Bertrand Russell – Sobre o progresso espiritual

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As publicações que o IPEAK prometera a respeito do seu trabalho mediúnico de pesquisa e ilustração continuam a surgir, com benefício para todos os interessados.

Já sendo privilégio raro o imenso interesse das reflexões que nos aparecem sob a assinatura do Espírito Russel, temos aqui também o precioso ensejo de abordar conceitos sobre o progresso moral e sobre o progresso espiritual, ditados em Agosto de 2016 pelo Espírito Allan Kardec!…

Na primeira das mensagens aqui publicadas do Espírito Russel foi-nos apresentado um relatório inspirado do seu regresso ao mundo espiritual, com impressões de um grande intelectual ateu a respeito de Deus, agora reconhecido, rematadas de forma eminente: 
…Deus foi o calor que senti após a gélida travessia. Em Deus repousa o sentido, e é nele que a busca cessa…”

Desta feita é-nos oferecida a oportunidade para reflectir sobre a longa caminhada do progresso espiritual, do qual colhemos uma breve fracção de todo o valiosíssimo texto:
“…Na medida em que a consciência se amplia, pelo conhecimento do bem e dos deveres sempre crescentes que ela lhe impõe – o homem é chamado a empreender uma luta contra suas imperfeições, seus fantasmas interiores, por vezes mais tenazes que os maus Espíritos que o rodeiam, porque o assombram ininterruptamente.”

Dizendo MUITO OBRIGADO AO IPEAK, vamos continuar a seguir estas magníficas publicações!…
Para os interessados em alargar este precioso contacto se sugere que se registem como seguidores de IPEAK.

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Na sessão do dia 30 de Agosto de 2016, havíamos estudado o texto da Revista Espírita de Fevereiro de 1864 – Dissertações espíritas – “Estudos sobre a reencarnação”, e havíamos ficado com uma dúvida relativa à seguinte afirmativa feita por Kardec em seu comentário à dissertação do Espírito: “É assim que, de um mundo material como a Terra, pode ir habitar um mundo superior, como Júpiter, se seu avanço moral e espiritual for suficiente para dispensá-lo da passagem pelos graus intermediários.”

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Evocamos nosso professor Allan Kardec e lhe fizemos a seguinte pergunta:

1. Caro mestre, gostaríamos de compreender melhor em que consiste o adiantamento moral e o espiritual a que se refere Kardec no último parágrafo do texto que estudamos, e como discernir um e outro.

Eis a resposta que recebemos:

“Embora possais eventualmente usar como sinónimos esse dois progressos, no texto citado era necessário deixar claro que são progressos distintos, pois relacionam-se a aspirações diferentes. O progresso moral advém da compreensão das leis de Deus e do desejo de relações sociais que possam tornar o mundo o melhor possível.
Por isso, as leis dos homens devem ser leis morais, se se quiser uma vida melhor neste mundo.
Notai que não precisa crer-se espírita para desejar um mundo melhor; porém, aquele que deseja progredir como Espírito deve expandir suas aspirações e almejar mais do que a moralização do mundo pela mudança de seu comportamento; deve desejar as moradas felizes, a vida dos Espíritos superiores, acrescentando ao seu bem proceder essa nova aspiração;
deve dar à vida material um valor relativo, usufruindo dela apenas o necessário para atingir o objetivo a que está destinado por Deus: progredir como Espírito imortal e aspirar a suprema felicidade, que é ser Espírito puro.
Pode-se dizer então que o progresso espiritual seria conhecer a verdade para viver de acordo com a verdade, não mais circunscrito a um mundo, mas na plenitude da unidade Divina.”

Allan Kardec
Psicografada em 30/08/2016

GEAK – Sessão do dia 22/11/2016

Nesta sessão nós relemos a resposta reproduzida acima e fizemos mais algumas reflexões sobre o tema, que nos tem despertado vivo desejo de compreender melhor.
Na sequência evocamos o Espírito de Bertrand Russell, para ditar uma dissertação sobre o progresso espiritual que ele já nos havia prometido. Ele ditou o seguinte:

“Amigos,
Sinto-me feliz pelo chamado, e sou grato pela consideração que guardam por mim. Depois de organizar melhor as minhas ideias sobre o tema, sinto-me mais seguro de, agora, ditá-las ao médium e de submetê-las a vocês, espíritas. Agradeço especialmente aos Espíritos que me ajudaram a ter noções mais justas sobre o progresso espiritual, entendido, é bom que se diga, na perspectiva que estavam debatendo desde há algumas semanas, diferindo-o essencialmente do progresso moral.

