Cartas de um vivo depois de morto, de Elsa Barker, apresentação e tradução

 

Cartas de um vivo depois de morto

Algumas pessoas exactamente como nós têm o dom da  audição e da escrita automática, entre outros, a que se chama “mediunidade”.
São detentoras de uma sensibilidade especial, até sem o saberem em muitos casos, podendo ouvir as vozes dos seres já ausentes no mundo espiritual, por ter falecido o seu corpo, mantendo-se viva a sua consciência moral e intelectual, como nos acontecerá a todos.
É um facto que se pode comprovar experimentalmente com toda a clareza e permite-nos saber exactamente o que irá suceder-nos depois da relativamente breve viagem da vida terrena. 

A autora desta obra, Elsa Barker tinha essa capacidade e, num serão de 1912, vivendo em Paris, sentiu-se inspirada para escrever uma mensagem de alguém que de início se identificou apenas como “Senhor X”. Depois de ter revelado isso a um amigo bastante próximo, foi-lhe retorquida a pergunta se não sabia quem era o tal “Senhor X”, amigo seu, o Juiz David Patterson-Hatch. Assim começou a série de cartas enviadas “do lado de lá”, com a narrativa das aventuras do Juiz Hatch após a sua vida. Essas cartas foram publicadas numa obra com o título “Lettres from a Living Dead Man” (tradução à letra: “cartas de um vivo morto”), em 1914.

Desconhecido da Senhora Barker, ao tempo da primeira mensagem, o Juiz  tinha falecido recentemente, a muito mais do que 9.000 quilómetros, na Califórnia. Isso foi confirmado por uma carta recebida dias depois:

“Nas primeiras cartas não disse quem era o autor, por não estar ainda autorizada pela sua família. No Verão de 1914, estando eu a viver na Europa, uma longa entrevista com o Senhor Bruce Hatch publicada no New York Sunday World, exprimiu a convicção de que as “Cartas” eram comunicações autênticas de seu pai, o falecido Juiz David P. Hatch, de Los Angeles, na Califórnia.

Depois disso Elsa sentiu-se livre para revelar o seu verdadeiro nome, quando fosse oportuno.

Quem era Elsa Barker?

Elsa Barker, poetisa, novelista e escritora, nasceu em 1869 em Vermont, estado da Nova Inglaterra. O pai era pessoa interessado pelo oculto, e ela partilhava esse interesse. Tornou-se membro da Sociedade Teosófica e também se iniciou na Ordem Rosacruz. Foi professora durante um breve período, tendo passado a dedicar-se a escrever para jornais e revistas. Em determinada altura conheceu o Juiz Hatch, tendo-se tornado amigos. Por ironia do destino, nunca se tornou muito conhecida pelos livros de sua própria autoria.

“Letters from a Living Dead Man” é um conjunto de comunicações inspiradas e otimistas, feitas depois da morte que, depois de 1914 alcançaram alargada popularidade. Foram consagradas como ajuda importante para dissipar o medo da morte. O livro descreve a vida depois da morte com numerosos detalhes, incluindo as consequências do suicídio, a forma como os entes queridos se encontram e o relacionamento com os seres altamente evoluídos.

O juiz David Patterson-Hatch

David Patterson-Hatch nasceu em 1846 no Estado do Maine, numa família de agricultores. Licenciou-se em Direito na Michigan Law School, em Ann Arbor, em 1872. Em 1875 mudou-se para Santa Barbara, na Califórnia onde desenvolveu uma carreira respeitável. Em 1880 foi eleito Juiz do Supremo Tribunal.

O Juiz Hatch não era um homem vulgar. Sempre se interessou pela metafísica e pelas religiões orientais. Passava muito tempo em contacto com a natureza, meditando na floresta. Escreveu e publicou trabalhos de carácter filosófico e outros a respeito do oculto. Quando faleceu em 1912 o “Los Angeles Times” designou-o como “um homem notável” que era “extremamente versado em profundas filosofias da vida” e que obtivera “profundo conhecimento das leis universais que, embora naturais para si mesmo, tinham dimensão mística para aqueles que não tinham acompanhado o seu notável avanço mental”.

As “Cartas de um Vivo depois de Morto” foi começado a escrever em 1912 e publicado em 1914, imediatamente antes da primeira Guerra Mundial.

Depois da publicação do livro, o espírito de David fez uma viagem pelos reinos celestes, estando a preparar-se para escrever a esse respeito. O início da guerra, contudo fizeram com que mudasse de ideias, por julgar que era mais importante escrever a respeito dos efeitos que a guerra tinha sobre a realidade do mundo espiritual e das suas ligações com o mundo material.

O Espírito de David Patterson-Hatch escreveu mais dois livros, um publicado em 1915  “Cartas da Guerra de um Vivo depois de Morto” e em 1919 “Últimas cartas de um Vivo depois de Morto”.
Elsa Barker faleceu em 1954.

Os livros referidos estão amplamente divulgados na Internet,  livres de direitos de autor, pelo menos para fins de divulgação cultural, não comercial. Têm sido lidos por uma imensa quantidade de interessados.

“Cartas de um vivo depois de morto” em português, prefácio do tradutor

Para ler as CARTAS DE UM VIVO DEPOIS DE MORTO:

– Manter uma atitude de curiosidade liberta;
– Respeitar a intenção generosa e desapaixonada do autor;
– Não formalizar nem tornar definitivas as informações transmitidas;
– Não sustentar visões preconcebidas procurando “comprovar coisas”;
E principalmente:
– Aceitar a subjectividade do que é dito, atendendo que não se trata de um telefonema daqui perto…

Tendo encontrado este livro, originalmente escrito em língua inglesa, li-o numa versão americana de 1914 que me interessou imenso.
Tendo uma vaga ideia de como funciona o meio espírita, concluí imediatamente que iria permitir a algumas pessoas chegar a conclusões erróneas, quer quanto ao conteúdo das informações nele contidas, quer para justificar e “comprovar” certas teorias relativas a conveniências doutrinárias.
Trago aqui este trabalho sem intenções ocultas, para poderem alargar ideias sobre a “naturalidade” otimista e luminosa do futuro extraordinário que nos está reservado, em contexto de abertura de espírito.

Uma leitura deste como de outros livros, tem que ser aberta e lúcida. Só assim respeita o melhor que nos quer dar o autor, da forma mais proveitosa para nós próprios

José da Costa Brites
Lousã/Portugal – Julho de 2019
https://palavraluz.com/

 

Para ter acesso ao PDF com a tradução em português da obra acima apresentada,
é favor clicar no link abaixo:

Cartas de um Vivo depois de Morto

 

Novo texto de recordações de Leiria, cidade de tradição espírita

 

Este registo de memórias é feito com uma diminuta porção das minhas magníficas recordações da cidade de Leiria, de todas as suas gentes e da sua riquíssima cultura sensível de humanidades, de que fui amplamente beneficiário.

Também quero prestar homenagem, que não ficará por aqui, a todos os portadores da filosofia espiritualista que ali conheci, entre eles os mais dedicados militantes e organizações espíritas, ali activas, pelo menos desde Maio de 1917, o antigo Centro Espírita de Leiria, encerrado pelo fascismo dogmático de 28 de Maio de 1926, e da Associação Espírita de Leiria, ali reerguida depois de 25 de Abril de 1974.

