau de imaterialidade.
  2. O corpo físico é aquele que conhecemos com mais intimidade mas que, ainda assim, encerra muitos segredos quanto à sua integral e complexa natureza.
  3. Há um terceiro componente dos seres humanos, a que chamamos perispírito, que constitui um plano intermédio entre os dois primeiros e que – além de inúmeras funções incompletamente conhecidas – constitui uma ferramenta de que o espírito dispõe para governar o corpo.

Em termos práticos o perispírito está alojado no mesmo espaço do corpo material (ele é o seu “principio activo”, veículo e ferramenta do espírito junto dos tecidos orgânicos e da natureza intelectual e sensível do homem) e por isso recolhe influência de ambos os lados: do espírito e do corpo.
Para os videntes muito dotados o perispírito constrói à volta do corpo físico uma espécie de reflexo brilhante e colorido. Experiências científicas muito avançadas, aliás, já conseguiram fotografá-lo.
O nascimento de um novo ser corresponde à vontade dos pais em gerar uma criança, mas só se torna uma realidade concreta porque o processo da Criação atua imediatamente após esse episódio, entrando em ação junto de cada novo ser o novo perispírito que o acompanhará toda a vida até ao dia da sua extinção, falecimento, morte ou – como dizem os espíritas – desencarnação.
É interessantíssimo estudar e conhecer todo este fenómeno que explica de forma clara uma quantidade de momentos específicos da própria vida, da morte, do sono e dos sonhos, e tantíssimos outros.
Outra propriedade fundamental do perispírito é a de ir registando todas as aprendizagens que a alma carrega durante a sua vida neste mundo, sendo – em estreita dependência do espírito – a memória de todas as vivências e aperfeiçoamentos anteriores. Por isso as reflete nas cores e no brilho que ostenta e que são visíveis aos outros espíritos.
Donde a justeza de designar-se o perispírito como interface entre o corpo material e a essência praticamente imaterial do espírito.

Citando diretamente o que está contido em “O Livro dos Mediuns”:
“…A morte é a destruição, ou, antes, a desagregação do envoltório grosseiro − invólucro que a alma abandona”. Esse envoltório é aqui designado como “grosseiro” apenas em comparação com o espírito, e é o nosso corpo físico.
Durante toda a vida, animado pela centelha do espírito o corpo evidencia capacidades complexíssimas de sobrevivência. Uma vez destituído desse princípio vital, em escassos minutos o mesmo corpo deteriora-se de forma irrecuperável, apagando-se igualmente todo o seu fulgor intelectual e anímico.
Esse momento corresponde por isso, instante por instante, à saída do perispírito do tecido corporal, do qual se afasta envergado agora pelo espírito – ao qual confere vulto e fisionomia visíveis.

EM RESUMO:

Início do ciclo da vida, fecundação do óvulo materno; início do processo de entrada em funções no tecido orgânico do ser, do perispírito – interface ou ferramenta do espírito, que torna a pessoa naquilo que ela é, com aquisições intelectuais e morais derivadas da sua experiência anterior. Esse processo só se completa no fim da idade infantil, lá pelos sete anos;

No transe do fim da vida, falecimento ou desencarne (saída da carne): abandono pelo perispírito do veículo corporal ou organismo físico da pessoa; passagem da alma a um novo ciclo de vida, carregando as respetivas memórias e aprendizagens, sem esquecer a memória exaustiva e inamovível de todas as suas responsabilidades morais!…

A transformação radical e instantânea dos tecidos do corpo e de toda a sua capacidade vital, nesse momento, motivada pela saída do perispírito – agente ativo das funções vitais conduzido pelo espírito – torna-se um argumento irrecusável e único da importância fundamental do mesmo na instituição da vida.

106-R-AzO perispírito continua pois, às ordens do espírito, na grande viagem sem fim em direção ao aperfeiçoamento, à sabedoria e à felicidade, constituindo por assim dizer o seu corpo operacional para futuras reencarnações neste e noutros mundos.