No começo do seu progresso, em mundos ainda imperfeitos, o Espírito experimenta uma forma de ignorância não viciosa e de uma simplicidade não virtuosa, mas pouco a pouco as reencarnações vão lhe auxiliando a desenvolver uma diferenciação progressiva em relação ao que ele era no momento em que foi criado. Bem se vê que na fase inicial mão invisível o sustenta e o guia até que, pela experiência, a verdadeira responsabilidade lhe pese sob os ombros e seu livre-arbítrio já esteja suficientemente desenvolvido para que sofra as consequências de suas escolhas. Aos poucos sua consciência já o adverte, e embora suas noções de bem e de mal ainda precisem de muitos aprimoramentos, já incide sobre ele a justiça de Deus, com relação aos seus próprios atos e de acordo com o seu conhecimento das coisas. É então nesse momento que uma segunda forma de ignorância – o desprezo voluntário daquilo que já se sabe sobre o bem – pode fazer-se predominante, com exceção dos Espíritos que desde o começo se decidem pelo bem.

Inicia-se, então, a luta que caracteriza o progresso moral, marcada pelo esforço por dominar as más inclinações, esforço esse que permite que novas aspirações possam lentamente surgir. Na medida em que sua consciência se amplia, pelo conhecimento do bem e dos deveres sempre crescentes que ela lhe impõe – porque o bem sempre se amplia indefinidamente, na medida em que o Espírito se habilita a voos mais altos – o homem é chamado a empreender uma luta contra suas imperfeições, seus fantasmas interiores, por vezes mais tenazes que os maus Espíritos que o rodeiam, porque o assombram ininterruptamente. Esse processo finda com a eliminação dos ditos fantasmas, que cessam de exercer predomínio sobre as consciências inseguras, receosas e incertas do que é o bem e das vantagens de escolhê-lo.

Neste ponto o Espírito já deseja o bem de todos, importa-se com seu semelhante e esforça-se sem descanso para fazer-lhe o bem, mas muitos progressos ainda lhe faltam até o pleno gozo daquilo que intitulo de suas faculdades divinas. O progresso espiritual, então, funda-se na necessidade de complementar o progresso moral, a fim de dar cumprimento ao mais profundo ensinamento do Cristo, ensino que eu, em minha última existência terrena, não compreendi: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.” Deve, assim, o Espírito elevar-se ainda mais, fazendo da aspiração de unir-se a Deus, por um amor lúcido e racional, o seu móbil, a sua marca, o seu objetivo. É desse modo que o Espírito logra ascender cada vez mais a moradas mais purificadas, de maneira que possa assumir um dia as tarefas nos conselhos do Omnipotente, tomando, em definitivo, o lugar que lhe cabe na obra da criação.

Após as considerações precedentes, um conselho lhes deixo: elevem-se, amigos; cultivem o solo de suas almas para que as sementes que estes sábios Espíritos vêm delicadamente lançar sobre todos, germinem e produzam bons frutos. Logo mais, vencidas as dificuldades morais que nos têm caracterizado, logo ali, digo eu, porque hoje eu posso sondar a imensidão, todos poderemos, ascendendo a montanha do progresso espiritual, gozar do pleno amor de Deus; então, teremos realizado o objetivo para o qual fomos, desde a nossa origem, criados.
Adeus, amigos. Até breve!”

Russell.
Psicografada em 22/11/2016.

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O legado documental de Allan Kardec: queimado, escondido ou leiloado?