 

Muito perto do antigo Centro Espírita de Leiria, pintura de 70×90 cm, feita pelo autor desta página em 1990. Mostra uma das extremidades de uma espaçosa praça conhecida pelo nome de “O Terreiro”. Col. Agostinho de Almeida Santos

– As raízes da cultura espírita na minha família;

– O Centro Espírita de Leiria, fundado em 2 de Maio de 1917;

Augusta Pereira Brites; contactos com a Dª Adolfina Carriço Portugal e trabalho no Centro Espírita de Leiria;

– A intolerância dos tempos passados;

– A minhas percepções e primeiros entendimentos do fenómeno espírita; fenómenos benévolos e experiências dolorosas; O auxílio da Dª Adolfina e os apoios de minha avó Cristina e tia Augusta;

– A Senhora Dª Adolfina Carriço; memória breve e longínqua;

– A minha amizade e contactos com o Senhor Delfim Luís Pires;

– memórias de Leiria; o Senhor Vasconcelos (Joaquim Inácio Zapata de Vasconcelos).

As raízes da cultura espírita na minha família derivam das iniciativas de contactos estabelecidos pela minha avó paterna Cristina Pereira Brites (n. 1884) e suas duas irmãs Maria Pereira Brites (um pouco mais velha) e Augusta Pereira Brites (n. 1888). Eram filhas de  Joaquina de Jesus Brites, da Martinela, freguesia do Arrabal, e de Paulino Pereira, da Abadia, freguesia de Cortes.
Foram eles que fundaram a casa situada na Martinela onde viveu até ao seu falecimento recente, uma filha de Augusta, Celeste do Rosário Brites Soares Pinto, e onde fundaram um pequeno negócio, na Ribeira da Martinela junto do Padrão, na estrada que vai de Tomar a Leiria (EN. 113), no tempo em que ainda não havia carros e o local era paragem para muitos viajantes, apenas a 7 km de Leiria.
Os maridos das duas irmãs de Augusta, Maria (com três filhos muito pequenos) e Cristina (à espera de um menino que viria a ser meu pai, José Pereira da Costa Brites) emigraram para Moçambique tendo, por grande desgraça, falecido ambos por enfermidades ali contraídas.
Traumatizadas por esse facto e desejosas de se aproximarem da vida do Além, onde acreditavam encontrar-se, bem vivos, os seus amados maridos, estabeleceram contactos em Leiria (nos fins dos anos 20 do século passado) onde facilmente se integraram na comunidade espírita, dado que eram – apesar de gente modesta – pessoas de fino trato, com educação ainda assim preciosa nesse tempo. A minha tia Maria tinha feito a quarta classe e a minha avó Cristina tinha estudado dois anos em Moçambique num colégio de freiras, por ali ter vivido em companhia de seu pai.

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Família de Joaquina de Jesus Brites (n. 1855) e Paulino Pereira. Joaquina está sentada ao centro rodeada, à sua direita pelas suas filhas Cristina e à sua esquerda, Augusta Pereira Brites. As duas figuras masculinas do lado direito da foto, foram acrescentados a esta imagem, por estarem noutra fotografia, feita em Lourenço Marques. Sentado está o meu bisavô Paulino Pereira e seu filho Alfredo Pereira Brites, jornalista e Cônsul de Portugal na Rodésia. De pé, da esquerda para a direita filhos de Joaquina: Albina, Maria, Conceição e José Pereira Brites.
– Augusta Pereira Brites; contactos com a Dª Adolfina Carriço Portugal e trabalho no Centro Espírita de Leiria;

A minha tia Augusta Pereira Brites, no dizer de sua filha Celeste do Rosário, era pessoa “visitada pelos espíritos”. Tinha uma elevada receptividade e possuía uma fina sensibilidade literária. Sob a orientação doutrinária da Senhora Dª Adolfina Carriço, com quem manteve contactos de confiança e proximidade, exerceu as suas capacidades mediúnicas no Centro Espírita de Leiria, situado perto do Terreiro, como esclareceu a minha prima Celeste. Em criança, acompanhava a mãe e as tias a essas sessões, tendo a ideia da existência de um salão espaçoso onde decorriam as sessões de doutrinação e encontros vários. Lembra-se de ser acarinhada pelo professor Nicolau Ferreira, que mais tarde – na sua adolescência – colocou à disposição dela a sua bem nutrida biblioteca, por ser muito interessada pela leitura.

J. Nicolau Ferreira, entre outras funções e actividades, foi director de “O Sol do Porvir”, belíssimo e bem documentado jornal publicado durante bom número de anos pelo Centro Espírita de Leiria, que teve largo número de leitores e assinantes, espalhados por Portugal e pelo mundo, como pode ser documentado.

Lembrava-se Celeste, e deu-me confirmação do facto de que era a Dª. Adolfina Carriço que dirigia os trabalhos e era a médium superior. Ouvia as mensagens do além e transmitia-as.
Num maço de antigos papéis que a minha mãe guardou de forma reservada, disponho de vários documentos de alguma importância evocativa, um dos quais contém alusões específica à “irmã Adolfina” e ao “irmão Pinto” (muito certamente Joaquim Mateus Ramos Pinto) e que é uma cópia escrita pelo próprio punho de minha mãe, de uma comunicação de 26 de Janeiro de 1929, feita ao Grupo Luz da Verdade, no qual participaria minha avó e minhas tias.

A intolerância dogmática dos tempos passados

A tia Augusta, integrando um grupo familiar, depois da proibição governamental e do encerramento do Centro Espírita de Leiria, passou a usar os seus dotes mediúnicos, fazendo uso deles para ajudar pessoas que a procuravam. Estes auxílios, como é norma da doutrina espírita, eram sempre dados de forma gratuita.
As irmãs Maria e Cristina que viviam em Leiria não tiveram problemas, dado que havia uma maior tolerância mas na Martinela o meio era hostil, tanto por parte dos padres católicos como em geral das pessoas a eles afectas.
Tiveram de deixar de frequentar a Igreja Católica que não as admitia. A Celeste e a Mãe foram postas de parte e até o telhado lhe apedrejavam de noite, com grande transtorno que sofreram, sendo como eram uma mulher só e uma filha ainda criança, que tinham ficado ali devido à exploração do pequeno negócio que haviam herdado de seus pais.
As miúdas, na escola, diziam à minha prima Celeste: “Tu quando morreres vais para o Inferno, com a tua Mãe, porque vocês falam com o diabo”. Sofreram muito e a Celeste decidiu afastar-se do espiritismo.

Ainda criança, Celeste do Rosário decidiu candidatar-se à primeira comunhão e declarou ao padre da freguesia do Arrabal que era essa a sua vontade. Narra igualmente o episódio da conversa havida com ele, a entrega do livro com a teoria da catequese e o dia dessa comunhão, em que sua mãe a acompanhou à igreja e a partir do qual passou a ir à missa com ela. Comenta a propósito não ter sido a mãe que a levou à missa, e sim ela que levou a própria mãe.
Mas as dificuldades e barreiras da intolerância duraram tanto que, quando a minha avó Cristina faleceu na Martinela, já em Janeiro de 1968, nenhum padre quis acompanhar o funeral, apesar da solicitação insistente da nora Maria de Lurdes Brites, minha mãe. Nessa mesma altura foi a minha prima Celeste que teve a iniciativa de se substituir ao padre, fazendo as orações de encomendação da alma da defunta conforme eu próprio mantenho em memória viva e sensibilizada.