Note a minha amiga o seguinte:

Esse destino não é reservado apenas aos mais bonzinhos, aos cumpridores e bem-educados da primeira hora. Todos, mas todos os seres que são entregues ao plano infinito da evolução, irão terminar construtivamente a viagem.
Uns irão mais depressa, outros mais devagar, de acordo com a sua vontade e o seu livre arbítrio – pois que a liberdade e a consciência própria é atributo essencial de todos os humanos. E todos os humanos são filhos de pleno direito de Deus, nosso pai, a quem é legítimo atribuirmos desígnios do mais absoluto sentido de justiça e de infinita misericórdia.

Quanto aos espíritos, uns aprenderão pelo amor, pela harmonia e pela vontade positiva. Outros aprenderão pelo esforço doloroso, com lágrimas e cansaços. Mas a todos está reservada a felicidade integral e o conhecimento absoluto, em modalidades de avanço e progresso que nos é completamente impossível descrevê-las.

O conhecimento destes factos também é científico, seja qual for o entendimento que tenhamos dessa palavra. Foi um conhecimento que nos foi revelado pelos espíritos, falando por intermédio de pessoas tão sensíveis como a minha cara amiga, portadores de dotes equivalentes, parecidos e complementares ao dom da mediunidade.
Chamam-se – conforme a variedade dos casos – médiuns audientes, falantes, sonâmbulos, de cura, escreventes ou psicógrafos e ainda outros que constituem um raríssimo, precioso e importantíssimo elenco de seres hipersensíveis a quem a alta espiritualidade confiou a revelação das verdades transcendentes que ajudam os homens que vieram à carne para aprender aquilo que necessitavam de aprender, a seguir em frente nos caminhos da evolução.

OLYMPUS DIGITAL CAMERACONTINUEMOS A ACOMPANHAR O PERISPÍRITO:

A plasticidade semi-material de que se caracteriza, animada pelo espírito, é capaz de se configurar fisionomicamente à medida dos seus desejos e memórias, assumindo no período após o falecimento de uma  pessoa, o aspecto dessa mesma individualidade como adulto jovem, no auge do seu potencial humano.
Quando da morte, por esse motivo, todos ficamos mais bonitos!…
Essa transformação permite aos espíritos tornarem-se identificados por conhecidos e familiares, na multiplicidade de situações em que o encontro com eles se torne possível.
Essa hipótese está largamente confirmada por diversas fontes de conhecimento científico que convergem integralmente, entre outros:

  • O conhecimento espírita;
  • O estudo das experiências de quase-morte;
  • e as inumeráveis regressões a vidas passados levadas a cabo pelo método da hipnose.

Estas fontes, completamente diversas entre si nos aspetos histórico-metodológicos e técnico-científicos são coincidentes, até aos mais diminutos pormenores, nas conclusões alcançadas e nas observações feitas.

DONDE:

Os corpos esmaecidos e flutuantes que são observados pelos hipersensíveis videntes não são outra coisa senão perispíritos, elementos semi-materiais configuráveis pela vontade dos espíritos. Essas são as figuras que entram lá em sua casa, sem precisar de chave ou de ter de tocar à campainha e que a amiga também verá na rua, nos cafés e até nos teatros de concertos onde muitos espíritos gostam de ir ouvir a música com que se deliciam aqui na terra, como no mundo espiritual – que de pequenos nos habituámos a chamar “o céu”.

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SEGUNDA PARTE DA NOSSA CONVERSA

− trata dos aspetos científicos que definem as leis de INTERINFLUÊNCIA entre espíritos e que nos ensinarão a colher as BOAS e recusar ou transformar as MÁS influências, seja das pessoas viventes no mundo físico, seja dos espíritos já viventes (e muito bem vivos) no mundo espiritual.

Em relação com isso, e para nossa conveniência, há um trabalho que só pode ser feito por nós.
É o governo da nossa vontade, a conquista do equilíbrio moral e o conhecimento racional da vida e do espírito, princípio inteligente que está por detrás de tudo o que fomos, o que somos e o que seremos.