 

Dito assim, soa a blasfémia. Mas onde está, o que terá sofrido ou de que modo foi alienado o preciosíssimo legado documental que reunia todos os escritos, cadernos com comunicações mediúnicas, publicações, correspondências, registos e outros vestígios do prodigioso e hercúleo trabalho feito pelo abnegado professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, mais conhecido pelo seu pseudónimo: Allan Kardec?…

É disso que tratam os textos abaixo publicados, sendo elementos principais os artigos de investigação e questionamento histórico da autoria do professor João Donha da cidade de Curitiba, estado do Paraná, no Brasil.

 


As considerações de abertura feitas a seguir são da responsabilidade do autor deste blogue:

No pequeno colectivo familiar de que faço parte temos dedicado o melhor dos nossos últimos tempos a ler, directamente do francês, algumas das obras que o nosso muito estimado professor Hipólito Rivail publicou sob o pseudónimo de Allan Kardec.
Para o trazermos para junto de nós, ou para nos transportarmos até junto dele, fizemos um mínimo esforço indispensável para rememorar a História de França, na turbulenta passagem do “ancien régime” aristocraticamente absolutista, decadente e sanguinário, para situações sociais e humanas infelizmente pouco compatíveis com o almejado horizonte de “liberdade, igualdade e fraternidade”, tal como sonharam os cidadãos que fizeram, com dores de muito sofrimento, a “grande revolução”.

Uma das coisas que mais nos doeu nas conclusões que atingimos, foi verificar ter sido Hipólito Rivail um homem praticamente só, a braços com uma tarefa ciclópica.
Empreendeu o seu trabalho já numa idade avançada, com a tremenda falta de meios técnicos, que as pessoas dos dia de hoje mal podem imaginar. Num tempo de violentos contrastes e injustiças, sob o peso esmagador de conceitos religiosos dogmáticos de sentido totalitarista, sombrio e infernal.

Em 1854 o céptico e positivista Hipólito Rivail ouviu, pela primeira vez, o seu amigo Fortier falar-lhe nas mesas girantes. Em 1857 publicou a primeira edição de “O Livro dos Espíritos” e, tendo cumprido integralmente o destino que assumiu, apenas escassos doze anos depois faleceu, completamente exausto.

A história que assim tão brevemente se descreve tem a ver com as interessantíssimas informações abaixo apresentadas nos trechos do professor João Donha, que confirmam de modo inequívoco as conclusões que tirámos da leitura sossegada e da íntima convivência que tivemos o distinto prazer de estabelecer com Hipólito Rivail.
Isto, evidentemente, quanto à falta de solidariedades activas e atitudes organizadas de seguidores atentos que quisessem e pudessem ter salvaguardado, de modo digno e conveniente para todo o entendimento futuro, o verdadeiro teor das intenções e ensinamentos cientifica e filosoficamente tão bem sistematizados por Hipólito Rivail.

Tal circunstância não derivava de nenhuma vocação isolacionista; era a sua própria índole de pessoa sem pretensões de poder, que não recomendava federações nem agremiações de elevado número de adeptos, porque via nesse modelo de associação a raiz o mal, a semente daninha do poder.

Hipólito Rivail, a pessoa íntegra que lutou tudo enquanto pode, não quis fazer-se dono de nada. Nunca foi cabeça de cartaz em comícios, nem convocou concílios, nem se fez fotografar ao lado de poderosos!…

As poucas, muito poucas fotografias que restaram de Hipólito Rivail, mostram-no mais do que apenas sério e compenetrado. Hipólito Rivail revelava nessas imagens o olhar recolhido e receoso de quem teme pelo grande tesouro que lhe coube acautelar com zelo e decisão.
Onde está, ao fim e ao resto, toda documentação preciosa resultante do trabalho acumulado por Hipólito Rivail?

A primeira dramática conclusão que temos diante de nós, é de que foi, à partida, desprezada pelos próprios franceses, num país que é justamente considerado uma das vanguardas culturais e humanistas da velha e contraditória Europa!…
Depois disso, independentemente dos vários enredos incertos, uma coisa é real: a preciosa documentação dorme em esconderijos onde não há quem os estude e muito menos quem queira revelar às claras, de forma honesta e válida, o seu conteúdo, os valores de que é portadora.