A minha querida tia-avó, Augusta Pereira Brites, nascida em 26 de Fevereiro de 1888

A menção que faço da minha tia Augusta Pereira Brites não tem por objectivo glorificá-la como personalidade ligada ao antigo Centro Espírita de Leiria.
O que faz justiça, sim, é a um grande número de pessoas simples, que – de forma altamente modesta e abnegada – foram alimentando a chama de uma cultura e de uma percepção das realidades de aquém e de além vida, que dessa forma foram atravessando o tempo e a sociedade em que vivemos, como facho de luz apontado a um futuro esclarecido e repleto de justas esperanças.
Mais me ocorre certificar, pelo conhecimento que tenho das adversidades que enfrentou e das muitas dores que padeceu – no corpo e no espírito – que tais pessoas arderam nas chamas de uma inquietação sem refrigérios de paz, tolerância e sem o devido apoio da sociedade que as rodeava.
As minhas preces, ainda hoje se elevam em preito de gratidão e memória que tenho da sua abnegada solidão, de que fui conhecedor ainda em sua vida, e permanece nas recordações da filha Celeste, muito recentemente falecida, já com 93 anos de idade, e que tão elegantemente exprime nas suas palavras ditas e na sua vasta obra escrita, por ter herdado de sua mãe um cristalino talento poético e um invulgar bom gosto literário.

Eu, José da Costa Brites e a minha prima Celeste do Rosário Brites Soares Pinto, em Setembro de 2012, no Padrão/Martinela/Leiria.

 

As minhas percepções e primeiros entendimentos do fenómeno espírita; fenómenos benévolos e experiências dolorosas; o auxílio da Dª Adolfina Carriço e os apoios de minha avó Cristina e tia Augusta;

Uma fase marcante na minha própria assimilação intuitiva das realidades da vida dos espíritos teve lugar entre os meus sete e nove anos, logo após o falecimento de meu pai, no dia 15 de Dezembro de 1949, por desastre de automóvel, por terem ocorrido comigo alguns episódios de hipersensibilidade.
Tinha-se dado com a minha mãe, por essa altura, o mesmo fenómeno que se havia passado com a sua sogra Cristina e tia Augusta (por afinidade): um desejo de aproximação do Além. Conservo dessa altura em meu poder, escrito pelo próprio punho de minha Mãe, o texto de uma comunicação espírita efectuada por intermédio dos dotes mediúnicos da minha tia Augusta, datado de 7 de Fevereiro de 1950 e que reputo – pela claridade da linguagem e pela contida elaboração das ideias – um documento de preciosidade espiritual.
Os fenómenos por que passei a que acima aludo foram de vária ordem, alguns de carácter benévolo (e até inspirador), mas outros foram de tipo acentuadamente negativo. Aqueles que eram de tipo benfazejo fazem parte de um grupo que eu chamo as minhas “memórias do céu”. Ocorriam quando eu estava acordado, e surgiam – teria eu cerca de 5 anos, ainda era vivo meu pai – como visões de paisagens, cores, nuvens e horizontes abertos por sobre a vastidão do “céu”. O disparador dessas visões era a contemplação de qualquer imagem ou figura que tivesse cores ou sugestões figurativas de certo tipo.
Quando eu folheava uma qualquer revista, e a minha visão captava uma dessas imagens, sentia abrir-se perante o meu olhar como um “prolongamento”, ou uma amplificação de horizontes sugestivos que eu aceitava com vaga admiração a que a frescura da infância tornava quase natural, mas que comunicava uma certa vertigem.
Há um termo na pintura (que vim a praticar mais tarde) ou na poesia – o das “paisagens interiores” – que, tenha o sentido que tiver para quem a usa, ficou – no que me toca – para sempre ligado a essa vertigem feita de luz, espaço coroado de nuvens coloridas que abrem para a altitude sem margens, nem chão, num cenário que é um convite ao voo, infinito além.
Quanto às minhas vivências negativas, só num documento específico para esse efeito, dada a sua complexidade e consequências respectivas.

Nessa altura, foi a Senhora Dona Adolfina Carriço, solicitada por intermédio de minha avó Cristina e de minha tia Augusta, que exerceu o seu ministério espiritual em minha defesa e aconselhamento
Foram também preciosos os ensinamentos carinhosos de minha avó Cristina e de minha tia Augusta, que me ensinaram a aplicar a vontade, a exercer o direito de recusa da abordagem dos espíritos que frequentemente me abordavam mediunicamente.
Esse sentimento experimentei eu ainda, de quando em vez, até à minha adolescência, em episódios cada vez mais espaçados, de uma certa “distracção” que conduzia à vulnerabilidade.
A idade adulta varreu (ou não…) o acesso a essa angústia. Julgo que alguma coisa porventura ficou e que persiste em mim, algures, em espaços de inquietação da mente objectiva e subjectiva.

A Senhora Dª Adolfina Carriço; memória breve e longínqua;

Da Senhora Dona Adolfina, a cuja presença fui levado, com menos de dez anos, na companhia de minha mãe, à sua casa na Rua Comandante João Belo, guardo uma memória cheia de respeito e grande mistério.
Era uma pessoa por cuja fisionomia e por cujas palavras não passava a mínima aragem de frivolidade ou de alegria leve. Era duma serenidade grave, interiorizada e – nos breves encontros que me foi dado ter com ela, em sua casa ou em raras abordagens na companhia de minha mãe, recolhi a percepção de que carregava sobre os seus ombros o peso imenso de uma profunda responsabilidade.
A sua presença física era de uma enorme fragilidade, dir-se-ia quase imponderável. Quando passava por mim na rua, olhava-a com o receio das pessoas muito jovens que vêem alguém todo feito de respeitabilidade intocável. Ou era de desgostos porque tivesse passado, ou porque não ia ali nada que fosse superficialmente natural, ou fácil ou sem o artifício complexo do que é sabiamente oculto.
Fosse outro porventura o seu feitio perante pessoas da sua intimidade, foi este a impressão sensibilizada que me foi dado captar, em encontros que já muito longínquos.

A minha amizade com o Senhor Delfim Luís Pires

Anos mais tarde, teria eu doze anos (portanto 1954 e daí por diante) a minha mãe dirigiu-se ao Senhor Delfim Luís Pires, conhecidas que eram as afinidades entre ele e minhas tias e avó e a consideração que tinha tido pelo meu pai, para lhe pedir auxílio nos meus estudos. Eu não tinha má vontade no trabalho, mas era comandado por uma fragilidade hipersensível a que a viuvez deprimida da minha mãe não era alheia.

casa onde morava o Senhor Delfim Luís Pires, situada no “Largo do Sete” ou seja, o largo que confinava com o Regimento de Infantaria Sete, junto da Igreja de Stº Agostinho. A porta por onde entrava para as minhas explicações era aquela que se vê do lado direito, ao fundo.

A casa do Senhor Pires passou, portanto, a ser destino assíduo de visitas minhas, tendo-se a sua sala de explicações e de convívios diversos transformado na minha sala de estudo e de interessantíssimas conversas.
Julgo que a minha mãe terá pago alguma coisa por essas explicações, mas coisa muito modesta, dado que o principal da ajuda que me deu foi pela consideração e pelo sentido de solidariedade.
O Senhor Delfim Pires era um empenhado e metódico pesquisador de todos os saberes da idade moderna, de todas as disciplinas principais do conhecimento, dentro do espírito universal duma procura aberta à transcendência. Já nessa altura era muito conhecido e respeitado em Leiria, tendo-se afirmado mais tarde, no dealbar do regime democrático instaurado a 25 de Abril de 1974, como uma das figuras tutelares da comunidade espírita de Leiria, e era carinhosamente apelidado de “Pai Pires”, nome porque era conhecido em sua casa.
Vi e tive acesso à sua larga biblioteca, foi-me explicando os variadíssimos passos do seu método de busca do conhecimento, ao mesmo tempo que me ia dando, sim senhor, explicações a respeito das minhas “coisas da escola”.
Eu diria, contudo, que o mais importante que fui recebendo da parte dele, foi o desvelar de um alargado universo de interesses sem tabus, sem margens e sem inibições. Falou-me e ensinou-me de tudo, como um mestre no mais clássico sentido do termo, generosidade a que eu correspondia com grande interesse e toda a atenção.
Os temas escolares eram mais essencialmente do domínio da matemática e da língua portuguesa; mas daí facilmente se passava a uma grande largueza de temas culturais que eu estimulava com perguntas e a que ele correspondia sempre com respostas cativantes.
A moral e os seus critérios eram o paralelo condutor de todos os temas, as origens da vida e as estruturas da matéria (foi ele que me falou pela primeira vez e em detalhe sobre os átomos, as células e as moléculas); os factos da vida, o casamento, a ética dos afectos, a música (era maestro numa banda muito conhecida, por ter sido sargento músico), os domínios da filosofia, etc. tudo com a simplicidade acessível de quem é capaz de dizer o fácil e o transcendente, parando ao meio das frases para dar lugar à reflexão, ou entremeando graças, pequenos episódio raros, uma pequena anedota, e tantas expressões escolhidas que ficaram – aqui e ali – na minha recordação.
Falou-me da sua amada primeira esposa e explicou-me com interioridade sentimental como se tinha casado, depois de enviuvar, com uma mulher mais simples – e tão simpática – que eu tive o prazer de conhecer. Confidências raras para um rapazito de doze ou treze anos como eu, mas que não caíram em cesto roto, porque tudo guardei com atenção e respeito, e o grave sentimento de estar a receber de longe e do alto, uma serena mensagem de códigos seguros para o entendimento real da vida.