Este AVISO contribui:
− para a elevação do nível que nos rodeia todos os dias;
− para a melhoria do comportamento com todos os amigos, colegas de trabalho e familiares;
− para a SAÚDE PSICOLÓGICA e FÍSICA em todos os aspetos de funcionamento do nosso organismo e desenvolvimento da NOSSA FELICIDADE imediata e futura.

142-J-MA LEI DAS AFINIDADES
Se eu entrar num lugar qualquer onde esteja muita gente com quem é que vou reunir-me?
− Às pessoas de que eu gosto, aos meus amigos e conhecidos, é claro. Se possível vou para junto daqueles que me amam e daqueles que eu amo, na hipótese mais favorável.
Para junto das pessoas que eu não goste, daqueles que me maltratam e hostilizam?
− Não, para junto desses não vou!…

Nós somos espíritos − nada mais, nada menos − espíritos de vivos que se deslocam e sobrevivem temporariamente no mundo em corpo material. Os espíritos dos que já faleceram, envergados pelo perispírito, fazem exatamente o mesmo que os espíritos dos que ainda não morreram: uns e outros vão para junto dos seus iguais; procuram de modo infalível aqueles que vibram no mesmo comprimento de onda, partilhando AFINIDADES.

VEJAMOS O QUE PODEMOS FAZER PARA VIVER BEM:

É muito aconselhável para todos nós manter contactos frequentes com espíritos positivos, andar pela vida de mão dada com as pessoas que nos ajudem a viver bem, com respeito pela nossa sensibilidade e em obediência aos princípios e desejos que achamos mais corretos. Não vamos, por uma questão de solidariedade humana – a fundamental e imprescindível caridade – virar as costas a todos os outros, os que não sabem, os insensíveis e os impreparados. A esses será preciso estender a mão, abrir o entendimento, ajudar por amor – numa palavra – instituir a partilha de valores.
Mas temos que saber fazer tudo isso sob o influxo das melhores influências – ganho de causa entre valores positivos e valores negativos que só o conhecimento possibilita e a razão moral pode sustentar.

NOTAR que o mal não vem apenas dos outros.
Nós, por defeito de atitude ou pela tendência para os maus pensamentos, a crispação e a impaciência podemos também alinhar com a negatividade, gerar forças que nos abatam o moral. Os nossos maus pensamentos são um fator fundamental a ter em conta. Uma energia que se torna a mais perigosa de todas, porque está cá dentro.
Seguindo por aí, não tendo cuidado em escolher a boa ajuda e não dispondo de energias para retificar tendências negativas, lá vamos ter de tomar logo de manhã o antidepressivo que nos amortece os sentidos da alma, não dispensado ao deitar o tranquilizante que nos consinta o sono.

NOTA IMPORTANTE:

− Quando falo aqui em melhores companhias muita gente irá pensar que me refiro às pessoas – amigos e conhecidos com quem convivo no dia-a-dia.
ATENÇÃO!… Essa não é a totalidade das companhias que podem vir lançar atrapalhação e mal estar. Se leram com atenção desde princípio lembrar-se-ão que também grande quantidade de espíritos de pessoas já ausentes (os mais materializados e de menor evolução espiritual) andam por aí em grande número.

Se nos abandonarmos a pensamentos negativos e a preocupações obscuras, se fugirmos a momentos elevados de sensibilidade espiritual:

− as boas leituras como as boas acções;
− a melhor cultura como os gestos altruistas;
− as conversas e atitudes edificantes como as atitudes generosas;
− o exercício altamente importante e espiritualizante da PRECE!…

os espíritos com baixas vibrações e pensamentos negativos serão atraídos para o nosso convívio, porque estaremos fatalmente a vibrar à mesma frequência.