Já que nada mais nos resta, não nos constituamos cúmplices desse mau cuidado e desse desprezo pelos valores mais insignes. Ainda ficou muito, muitíssimo, do generoso trabalho de Hipólito Rivail.
Vamos tentar chegar até junto dele. Ou façamos, com delicada atenção, que venha sentar-se a nosso lado.


Mãos à obra, amigos, mãos e mentes à obra!…


O blogue “João Donha – Espiritismo” é daqueles que vale a pena ler de uma ponta à outra, porque não nos diz o mesmo que muitos outros, nem o diz da mesma forma.
Pedimos desculpa do extenso preâmbulo acima, que serviu unicamente para contextualizar no domínio das nossas próprias indagações, realidades quase confidenciais, embora muito significativas. Ora vejamos :

passage saint anne
Esta imagem é interessante por dois motivos. Mostra-nos a entrada da “Passage de Sainte Anne”, à frente da qual pode ver-se o professor João Donha, autor da parte essencial deste trabalho. Foi para aqui que o casal Rivail (Rue de Sainte-Anne nº 59) se mudou em 1860, e onde residiu e tão intensamente trabalhou nos últimos 9 anos de vida de Hipólito Rivail. Foi aqui que se situou inicialmente o escritório da “Revue Spirite” e onde foram escritas as obras espíritas essenciais de Allan Kardec.

EM BUSCA DO SANTO GRAAL


 Primeiro artigo publicado por João Donha em 7 de dezembro de 2012

“Essa espontânea concentração de forças dispersas deu lugar a uma amplíssima correspondência, monumento único no mundo, quadro vivo da verdadeira história do Espiritismo moderno, onde se reflectem ao mesmo tempo os trabalhos parciais, os sentimentos múltiplos que a doutrina fez nascer, os resultados morais, as dedicações, os desfalecimentos; arquivos preciosos para a posteridade, que poderá julgar os homens e as coisas através de documentos autênticos. Em presença desses testemunhos inexpugnáveis, a que se reduzirão, com o tempo, todas as falsas alegações da inveja e do ciúme?…”
(Allan Kardec; G, I, 52, N.1).

Onde está essa “amplíssima correspondência”? Onde foram parar esses “arquivos preciosos” de “documentos autênticos” com os quais a posteridade poderia “julgar os homens”?
Os documentos históricos do espiritismo sofreram as consequências de terem sido, os negócios da doutrina, tratados sempre como algo de família, constituindo heranças e, consequentemente, dependendo de herdeiros.

Kardec pretendia criar uma sociedade impessoal, mas não deu tempo. Morreu antes de concretizar seus planos e, tudo o que era do espiritismo (sociedade, obras, revista, documentos) tornaram-se a herança de sua esposa, Amelie Boudet.
De início, ela disse que ia tudo gerir; mas, talvez pela idade ou a solidão, acabou por entregar tudo nas mãos do Pierre-Gaëtan Leymarie, que criou uma tal “Sociedade para continuar a obra de Allan Kardec”.

Após a morte da herdeira, Amélie, em 1883, e como único remanescente da tal sociedade, Leymarie tornou-se o dono absoluto dos documentos de Kardec.
Uma parte, ele foi publicando na “Revue Spirite”, e acabou por usar em “Obras Póstumas”; outra parte, segundo uma lenda, ele teria enviado para a FEB, onde se encontra sepultado num cofre-forte.
É bom lembrar que Leymarie tinha muita afinidade com o Brasil, particularmente no Rio; ele esteve exilado aqui em 1851, quando houve o golpe do Luís Napoleão. Ademais, nunca escondeu amizades e afinidades roustainguistas.

O que sobrou na França foi herdado (novamente em família!) pelo filho dele, o Paul Leymarie.
Este, após um breve intervalo de três anos em que os negócios ficaram com sua mãe Marina, tornou-se, em 1904, dono absoluto dos destinos do espiritismo até 1914, quando, em função da I Guerra Mundial, desistiu. O que não foi de todo mal, pois o Paul Leymarie vendia até bolas de cristal pela Revue.