Outra visita que o Senhor Pires costumava ter, de que me lembro bem, era a de um senhor já de cabelos brancos, muito experimentado na pesquisa e na colheita de ervas aromáticas e plantas medicinais. Não me recordo do seu nome. Recordo sim da meticulosa paixão de ambos em analisar e discutir as características e propriedades de cada planta. E da, para mim, confusa e remota ciência das plantas recordo-me dum nome só, que ficou nos resquícios da memória, com cheiro a flores: a “inca pervinca” ou “vincapervinca” como agora certifiquei na internet!
O Senhor Pires (como era conhecido em minha casa) agraciou-me com a sua confiança e sempre que passava pelo seu modesto escritório onde trabalhava, numa recauchutagem ali numa esquina ao lado da Fonte Grande, ia cumprimentá-lo e trocar com ele breves palavras.
Tudo isto foi muitíssimo antes do 25 de Abril, estava inactivado pela polícia política o antigo Centro Espírita de Leiria.
Eu conhecia as suas inclinações espíritas, de várias coisas me falou a esse respeito, mas sem se sentir muito livre para o fazer, creio que pensando nas preocupações de minha Mãe. A meu pedido chegou a emprestar-me, por exemplo, “O Conceito Rosacruz do Cosmos”.
O livro era bastante antigo, e não não tinha nada a ver com uma organização de que mais tarde tive conhecimento, por intermédio de um colega mais velho que se associara a uma entidade residente nos EUA e dali recebia abundante material que chegou a mostrar-me, mas que não exerceu sobre mim qualquer interesse sugestivo, apesar do entusiasmo que esse colega me tentou comunicar.
Nesse tempo a aprendizagem das coisas do espiritismo era praticamente clandestina e, quando comecei a ir a Lisboa, fui algumas vezes a uma livraria semi-clandestina situada num andar de um prédio (sem montra para a rua) onde se vendiam livros dessa orientação na Rua do Salitre, e outros de temáticas semi-ocultas com grande mescla de orientações.
Outro livro também da vertente teosófica a que tive acesso foi “O Homem condenado a ser Deus”, de Félix Bermudes, livro que li com interesse. Já não sabendo ao certo se foi nessa dita livraria que o comprei.
Apesar de ter nessa altura uma vida menos estável, sempre guardei comigo e ainda o possuo como recordação. Também em relação ao seu autor recolhi entretanto referências diversas que o mostram deslocado da doutrina espírita. Na altura o livro foi interessante para mim, porque – além de estar bem escrito – esclarecia muita coisa, nomeadamente a respeito da reencarnação e tinha um longo poema doutrinário, que li com sentimento e de que nunca me esqueci.

 

Leiria, vista parcial / nanquim s/ papel / 35,5 x 49,5 / Costa Brites 1990

 

Memórias de Leiria; o Senhor Vasconcelos (Joaquim Inácio Zapata de Vasconcelos)

Vivendo em Coimbra e nas suas proximidades há cinquenta anos não consigo dizer, em lado nenhum, que sou dali. Nasci em casa do meu avô em Cernache do Bonjardim, mas toda a apreensão do mundo e da vida se foi construindo em Leiria e no seu universo de relações pessoais e culturais, que reconhecia como fortemente estimulante e valioso.

Gente de cultura espírita era fácil de encontrar e a abordagem do assunto não estava sujeita a constrangimentos, certamente pelo elevado prestígio social e cultural de que gozavam muitos dos aderentes e participantes na vida espírita, de cujos elementos destacados ainda conheci mais alguns, já para não falar no Senhor Capitão Ribeiro e na Srª Dª Joaninha, pais de um condiscípulo meu de ensino primário, o José Jaime Fernandes.
Houve entretanto uma pessoa de grande abertura cultural que igualmente me prodigalizou a sua simpatia, o Senhor Vasconcelos, que já faleceu há muito, que era tipógrafo compositor na Gráfica de Leiria e músico (clarinetista, saxofonista e flautista) e ensaiador no Orfeão, de que eu fui membro.

Entre muitas conversas que travei com ele, saliente-se um enorme serão que passamos, acompanhados ainda por terceiro elemento, colega meu de escola e igualmente 2º tenor do orfeão (naipe ensaiado pelo Senhor Vasconcelos).
Por uma serena noite de Verão passeámos lentamente ao longo de todo o enorme “Marachão”, abaixo e acima, desenvolvendo ele uma apresentação bem detalhada de todo o conceito das ideias do espiritismo, a organização do cosmos, a reencarnação, etc.
Não me esquecerei jamais da fórmula com que deu início à longa e para mim inesquecível conversa havida:

“…Caros amigos, talvez não seja por acaso que nos encontrámos hoje, pelo que vou aproveitar, se não recusam a oportunidade, para vos falar de um assunto bastante interessante…”

Encontrei muito mais tarde o terceiro presente nessa ocasião (o meu amigo EMC), que disse nada ter retido de aproveitável dessa conversa, o que lamentei sem dramatismos, certo que para ele também chegará a hora de entender.
No que me toca a mim, devo confirmar com imensa gratidão espiritual e a maior alegria de alma, que não foi de facto “por acaso” que o Senhor Vasconcelos teve aquela generosa ideia e desenvolveu toda a sua convicta eloquência.

Tenho-o recordado com imensa fraternidade nas minhas preces e espero um dia reencontrá-lo, para passear de novo com ele, longamente, por veredas frondosas inundadas de luz, recordando com imenso carinho a fresca humidade nocturna das margens do Rio Lis, de um serão iluminado por revelações generosas e descobertas surpreendentes.

Fins de Junho de 2011 (redacção inicial, com algumas actualizações).

José da Costa Brites

 

Lindíssimo soneto de minha querida Tia Augusta Pereira Brites:

Feliz por ir nascer noutro lugar

Subi ao monte, aonde os olhos meus
Viram o dia já no entardecer;
Viram a luz do Sol ruborescer,
Dourados dedos a dizer-me adeus!

Ia cantar alvores noutros céus,
Dar cor às rosas; vida a todo o ser.
Eu fico em treva, até amanhecer…
Até nascer em mim a luz de Deus.

Com dedos de ouro e alma de luar
Feliz por ir nascer noutro lugar,
O Sol, quando se esconde, vai sorrindo!

O corpo frio desce à terra mãe,
A alma feliz vai acordar além,
Cheia de luz, sorri, ao céu subindo.