MUITO CUIDADO!… Esse risco arrasta-nos para a depressão, para o abatimento – numa palavra, para a obsessão!…

Para saberem o que é a obsessão consultar por favor a importantíssima obra publicada neste blogue da autoria de José Herculano Pires: OBSESSÃO/AUTO-OBSESSÃO – um tema importantíssimo

141-O-VA LEI DA CAUSA E DO EFEITO
Se eu plantar laranjeiras, colho laranjas. Se plantar ventos, colho tempestades. Se semear afetos, mereço colher afetos. Ao semear, porém, já sou beneficiário da boa intenção, que me beneficia desde o primeiro instante. A colheita é contingente, mas é possível. Semear é um dever inabalável de potencial altamente retributivo. Lembrem-se: além dos atos produtivos as boas intenções têm muitíssimo valor!…
A aliança de todos os gestos generosos pode não fazer sempre todos os milagres. Mas encurta o caminho para a perfeição.
Os espíritos que a minha amiga vê passear pela casa necessitam de nós como amigos, como vontades solidárias. Além de semearmos laranjeiras, para colher laranjas, tenhamos o gesto solidário, a palavra de carinho, a prece essencial de apelo às mais elevadas instâncias. Não olhemos de lado as estranhas visitas cujo nome desconhecemos, quer vendo-as, quer se apenas as persentimos.
Com os espíritos não alimentemos o medo; Usemos o melhor da nossa hospitalidade.
Quem sabe será aquele vulto um vizinho conhecido em busca de apoio? Quem sabe será um ente querido há algum tempo desaparecido, em busca do perdão que lhe negámos em vida? Isso acontece, é da vida e está comprovado pelo trato com os espíritos. Nós também somos espíritos e andamos pela vida, tantas vezes, à procura de um simples gesto de carinho, de compreensão ou de auxílio generoso. E se aqueles pelos quais passamos uma e outra vez, virarem sempre o rosto para o outro lado, não querendo estender-nos e, pior do que isso, TIVEREM MEDO DE NÓS por ignorância e frieza indiferente?
Ousemos entendê-los, ousemos o afeto compreensivo.
Esse semear produzirá nos outros o melhor da transformação positiva que em nós ficará a germinar como uma árvore saudável de frutos garantidos.
Chamem-lhe laranjas, chamem-lhe boa vontade, chamem- lhe consciência tranquila ou chamem-lhe a simples alegria de dar!…

106-A-reinv

ESPÍRITOS SOMOS TODOS, EM SITUAÇÕES DIFERENTES

As pessoas que evidenciam estranheza perante os espíritos por serem coisa “do outro mundo”, caiem na rejeição irracional de abordar sequer o tema da vida depois da morte.
Daí um medo mórbido, uma terrível insegurança perante o fenómeno que a todos tocará de forma inevitável. Mesmo os ateus mais dramáticos ou as pessoas a quem a falta de coragem intelectual impede de enfrentarem o assunto, como simples tema de conversa, deveriam pensar no deficit de sentido prático que isso envolve.

Vão morrer um dia, seja de que maneira for, de forma acidental ou seguindo o itinerário mais desejável da longevidade feliz, sem dores profundas de agonia arrastada.
Nesse dia, no instante após, poderão ter necessidade de um “livro de instruções” que os liberte dos transtornos de não saber o que fazer. Havendo – como parece que há – procedimentos aconselháveis, julgo que seria bom dar uma vista de olhos ao tema.

Os cidadãos bem apetrechados costumam precaver-se sempre com cautelas, mesmo nas mais raras e improváveis voltas desta vida. Quanto à morte, essa infalível ocorrência, viram as costas ao assunto quase ofendidos ou desconcertados pela indiscreta apresentação do mesmo.

103-D-PPComportamento que faz lembrar o das crianças assustadas que põem as mãozitas sobre os olhos para o que estão a ver deixe de existir, ou como se a mera hipótese da vida eterna fosse algo de somenos, sonho imerecido que não voa porque a dúvida triste lhe cortou as asas.