Antes mesmo de terminar a I Guerra, em 1916, um rico empresário francês, o Jean Meyer, assumiu o movimento órfão (Léon Denis e Gabriel Delanne eram sumidades intelectuais; eram referências; mas alguém tinha que cuidar dos negócios). As pessoas malvadas, como eu, imaginamos o Meyer compensando regiamente o Paul.

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Meyer criou a Casa dos Espíritas (“Maison des Spirites”, na imagem acima), para onde levou os documentos e objetos pessoais de Kardec.
Este mesmo mecenas fundou o “Instituto de Metapsíquica”, sob o comando inicial do Gustave Geley, e onde foi gerado o “Tratado de Metapsíquica”, no qual Charles Richet diz que o “espiritismo é inimigo da ciência”.
Jean Meyer foi o dono do movimento até sua morte em 1931. Foi ele quem inaugurou a vocação assistencialista do espiritismo. Bem, até aí os jacobinos; a partir daí, os xenófobos.

Assume Hubert Forestier, e torna-se tão particularmente dono que, em 1968, chega a registrar a Revue em seu nome no órgão de propriedade industrial. Morre em 1971, deixando um movimento mais que anêmico, agonizante mesmo.
Seus herdeiros, não sabendo o que fazer de tal herança, vendem tudo por um franco para o André Dumas. A essa altura os direitos autorais das obras de Kardec já tinham caducado. O resto – muito pouco: o nome da Revue e da Societé – ficou nas mãos do Dumas.
André Dumas, seja por ter mudado suas preferências filosóficas, seja por constatar que o status de espírita não conferia mais prestigio, resolveu liquidar tudo: em 1975, mudou o nome da “Revue Spirite” para “Renaitre 2000”, e a Societé para uma tal “sociedade para pesquisa da consciência e sobrevivência”, colocando, dessa forma, duas ou três pás de cal sobre o “espiritismo francês”.

Dizem que os brasileiros tentaram recuperar o nome da Revue Spirite,uma vez que o cidadão não pretendia mais publicá-la, mas o Dumas não aceitou. Alegou que o movimento no Brasil se desviara para o religiosismo e não abriu mão.
Paralelamente, surge na França o Jacques Peccatte dizendo que o próprio Kardec se comunicou no grupo dele, o “Cercle Spirite Allan Kardec”, em 1977, e o mandou ressuscitar o movimento. Ele o tenta até hoje.
Mas, pelo lado digamos, oficial, o Roger Perez, retornando das desativadas colônias, resolveu, certamente com o patrocínio da FEB, retomar as coisas.
Conseguiu reaver do André Dumas, na justiça, o nome da Revue, e passou a editá-la pela “Federação Espírita Francesa e Francófona” (já extinta), da qual foi fundador. Ali pelo ano 2000 passou os direitos para o CEI – Conselho Espírita Internacional.

E os documentos de Kardec, suficientes para comprovar ou desmentir o famoso “controle universal” num julgamento pela posteridade, não deveriam acompanhar toda essa trajetória de mandos e poderes, acondicionados num majestoso baú?
Deveriam, mas o baú transformou-se num “cálice sagrado”, num Santo Graal, ou seja, numa lenda.
Conta Wallace Leal que quando tentava aproximação com Hubert Forestier (aquele que foi dono de 1931 a 1971) para saber dos documentos, ele respondia friamente que a “Maison des Spirites” tinha sido “pillée” (pilhada) pelos alemães.
Dizem que os papéis de Kardec foram queimados para aquecer os soldados alemães, aquartelados na “Casa dos Espíritas”, por uns quatro invernos, os mais rigorosos do século.

Mas, existe outra saga…

Em 1939, Canuto Abreu seria um adido na embaixada brasileira em Paris, quando foi procurado por algumas pessoas que se diziam a mando dos espíritos – que por certo realizaram escutas espirituais no gabinete do Hitler e souberam da iminente invasão alemã à Cidade Luz – e lhe entregaram valiosos documentos de Kardec, para que ele os salvasse trazendo para o Brasil.
Para que não se fuja à regra lendária, tais documentos, “salvos dos alemães”, acabaram transformando-se numa herança, ora sepultada em mãos dos descendentes do Canuto.