Augusta Pereira Brites

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Camila ou a mediunidade do povo não-espírita no tempo da penumbra

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  • A mediunidade de Camila
  • Outras manifestações dos espíritos
  • Comentários e anexos à narrativa acerca de Camila
  • Espíritos bons e espíritos maus
  • A Dupla Vista
  • Qualidades dos médiuns/Allan Kardec
  • Qualidade dos espíritos/Allan Kardec
  • “O martirológio dos médiuns”/Léon Denis

Os adeptos convictos da doutrina espírita dizem que, conduzindo a evolução completa dos espíritos à máxima sabedoria, isso equivale por certo à conquista da máxima felicidade.
Todo o tempo que tivermos de passar distantes desse objectivo ideal, será um tempo de penumbra e desconhecimento, por isso, de infelicidade.
Pobres dos mártires da mediunidade, durante séculos tão duramente incompreendidos na posse de uma faculdade que ninguém, nem eles mesmos, sabiam explicar.
Terá sempre o povo de expiar a culpa dos iluminados ausentes, distraídos ou simplesmente inexistentes?
É favor lerem até ao fim.

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NOTA:

Esta narrativa é feita por uma testemunha directa que viveu os factos e que residia muito perto de casa de Camila. Os nomes das pessoas e da localidade onde ocorreram são fictícios, mas podem ser largamente testemunhados (acrescentados até de muitos pormenores) por todos os habitantes da localidade onde tiveram lugar.
Note-se tudo se passava no período em que a doutrina espírita era proíbida pelo regime fascista vigente muito favorável à igreja católica.
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132-C-EA mediunidade da Senhora Camila, uma figura conhecida a nível nacional

No Olival da minha infância havia uma personalidade conhecida em todo o país que nem o Padre Queirós conseguiu destronar: a Senhora Camila ou simplesmente a Camila, também conhecida como “a bruxa do Olival”.
Ela ficava ofendida quando lhe chamavam bruxa, dizia simplesmente que era “médium”. Segundo a cultura espírita um “médium” é uma pessoa que, por faculdades inatas, tem a capacidade de efetuar comunicações com os espíritos, ou seja, com as almas das pessoas que viveram neste mundo e já morreram, e ser veículo dessas comunicações.
A Camila afirmava que punha as suas capacidades mediúnicas ao serviço dos outros. O problema é que fazia disso profissão e, embora não levasse propriamente dinheiro a ninguém, quem lá ia pagava-lhe como queria ou podia. E parece que ganhava o suficiente para viver pois dava para sustentar o marido e um rol de sobrinhos (ela não tinha filhos), embora num nível de vida baixinho, de acordo com a média do Olival.
Atendendo ao nível de vida da altura, à evidente humildade de Camila e de todos os seus familiares, à sua acessibilidade e aos serviços que prestava, o conceito em que era tida não era de pessoa exploradora, dado que – dos seus parcos meios – ainda repartia do que tinha.

No Olival quase toda a gente era religiosa, acreditava em Deus, na existência da alma, na vida para além da morte, no Céu, no Inferno, enfim, em tudo o que dizia a doutrina católica. A questão era saber se as almas do outro mundo podem manifestar-se através de outras pessoas, os “médiuns”, e se podem ter influência na vida dos que cá estão. Ninguém tinha resposta para isso.
O Padre Queirós, pároco ao tempo todo poderoso na localidade que em tudo interferia, era contra a Camila, é claro, apesar de no Novo Testamento, nos três Evangelhos sinópticos – S. Mateus, S. Marcos e S. Lucas – serem referidas diversas situações em que Jesus de Nazaré encontrou pessoas atormentadas por espíritos malignos e ele próprio expulsava os “demónios” ficando as pessoas completamente bem e aliviadas.

NOTA: É provável que naquela época, como ainda acontece nos nossos dias, se atribuíssem à influência dos “demónios” todas as enfermidades cuja causa era desconhecida, principalmente a mudez, a epilepsia e a catalepsia. Portanto, muitas vezes, aquilo que se chamou “expulsão dos demónios” era, de facto, mais uma “cura” que Jesus efectuava.

Por exemplo, S. Mateus, cap. 8, 16 conta-nos:

“À tarde levaram a Jesus muitas pessoas que estavam possuídas pelo demónio. Jesus, com a sua palavra, expulsou os espíritos e curou todos os doentes”.

E sobre a missão dos discípulos, de que os padres devem ser sucessores, diz-nos S. Lucas, cap. 9, 1-2:

“ Jesus convocou os Doze e deu-lhes autoridade sobre demónios e para curar doenças. E enviou-os a pregar o reino de Deus e a curar.”

 

NOTA: A palavra possesso, na sua aceção vulgar, supõe a existência de demónios, ou seja, de uma categoria de seres de natureza má, e a coabitação de um desses seres com a alma, no corpo de um indivíduo. Mas, como não há demónios nesse sentido, e como dois Espíritos não podem habitar simultaneamente o mesmo corpo, também não há possessos, segundo as ideias ligadas a essa palavra. Pela expressão possesso não se deve entender senão a dependência absoluta da alma em relação a Espíritos imperfeitos que a subjuguem.

Os padres da igreja católica, ao serem “ordenados” recebem entre outros poderes o de “expulsar os espíritos malignos que andam no mundo para atormentar as almas”, ou seja, de fazerem exorcismos. São contudo muito raros os padres que exercem esse poder.
Vi na televisão uma reportagem sobre um padre já idoso, que era exorcista, dizia-se como tal e tratava pessoas atormentadas (a reportagem mostrava um caso concreto).
Explicou que além de padre tinha capacidades mediúnicas, que conseguia comunicar com os espíritos que atormentavam as pessoas, e afastá-los, de modo a libertá-las do seu sofrimento.
Dizia-se no Olival que os padres não queriam exorcizar os espíritos que atormentavam as pessoas porque corriam o risco de eles próprios ficarem atormentados, risco que não queriam correr, além de que nem todos tinham capacidades mediúnicas.
Explicava ainda o padre exorcista que havia outros em várias dioceses, escolhidos pelos bispos, que reconheciam as suas capacidades. Tudo dentro da Igreja Católica.
Mas o Padre Queirós negava todos os poderes da Camila, ameaçava quem lá fosse com o Inferno. Contudo as pessoas, mesmo as que não acreditavam, estavam como o espanhol que afirmava:“Yo no me creo en brujas, pero que las hay, las hay”.
Toda a gente tinha medo de ser apoquentado pelas almas do outro mundo e ninguém a incomodava.
A Camila era uma boa pessoa e de boas contas. Era a pessoa mais gorda que nós conhecíamos e ainda parecia maior ao lado do marido, pequeno e franzino. Andava vestida à moda da aldeia daquele tempo, humildemente, com uma saia mais ou menos justa pelo joelho, um avental, sem meias e descalça todo o ano, em casa ou na rua. Dizia que por ser forte não aguentava os sapatos.
Vivia numa casa muito humilde onde tinha construído uma divisão à parte, a que chamava a “casa dos trabalhos”, onde recebia os seus clientes e tinha a ajuda de vários colaboradores seus familiares.
Às vezes na rua ouviam-se vozes estranhas e contava-se que, quando recebia os espíritos, estes falavam com a sua própria voz, pela boca da Camila.
Também ela, por vezes , era atormentada por “Espíritos maus” que não conseguia afastar.
Os familiares procuravam ajudá-la a libertar-se como podiam e, nesse caso, ouvíamos na rua choros e gritos e às vezes até insultos, mas tudo acabava por se resolver.