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NINGUÉM SE ESQUEÇA DO SEGUINTE:

− O conhecimento da cultura e da ciência espirita, para além de esclarecer as principais questões da vida − origem e destino dos seres − é importante elemento de  libertação e progresso espiritual. Favorece de modo esclarecido a manutenção da saúde física e emocional e é um apoio firme da felicidade pessoal e familiar.
Não é imperioso frequentar nenhum centro, pertencer a nenhum grupo e muito menos frequentar sessões mediúnicas, que são  reuniões muito reservadas que solicitam grande preparação.
A cultura espírita pode desenvolver-se de forma independente mediante o interesse pessoal. O seu estudo pode ser configurado à medida dos interesses de cada um, sendo abundantíssimas as fontes de informação disponíveis, nomeadamente na internet.
Como é timbre e característica fundamental da fraternidade espírita, é sempre possível obter tais elementos de forma completamente grátis.

Juntem-se ao número dos subscritores deste blogue para receberem notícia de todas as publicações (ver coluna à direita). Contactos: palavra.luz@gmail.com

As Experiências de Quase-Morte, a Consciência e o Cérebro, pelo Dr. Pim van Lommel

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As EQM observadas por opiniões insuspeitas

…> É favor ver ao fundo para ter acesso à tradução do documento, antecedido pelos comentários cuja leitura recomendo.

Os médicos e outros especialistas que se têm dedicado à investigação das chamadas experiências de quase-morte (EQM) são merecedores da nossa melhor consideração.
O trabalho de investigação que desenvolvem deriva da sua posição estratégica junto dos protagonistas essenciais dessas mesmas experiências e são naturalmente os profissionais de saúde que os acompanharam antes, durante e depois das mesmas: cardiologistas, anestesiologistas, reanimadores, enfermeiros, psicólogos, etc.

Tem sido por essa via que nos chegam os importantes estudos de um fenómeno cujo esclarecimento não poderia ser feito com mais rigor por outro tipo de pessoas, sendo eles possuidores de um distanciamento crítico que os coloca ao abrigo de tendências particulares.

Tendo feito toda a sua formação académica em ambiente adverso à aceitação da vida depois da morte, foi por disporem – no entanto – de alguma sensibilidade intuitiva para encarar a evidência dos factos que se dedicaram ao seu estudo.

Não seria justo também esquecer o ânimo que foi necessário para enfrentarem todo um sistema de conhecimentos e um ambiente socioprofissional configurado para abordagens materialistas, em tudo avesso a aberturas perante coisas tão “estranhas” como interpretação da crise da morte (como lhe chamou Ernesto Bozzano) que a todos tocará.

As investigações do Dr. Pim van Lommel

O Dr. Pim van Lommel, cardiologista holandês, é um dos principais expoentes a nível mundial da investigação a respeito deste tema, pelo facto de ter empreendido um dos mais abrangentes estudos com larga participação de doentes que sobreviveram a paragens cardíacas – em meio hospitalar – de médicos e outros profissionais de saúde.

Quando lhe escrevi solicitando autorização para traduzir o documento anexo de 2006, nunca pensei que se desse ao trabalho de responder. Não foi assim e aqui está, finalmente, o resultado dessa autorização que já lhe agradeci em meu nome e em nome de todos os leitores de língua portuguesa porque, ao que julgo, este documento ainda não estava traduzido nesta língua.

Um documento de 2006 que diz coisas essenciais 

Abaixo encontrareis um ficheiro pdf, com uma visualização gráfica feita a meu gosto, da tradução já pronta. É um texto de 2006, já algo ultrapassado por desenvolvimentos ulteriores, de que o livro de Pim van Lommel (Consciousness Beyond Life – The Science of the Near-Death Experience)  já editado em várias línguas e brevemente também em português, é exemplo muito bem documentado.