Assim, a lenda divide os famosos documentos tão cuidadosamente arquivados e citados por Kardec em três conjuntos:

  • um nos porões da FEB;
  • outro com os herdeiros do Canuto;
  • e, o que ficou na França, queimado como combustível pelos nazistas.
  • Consideremos perdido este último lote.
  • O que está em poder da FEB, segundo a lenda, foi-lhe dado pelo Leymarie, na época legítimo proprietário dos mesmos, legitimando, dessa forma, sua apropriação por essa entidade.
  • Mas, e o lote em poder dos descendentes do Canuto? Ao Wallace, Forestier teria dito que foram “pilhados”, sem se referir à história do Canuto. Teriam, aquelas misteriosas figuras, entregue ao Canuto sem o conhecimento do Forestier, seu proprietário no momento? Não teria havido, assim, uma apropriação indébita?

Por outro lado, considerando as simpatias do governo brasileiro por Hitler – o que só mudaria com as mudanças no rumo da guerra, lá por 1942 – e os agrados despendidos pelas grandes potências no jogo político internacional, se um adido da embaixada brasileira em Paris se dirigisse à autoridade militar alemã, invasora, e solicitasse permissão para “retirar alguns documentos daquela “Maison des Spirites” que seus soldados ocuparam”, seria prontamente atendido. Daí, a “pilhagem” não teria sido feita propriamente pelos nazistas.

Mas, e as datas?…

Os tais “ET’s” teriam aparecido em 1939, e a invasão alemã ocorreu em Junho de 1940. Bem, se esta for uma história dispersiva surgida duas ou três décadas após o ocorrido, um deslocamento de seis meses é bastante viável.
Neste caso – e considerando-se a moda atual de buscarem, os países, nos foros internacionais, documentos, relíquias e artefatos arqueológicos que lhes foram pilhados durantes séculos de guerras e colonizações – o que poderia acontecer se o Roger Perez, ou o Estado Francês – ou mesmo um franco-atirador – se dessem conta de que importantes documentos franceses, pilhados durante a ocupação alemã, se encontram escondidos em São Paulo?

Porque, se esta historia for verdadeira – e, não, apenas uma lenda, como parece ser – há uma diferença em relação às cartas de Kardec que temos visto em leilões.

Uma carta, uma vez enviada e recebida, passa a integrar o acervo do destinatário. Portanto, se o Freud tivesse escrito uma carta à minha bisavó, e agora ela me coubesse por herança, eu faria dela o que quisesse.

Enfim, como em toda lenda, aqui há mais perguntas que respostas.


CURIOSIDADE HISTÓRICA – Os atentados aos documentos de Kardec.



Segundo artigo publicado por João Donha em 7 de Fevereiro de 2014

“Nossa expectativa não foi em vão, e a circulação foi precariamente restabelecida; os Correios ainda estão desorganizados, mas as cartas chegam de todas as partes ao nosso escritório na Rue de Lille, salvo das chamas pela vigilância inquieta de um espírita, o Senhor X., tenente de embarcação.
Diga-se de passagem que o Senhor X., ocupando a área com os seus marinheiros, frustrou, por meio de um monitoramento constante, duas tentativas de incêndio contra o que ainda restava da Rue de Lille, o que teria por resultado condenar à aniquilação o que foi possível salvar desse maravilhoso ‘quartier’.
Estamos felizes em fazer, nesta circunstância, junto ao Senhor X., eco aos agradecimentos do mundo espírita europeu pelo papel que ele desempenhou no salvamento dos nossos documentos.”

Quem já leu os percalços pelos quais passaram os documentos de Kardec no texto “Em busca do Santo Graal”, pode acrescentar mais este aí, relatado pelo Desliens na Revista Espírita de Julho de 1871.