NOTA: Sabemos que não é este o processo que o Espiritismo aconselha, mas era o que eles, por desconhecimento, faziam. “As práticas do exorcismo, até hoje vigentes no Judaísmo e no Catolicismo, destinam-se a afastar o espírito inferior, a que chamam “demónio”, de maneira agressiva e violenta.
No espiritismo o método empregado é o da persuasão progressiva do obsessor e do obsidiado (o possesso, como se dizia). É o que se chama “doutrinação”, ou seja, esclarecimento de ambos à luz do espiritismo.
Não se usa nenhum ingrediente especial. Emprega-se apenas a prece e a conversação persuasiva. Esclarecido o obsidiado, atinge-se o obsessor, que ficam, por assim dizer, vacinados contra novas ocorrências obsessivas.” (J. H. P.)

As pessoas que frequentavam a casa da Camila eram de vários níveis: se era gente pobre ou da classe média sempre passavam pela venda próxima a comer e a beber qualquer coisa e também a descansar. Vinham de camioneta até à localidade à beira da estrada e depois a pé até ao Olival. Outras vinham em carros de praça. Mas às vezes apareciam grandes carros de luxo de pessoas ditas importantes que não queriam ser vistas e muito menos reconhecidas. A Camila tinha, por isso, alguma influência mesmo fora do Olival.

Num ano em que estivemos nas Termas, ela também lá estava. Logo no primeiro dia, sem nada lhe pedirmos e porque éramos conhecidos e vizinhos, arranjou-nos uma consulta rapidíssima no médico da Termas. Também verificámos que tratava o dono das Termas, do Hotel e das Pensões com o maior à vontade e ia à cozinha buscar comida e petiscos que distribuía pelos seus conhecidos.
Lembro-me de um dia nos ter trazido um pratinho de moelas como grande petisco e de que eu, por ser ainda criança, não gostei nada. O dono das termas e todos os funcionários a tratavam com o maior respeito e cordialidade como se de pessoa íntima se tratasse.
A Camila era conhecida por todo o lado e pôs o Olival no mapa de Portugal. As tais pessoas que lá iam contavam as suas histórias, a razão porque lá iam, os resultados que tinham alcançado, etc. Às vezes contavam coisas mirabolantes.

Lembro-me de uma conversa de um homem dos seus quarenta anos, que vinha sozinho, a quem um tio meu se atreveu a perguntar se ele acreditava mesmo que a Camila tinha o poder de curar. A resposta foi pronta:
– Absolutamente, disse o homem. Absolutamente. De tal modo que farei tudo o que ela me mandar fazer.
O meu tio ficou perplexo. Porquê tanta convicção? Então o homem contou a história.
Disse que a primeira vez que fora à consulta fê-lo como último recurso, num grande desespero. Tinha uma filhinha de seis anos muito doente e já tinha recorrido a vários médicos que não conseguiram curá-la. Mandaram-na para casa “desenganada”, como se dizia, inconsciente, à espera do fim.
Tinha-a deixado nesse estado quando partiu para o Olival. Foi à Camila, ela comunicou com os espíritos, ele contou tudo o que pôde e pediu ajuda. Então o Espírito, através dela, respondeu:
– Não chores mais, a tua menina vai melhorar.
O homem mostrou-se incrédulo e o Espírito continuou:
– Já começou a melhorar. Neste momento está sentada na cama a comer uma tigela de sopas de leite.
O Espírito deu-lhe alguns conselhos de procedimentos a seguir, a consulta acabou e o homem saiu desanimado. Não acreditava no que tinha ouvido e pensava que a filha ia morrer.
Nessa altura não havia telemóveis nem sequer telefone para confirmar os factos. Foi para casa e ao chegar esperava-o a esposa sorridente, com a menina ao colo, que confirmou a história das sopas de leite e até a hora em que tinha acontecido.
Desde então o homem ia com frequência à Camila quando tinha qualquer problema ou precisava de algum conselho, ou mesmo só para agradecer e dizia-o a toda a gente.

Outras manifestações de espíritos

203-O-ExorLá em casa nunca fomos à bruxa ou a um “médium”, nem à Camila nem a qualquer outro lado. Mas a verdade é que tínhamos razões de sobra para acreditar “que havia coisas difíceis de explicar”, como diziam. Só que não queríamos envolver-nos num domínio desconhecido em que havia pessoas sérias e conhecedoras mas também muitos oportunismos e aldrabices, e de que na realidade tínhamos medo.
Lembremo-nos de que quando os meus pais foram morar para a casa pequena e pobre da Rua onde eu nasci, ela foi ainda mais barata por ter fama de ser “assombrada”. E eles bastante se assustaram com essa assombração.
Contavam os meus pais (os dois ouviam e sentiam a mesma coisa ao mesmo tempo) que durante a noite, muitas vezes, começavam a ouvir umas pancadas, como se fossem uns passos, a caminhar pela casa e a dirigirem-se à porta do quarto.
A partir do momento em que as começavam a ouvir ficavam completamente paralisados, incapazes de se mexer e de falar, fosse por medo ou por qualquer outra razão. Os passos entravam no quarto, saltavam para cima da cama e começavam a calcá-los, lentamente, caminhando desde os pés até ao pescoço (nos dois ao mesmo tempo).
Paravam um pedacinho calcando na garganta e, quando eles já estavam cheiinhos de medo de ficar asfixiados, os passos começavam a retirar-se e iam-se embora da mesma forma que tinham chegado. Só quando já não se ouviam, os meus pais voltavam a ser capazes de conversar um com o outro. Ouvi-os contar esta história inúmeras vezes.
Eles tinham muito medo mas nem pensavam em sair daquela casa pois não tinham dinheiro nem alternativa. Limitavam-se a rezar. Passados uns tempos largos os passos deixaram de aparecer.

Segundo Allan Kardec, “as pancadas e os movimentos são para os Espíritos os meios de atestarem a sua presença e chamarem sobre eles a atenção, exatamente como quando uma pessoa bate para advertir que há alguém”. Eles estarão a precisar de ajuda e a solução não é fugir-lhes mas sim ajudá-los, se não houver outro processo, através de um “médium”, por exemplo, para tentar saber o que se passa; se não for possível, pelo menos pela oração, para que encontrem o seu caminho junto dos espíritos de luz.
Como se torna absolutamente claro por esta narrativa, estes factos não foram inventados, lidos num suplemento de fim de semana ou vistos na televisão. Foram vividos pelos meus pais e são diretamente conhecidos por mim, por meus irmãos, por todos os outros membros da família e poderão ser largamente acrescentados por um inquérito local feito junto das pessoa de certa geração.

224-SomosEspíritos bons e Espíritos maus
In “O Espiritismo na sua expressão mais simples”, de Allan Kardec

Acreditou-se que os Espíritos, pelo único fato de serem Espíritos, deviam ter a soberana ciência e a soberana sabedoria: foi um erro que a experiência não tardou a demonstrar.
Entre as comunicações dadas pelos Espíritos, há as que são sublimes de profundeza, de eloquência, de sabedoria, de moral, e não respiram senão a bondade e a benevolência; mas, ao lado disso, há as muito vulgares, levianas, triviais, grosseiras mesmo, e pelas quais o Espírito revela os instintos mais perversos.
É, pois, evidente que elas não podem emanar da mesma fonte e que, se há bons Espíritos, há também Espíritos maus.
Os Espíritos, não sendo senão a alma dos homens, não podem naturalmente tornar-se perfeitos deixando o seu corpo; até que hajam progredido, conservam as imperfeições da vida corpórea; por isso, existem em todos os graus de bondade e de maldade, de saber e de ignorância.
Os Espíritos comunicam, geralmente, com prazer e para eles é uma satisfação ver que não foram esquecidos; descrevem voluntariamente as suas impressões ao deixar a Terra, a nova situação, a natureza das suas alegrias e sofrimentos no mundo dos Espíritos onde se encontram; uns são muito felizes, outros infelizes, alguns mesmo suportam tormentos horríveis, segundo a maneira pela qual viveram e o emprego bom ou mau, útil ou inútil que fizeram da vida.
Ao observá-los em todas as fases da sua nova existência, segundo a posição que ocuparam na Terra, seu género de morte, o seu carácter e seus hábitos como homens, chega-se a um conhecimento senão completo, pelo menos bastante preciso, do mundo invisível, para nos darmos conta do nosso estado futuro e pressentir a sorte feliz ou infeliz que ali nos espera.