O documento cujo acesso está disponível ao fundo destes textos é um resumo das conceções do investigador relativas às EQM e a diversos aspetos da investigação em torno das mesmas, nomeadamente as que ele mesmo tinha levado a cabo na Holanda.

a capa do livro acima referido publicado em 2010

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Comentários ao texto traduzido: 

O trabalho apresentado não é de forma nenhuma um texto espírita, concebido para ser apresentado perante pessoas crentes na vida depois da morte. Tão-pouco tem a intenção, creio bem, de afirmar convicções fora dos limites da diligência científica, isto no que toca à formação e às motivações do seu autor. Sendo assim, na minha opinião, já interessa – e muito – à ciência espírita, dado que esta tem por intuito seguir atentamente todas as conquistas da ciência, assimilando nelas o que for prova de verdade no território daquilo que conhece, ou seja, a relação entre os espíritos e o mundo material.

Havendo um vasto consenso entre a realidade que se reflete nas experiências de quase-morte e aquilo que está descrito na codificação espírita – do modo que procurarei oportunamente documentar – assim se justifica a publicação do texto do Dr. Pim van Lommel.

O recurso à física quântica e as conclusões do Dr. Pim

A física quântica teve o seu início no fim do século XIX e refere-se à descrição da natureza ao nível do extraordinariamente pequeno. Vários são os textos espíritas que referem este recente avanço da ciência como reforço de certas formulações do espiritismo. Haverá quem saiba disso e possa explicar, mas não é esse o meu caso.

O Dr. Pim van Lommel entendeu avançar por aí na busca de fundamentação para interpretar o significado das EQM.

Aparece ao longo dos seus escritos a ideia da “consciência”, da “consciência alargada” da “continuidade de consciência” ou de uma versão ainda mais complexa, da “consciência não-local” – sendo a “não localidade” um termo oriundo da mecânica quântica.
Todas essas construções teóricas me parecem apenas a problematização de algo que os espíritas chamam, muito simplesmente: o espírito. Bem como me parece evidente que aquilo que ele chama “…experiências peri e post-mortem ou comunicações após a morte…” não passa pura e simplesmente de comunicações mediúnicas.

Para explicar que os seres humanos são formados de principío material e princípio espiritual; para explicar que a morte corresponde à despedida do espírito e do perispírito, deixando atrás o invólucro material – o corpo físico – quando este chega ao fim do seu préstimo; bastam apenas essas duas asserções apoiadas na base sólida da experiência espírita, dispensando portanto os argumentos da física quântica.
Neste trabalho do Dr. Pim van Lommel, a coisa mais importante que eu encontro, no entanto, não é o modo como ele orienta o seu raciocínio, ou como fundamente o mesmo.
São as conclusões que acaba por alcançar depois da profunda impressão que nele produziram as palavras daqueles que, de facto, revelaram ter contactado de forma inequívoca com uma dimensão completamente diferente daquela em que vivemos como corpos físicos.

Não haverá síntese melhor do que aquela que nos oferece, nas seguintes palavras:

“…Esta consciência acentuada e alargada baseia-se em campos indestrutíveis de informação e em permanente evolução, nos quais todo o conhecimento, sabedoria e Amor Incondicional estão presentes. Esses campos da consciência estão guardados numa dimensão que não está sujeita aos nossos conceitos de espaço e de tempo, com interligação “não-local” e universal. Podia designar-se isto como a nossa consciência Superior, a consciência Divina ou consciência Cósmica…” 

Tenho todo o respeito pelo esforço discursivo do Dr. Pim van Lommel e acho que, de uma certa forma (e isso talvez tenha pouco a ver com o carácter exato da física quântica) ele já demonstrou a sua ideia de “espírito”.

Ou que, dizendo aquilo que esclarecidamente diz em tantas das suas afirmações, ele já sabe “o que é” o espírito.
Por isso me interessam tanto as suas investigações e aqui tomo a liberdade de publicá-las. É favor clicar no título para ter acesso ao documento.

O Dr. Pim van Lommel

As Experiências de Quase-Morte, a Consciência e o Cérebro.

O texto original em inglês pode ser consultado na página pessoal do Dr. Pim Van Lommel, no seguinte endereço:

Van Lommel, P. (2006). Near-Death Experience, Consciousness and the Brain.

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