Em 19 de Julho de 1870, cerca de quinze meses após o decesso de Kardec, o Imperador Napoleão III, provocado por Bismarck, declarou guerra à Prússia.
A batalha decisiva ocorreu em 2 de Setembro, quando os franceses foram derrotados e o Imperador aprisionado pelos prussianos.
Mas Bismarck estendeu a guerra até o final de Janeiro do ano próximo com o fim de enfraquecer bastante a França e ficar em definitivo com a Alsácia-Lorena.
Os alemães só deixarão a França em 1873, cobrando pesadas compensações de guerra (“Levando nossas riquezas, a Prússia leva uma parte dos nossos vícios; pois ao ficarmos menos ricos, por certo ficaremos mais virtuosos”, diz uma das cartas recebidas pela Revue).
Em 8 de Fevereiro de 1871, a recém-instalada III República realiza eleições para a Assembléia Nacional.
O interior vota nos conservadores e enrustidos monarquistas;
Paris, vota nos socialistas, anarquistas, liberais e republicanos autênticos.
O líder da assembléia, Thiers, instala o governo em Bordéus, depois em Versalhes.
A cidade luz se revolta: é instalada a Comuna de Paris.
Thiers tenta, em 18 de Março, tomar os canhões da Guarda Nacional; o povo reage e fuzila os generais.
Então, Bismarck liberta e arma os cem mil prisioneiros de guerra para que se unam ao pequeno exército de Thiers e reprimam a Comuna.
O cerco se inicia em 21 de Maio.
Dada a superioridade dos conservadores, a população provoca incêndios na tentativa de conter os soldados. Paris em chamas! É a “semana sangrenta”, que dura até 28 de maio, quando a Comuna se extingue em meio a vinte mil mortos e dez mil prisioneiros ou exilados.
O último reduto caiu em Menilmontant, próximo à porta por onde eu e minha esposa entramos no Père Lachaise quando lá estivemos.

É interessante como os preciosos arquivos, com os quais “a posteridade poderia julgar os homens”, correm o risco de extinção desde o começo de sua existência.
Terá valido a pena, o arriscado esforço do valoroso marinheiro espírita e seus comandados, dando uma sobrevida a este “quadro único da história do espiritismo moderno”?
Dizem que alguns anos depois, Leymarie, então todo-poderoso gerente do espólio kardeciano, enviou vários desses documentos aos seus amigos do Brasil.
O restante do acervo foi novamente ameaçado quando seu filho, assustado com uma “reentrée” dos canhões germânicos e franceses ameaçou abandoná-los à própria sorte.
Foram salvos, desta vez, pelo Jean Meyer, que os recolheu na Maison des Spirites, onde distribuíram suas luzes por um quarto de século, até a Maison virar quartel de tropas, novamente germânicas, e serem pilhados e sepultados impunemente nos porões dos descendentes de quem os retirou de seu devido lugar.
Seria a força do destino tentando se contrapor à força das coisas?

 


A respeito do autor:

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JOÃO DONHA

de Curitiba, Paraná, BRASIL
apresentação redigida pelo próprio e vista no seu perfil Blogger
(clicar para ter acesso)

  • Ex-professor eventual de português e história; ex-quase-escritor; ex-funcionário estatal;…
  • Algumas publicações infanto-juvenis; artigos e poesias em diversos periódicos.
    E… nada a “completar”… a não ser o exercício atual de duas profissões não regulamentadas (graças a Deus):
  • a de “fiscal da natureza”, exercida na rive gauche do rio Cachoeira, e a de “palpiteiro contumaz”, que pode ser verificada aqui no blog.

PUBLICAÇÕES:


“Os Gatos de Angaetama” (1979, CooEditora;1985, Criar; 1995, HDLivros).
“Pelos Outros, Pela Gente” (1980, CooEditora).
“O Lambari Comilão” (1985, Criar). “Brás Brasileiro” (1986, HDV). “Espaço Agrário” (1980, Vozes). “Os Desconhecidos” (1979, Beija-Flor).