205 avulso pp

A Dupla Vista

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  • Explicação de alguns factos considerados sobrenaturais
  • Como é que a Senhora Camila sabia que a menina estava melhor e a tomar as suas sopas de leite?
  • Foi de facto assim e isso prova que estava assistida por um Espírito bondoso. Uma das qualidades dos Espíritos desencarnados é ver à distância e através dos corpos opacos. Também há Espíritos encarnados que têm essa capacidade a que se chama dupla vista. Vejamos do que se trata:

“A Génese, capítulo XIV (Os Fluidos)

22. O perispírito é o traço de união entre a vida corporal e a espiritual: é por ele que o espírito encarnado está em contínuo contacto com os desencarnados; é por ele, enfim, que ocorrem, com o homem, fenómenos especiais que não têm a sua origem na matéria tangível, e que, por essa razão, parecem sobrenaturais.
É nas propriedades e nas irradiações do fluido perispiritual que se deve procurar a causa da dupla vista, ou vista espiritual, que também se pode chamar de vista psíquica, da qual muitas pessoas são dotadas, muitas vezes a contragosto (…).

O perispírito é o órgão sensitivo do espírito, é por seu intermédio que o espírito encarnado tem a percepção das coisas espirituais que escapam aos sentidos carnais.
Pelos órgãos do corpo, a visão, a audição e as diversas sensações são localizadas e limitadas à percepção das coisas materiais; pelo sentido espiritual, elas são generalizadas; o espírito vê, ouve e sente por todo o seu ser o que se encontra na esfera de irradiação do seu fluido perispiritual.

No homem, esses fenómenos são a manifestação da vida espiritual; é a alma que actua fora do organismo e pode ver para além das coisas materiais.

Na dupla vista, ou percepção pelo sentido espiritual, ele não vê pelos olhos do corpo, embora muitas vezes, por hábito, ele os dirija em direção ao ponto que chama a sua atenção. Ele vê pelos olhos da alma, e a prova disso é que vê tudo também com os olhos fechados, e além do alcance da sua visão.
(…)

27. A visão espiritual é necessariamente incompleta e imperfeita nos espíritos encarnados, e, por consequência, sujeita a aberrações. Tendo sua sede na própria alma, o estado da alma deve influenciar as percepções que a visão espiritual dá. De acordo com o seu grau de desenvolvimento, as circunstâncias e o estado moral do indivíduo, ela pode proporcionar, seja durante o sono, seja no estado de vigília:
− A percepção de certos factos materiais reais, como, por exemplo, o conhecimento de casos que se passam a grandes distâncias, os detalhes descritivos de uma localidade, as causas de uma enfermidade e os remédios convenientes.
− A percepção de coisas também reais do mundo espiritual, como, por exemplo, a visão dos espíritos (…).

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QUALIDADES DOS MÉDIUNS
In: “O que é o Espiritismo” de Allan Kardec

79. A faculdade mediúnica é uma propriedade do organismo e não depende das qualidades morais do médium; ela se nos mostra desenvolvida, tanto nos mais dignos, como nos mais indignos. Não se dá, porém, o mesmo com a preferência que os Espíritos bons dão ao médium.

80. Os Espíritos bons comunicam mais ou menos de boa-vontade por esse ou aquele médium, segundo a simpatia que lhe votam. A boa ou má qualidade de um médium não deve ser julgada pela facilidade com que ele obtém comunicações, mas pela sua aptidão em recebê-las boas e em não ser ludibriado pelos Espíritos levianos e enganadores.

81. Os médiuns menos moralizados recebem também, algumas vezes, excelentes comunicações, que não podem vir senão de bons Espíritos, o que não deve ser motivo de espanto: é muitas vezes no interesse dos médiuns e com o fim de dar-lhes sábios conselhos. Se eles os desprezam, maior será a sua culpa, porque são eles que lavram a sua própria condenação. Deus, cuja bondade é infinita, não pode recusar assistência àqueles que mais necessitam dela. O virtuoso missionário que vai moralizar os criminosos, não faz mais que os bons Espíritos com os médiuns imperfeitos.
De outra sorte, os bons Espíritos, querendo dar um ensino útil a todos, servem-se do instrumento que têm à mão; porém, deixam-no logo que encontram outro que lhes seja mais afim e melhor se aproveite de suas lições.
Retirando-se os bons Espíritos, os inferiores, que pouco se importam com as más qualidades morais do médium, acham então o campo livre. Resulta daí que os médiuns imperfeitos, moralmente falando, os que não procuram emendar-se, tarde ou cedo são presas dos maus Espíritos que, muitas vezes, os conduzem à ruína e às maiores desgraças, mesmo na vida terrena.
Quanto à sua faculdade, tão bela no começo e que assim devia ter sido conservada, perverte-se pelo abandono dos bons Espíritos e, afinal, desaparece.

82. Os médiuns de mais mérito não estão ao abrigo das mistificações dos Espíritos embusteiros; primeiro, porque não há ainda, entre nós, pessoa assaz perfeita, para não ter algum lado fraco, pelo qual dê acesso aos maus Espíritos; segundo, porque os bons Espíritos permitem mesmo, as vezes, que os maus venham, a fim de exercitarmos a nossa razão, aprendermos a distinguir a verdade do erro e ficarmos de prevenção, não aceitando cegamente e sem exame tudo quanto nos venha dos Espíritos; nunca, porém, um Espírito bom nos virá enganar; o erro, qualquer que seja o nome que o apadrinhe, vem de uma fonte má.
Essas mistificações ainda podem ser uma prova para a paciência e perseverança do espírita, médium ou não; e aqueles que desanimam, com algumas decepções, dão prova aos bons Espíritos de que não são instrumentos com que eles possam contar.

83. Não nos deve admirar ver maus Espíritos obsidiarem pessoas de mérito, quando vemos na Terra homens de bem perseguidos por aqueles que o não são.
É digno de nota que, depois da publicação de “O Livro dos Médiuns”, o número de médiuns obsidiados diminuiu muito; os médiuns, prevenidos, tornam-se vigilantes e espreitam os menores indícios que lhes podem denunciar a presença de mistificadores.
A maioria dos que se mostram ainda nesse estado não fizeram o estudo prévio recomendado, ou não deram importância aos conselhos que receberam.

84. O que constitui o médium, propriamente dito, é a faculdade; sob este ponto de vista, pode ser mais ou menos formado, mais ou menos desenvolvido.
O médium seguro, aquele que pode ser realmente qualificado de bom médium, é o que aplica a sua faculdade, buscando tornar-se apto a servir de intérprete aos bons Espíritos.
O poder que tem o médium de atrair os bons e repelir os maus Espíritos, está na razão da sua superioridade moral, da posse do maior número de qualidades que constituem o homem de bem; é por esses dotes que se concilia a simpatia dos bons e se adquire ascendência sobre os maus Espíritos.

85. Pelo mesmo motivo, as imperfeições morais do médium, aproximando-o da natureza dos maus Espíritos, tiram-lhe a influência necessária para afastá-los de si; em vez de se impor, sofre a imposição destes.
Isto não só se aplica aos médiuns, como também a todos indistintamente, visto que ninguém há que não esteja sujeito à influência dos Espíritos.