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O estado das almas após a morte – JOHANN CASPAR LAVATER – seis cartas de um sábio suíço 59 anos antes de “O Livro dos Espíritos”

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Sophie Marie Dorothea Auguste Louise de Württemberg (1759-1828)
Sophie Marie Dorothea Auguste Louise de Württemberg (1759-1828)

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Apresentação do trabalho que ao fundo se encontra em ficheiro PDF

– Correspondência que Johann Caspar Lavater, sábio suíço, endereçou a Maria Feodorovna, de seu nome de família Sophie Marie Dorothea Auguste Louise de Württemberg (1759-1828) segunda esposa de Paulo Petrovich Romanov (1754-1801), herdeiro de Catarina II e que viria a ser Paulo I imperador da Rússia; Seis cartas de um sábio suíço escritas 59 anos antes de “O Livro dos Espíritos” publicadas na REVISTA ESPÍRITA de ALLAN KARDEC em Março, Abril e Maio de 1868

É de crer que os dotes de mediunidade e a elevação espiritual de Maria Feodorovna e o manifesto interesse do seu marido no tema em questão possa ter levado o casal, que visitara Lavater na Suiça antes de Paulo Petrovitch ter ascendido ao trono, a solicitar-lhe os esclarecimentos que sabiam que ele poderia fornecer-lhes.
Aqui se publica, em documento PDF, a correspondência acima referida, cuja excepcional qualidade literária e o surpreendente nível dos conhecimentos e sensibilidade espírita surpreendem qualquer leitor por terem surgido muito tempo antes de ter sido codificada a doutrina em questão.

Já conhecia estes trabalhos de há muito por inclusão dos mesmos numa obra muito conhecida de Léon Denis, “O Porquê da Vida”.

A versão publicada que eu conhecia dessa obra, editada pela FEB, não refere a Revista dos Espíritos  de Março, Abril e Maio de 1868 como fonte dos textos e talvez por isso não publica os comentários de Allan Kardec e mais uma importante comunicação do próprio Lavater sobre o espiritismo, feita a 13 de Março de 1868 na Sociedade de Paris, pelo Senhor Morin, em sonambulismo espontâneo.

A versão em língua portuguesa a que recorri, foi colhida num importante instituto para o estudo da obra de Allan Kardec, há muito recomendado nas páginas de “espiritismo cultura” e de “espiritismo estudo”: o IPEAK, Instituto de Pesquisas Espíritas Allan Kardec.

Para que não haja equívocos, a primeira coisa de que faço anteceder esta publicação é a opinião de Allan Kardec a respeito dessas cartas.

LavaterJC
Johann Caspar Lavater, pintura de Alexander Speisegger, 1785, Gleimhaus Halberstadt

Johann Caspar Lavater (1741-1801), foi poeta, dramaturgo, teólogo e conselheiro espiritual da área do protestantismo, tendo estabelecido relações de amizade com muitos dos mais notáveis intelectuais e pensadores do seu tempo.
Uma das tarefas a que se dedicou – que nesse tempo suscitou vivo interesse – foi a criação dos estudos de fisiognomia, sobre a análise do carácter das pessoas com base nos seus traços fisionómicos. Foi um intelectual de vastos recursos, escritor dotado e homem de causas, sensível quanto à moralidade e à justiça, sendo notável a correspondência que trocou com individualidades culturais de elevada craveira da época em que viveu. A sua vida, riquíssima de empenhamentos de valor, acabou dolorosamente ao ter participado na resistência oferecida aos invasores franceses de Zurique.

O teor exacto da sua participação no exercício da mediunidade, a forma como adquiriu os vastos conhecimentos sobre o mundo espiritual e as suas regras antes de ter sido fundado o espiritismo, julgo serem um mistério oculto pelo tempo, podendo estar algures detalhes que não conheço.
Com efeito, a sistemática aversão da cultura oficial e académica perante os fenómenos da vida do Além, levaram a que o interesse de Lavater por essa temática fosse, mais do que falsificada e posta a ridículo, inteiramente escamoteada.
As árvores, sabemo-lo de boa fonte, conhecem-se pelos frutos. A árvore de Johann Kaspar Lavater produziu frutos cujo aroma perdurou pelos séculos e nós somos apenas um exemplo dos muitos espíritos que com eles se sentiram felizes e ilustrados.

Johann Caspar Lavater
O ESTADO DAS ALMAS APÓS A MORTE

 Para ter acesso ao trabalho completo em PDF é favor clicar

Em “espiritismo estudo” está publicada uma outra versão deste artigo mais fácil de descarregar para documento WORD, ou até para imprimir. Visitar por favor:

VERSÃO PARA COPIAR TEXTO WORD E IMPRIMIR

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