86. Para impor-se ao médium, os maus Espíritos sabem explorar habilmente todas as suas fraquezas e, entre os nossos defeitos, o que lhes dá margem maior é o orgulho, sentimento que se encontra mais dominante na maioria dos médiuns obsidiados e, principalmente, nos fascinados. É o orgulho que faz se julguem infalíveis e repilam todos os conselhos.
Esse sentimento é infelizmente excitado pelos elogios de que são objecto; basta que um médium apresente faculdade um pouco transcendente, para que o busquem, o adulem, dando lugar a que ele exagere sua importância e se julgue como indispensável, o que vem a perdê-lo.

87. Enquanto o médium imperfeito se orgulha pelos nomes ilustres, frequentemente apócrifos, que assinam as comunicações por ele recebidas e se considera intérprete privilegiado das potências celestes, o bom médium nunca se crê assaz digno de tal favor; ele tem sempre uma salutar desconfiança do merecimento do que recebe e não se fia no seu próprio juízo; não sendo senão instrumento passivo, compreende que o bom resultado não lhe confere mérito pessoal, como nenhuma responsabilidade lhe cabe pelo mau; e que seria ridículo crer na identidade absoluta dos Espíritos que se lhe manifestam. Deixa que terceiros, desinteressados, julguem do seu trabalho, sem que o seu amor-próprio se ofenda por qualquer decisão contrária, do mesmo modo que um actor não se pode dar por ofendido com as censuras feitas à peça de que é intérprete.
O seu carácter distintivo é a simplicidade e a modéstia; julga-se feliz com a faculdade que possui, não por vanglória, mas por lhe ser um meio de tornar-se útil, o que faz de boamente quando se lhe oferece ocasião, sem jamais incomodar-se por não o preferirem aos outros.
Os médiuns são os intermediários, os intérpretes dos Espíritos; ao evocador e, mesmo, ao simples observador, cabe apreciar o mérito do instrumento.

88. Como todas as outras faculdades, a mediunidade é um dom de Deus, que se pode empregar tanto para o bem quanto para o mal, e da qual se pode abusar. Seu fim é pôr-nos em relação directa com as almas daqueles que viveram, a fim de recebermos ensinamentos e iniciações da vida futura.
Assim como a vista nos põe em relação com o mundo visível, a mediunidade liga-nos ao invisível.
Aquele que dela se utiliza para o seu adiantamento e o de seus irmãos, desempenha uma verdadeira missão e será recompensado. O que abusa e a emprega em coisas fúteis ou para satisfazer interesses materiais, desvia-a do seu fim providencial e, tarde ou cedo, será punido como todo homem que faça mau uso de uma faculdade qualquer.

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IDENTIDADE DOS ESPÍRITOS
In: “O que é o Espiritismo” de Allan Kardec

93. Uma vez que no meio dos Espíritos se encontram todos os caprichos da humanidade, não podem deixar de existir entre eles os ardilosos e os mentirosos; alguns não têm o menor escrúpulo de se apresentar sob os mais respeitáveis nomes, com o fim de inspirarem mais confiança. Devemos, pois, abster-nos de crer de um modo absoluto na autenticidade de todas as assinaturas de Espíritos.

94. A identidade dos espíritos é uma das grandes dificuldades do Espiritismo prático, sendo muitas vezes impossível verificá-la, sobretudo quando se trata de Espíritos superiores, antigos relativamente à nossa época.
Entre os que se manifestam, muitos não têm nomes para nós; mas, então, para fixar as nossas ideias, podem tomar o nome de um Espírito conhecido, da mesma categoria da sua; de modo que, se um Espírito comunicar com nome de S. Pedro, por exemplo, nada nos prova que seja precisamente o apóstolo desse nome; tanto pode ser ele como outro da mesma ordem, como ainda um enviado seu.
A questão da identidade é, neste caso, inteiramente secundária e seria pueril atribuir-lhe importância; o que importa é a natureza do ensino, se é bom ou mau, digno ou indigno da personagem que o assina; se esta o subscreveria ou repeliria: eis a questão.

95. A identidade é de mais fácil verificação quando se trata de Espíritos contemporâneos, cujo carácter e hábitos sejam conhecidos, porque é por esses mesmos hábitos e particularidades da vida privada que a identidade se revela mais seguramente e, muitas vezes, de modo incontestável.
Quando se evoca um parente ou um amigo, é a personalidade que interessa, e então é muito natural buscar-se reconhecer a identidade; os meios, porém, que geralmente emprega para isso quem não conhece o Espiritismo, senão imperfeitamente, são insuficientes e podem induzir a erro.

96. O Espírito revela sua identidade por grande número de circunstâncias, patenteadas nas comunicações nas quais se reflectem seus hábitos, carácter, linguagem e até locuções familiares.
Revela-se ainda nos detalhes íntimos em que entra espontaneamente, com as pessoas a quem ama: são as melhores provas; é muito raro, porém, que satisfaça às perguntas directas que lhe são feitas a esse respeito, sobretudo se elas partirem de pessoas que lhe são indiferentes, com intuito de curiosidade ou de prova.
O Espírito demonstra a sua identidade como quer e pode, segundo o género de faculdade do seu intérprete e, às vezes, essas provas são superabundantes; o erro está em querer que ele as dê, como deseja o evocador; é então que recusa sujeitar-se às exigências.
 “O Livro dos Médiuns”, cap. XXIV; Identidade dos Espíritos.
− “Revue Spirite”, 1862, pág. 82: Fait d’identité.)

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“O martirológio dos médiuns” / Léon Denis
Léon Denis, no capítulo XXV da sua notável obra “No Invisível” disse-nos o seguinte:

O médium é muitas vezes uma vítima e, quase sempre, essa vítima é uma mulher. Na Idade Média qualificavam-na de feiticeira e queimavam-na.
A Ciência actual, menos bárbara, contenta-se em deprimi-la, aplicando-lhe o epíteto de histérica ou de charlatã.
(…)

Quando são necessárias grandes dedicações para reconduzir a Humanidade ao caminho de seus destinos, é muitas vezes na mulher que elas se encontram. O que dissemos das irmãs Fox, poder-se-ia dizer dos médiuns mais notáveis.
Joana d’Arc foi queimada viva, por não ter querido renegar as aparições e vozes que percebia. E não termina com ela o martirológio da mulher médium. Em contraposição a algumas que se têm deixado seduzir pelas vantagens materiais e recorrido à fraude, quantas outras não têm sacrificado a própria saúde e comprometido a existência pela causa da verdade!
Se a mediunidade psíquica é isenta de perigos, como veremos adiante, quando utilizada por Espíritos adiantados, o mesmo se não dá com as manifestações físicas, sobretudo com as manifestações que, repetidas e frequentes, vêm a ocasionar ao sensitivo uma considerável perda de força e de vitalidade. As irmãs Fox esgotaram-se com experiências e extinguiram-se na miséria.
A REVUE SPIRITE, de Abril de 1902, noticiou que os derradeiros membros da família Fox haviam sucumbido, em Janeiro, de frio e de privações.
A Sra. Hauffe, a célebre vidente de Prévorst, foi tratada com o máximo rigor por seus próprios pais e expirou aos 28 anos, ao fim de inúmeras tribulações.
A Sra. d’Espérance perdeu a saúde.
Depois de Home, Slade e Eglinton, a Paladino foi acusada de fraudes voluntárias.

Certos médiuns têm sido submetidos a todas as torturas morais imagináveis, e isso sem exame prévio, sem investigação verdadeiramente séria.
(…)

Em tempos mais recentes, vimos uma médium alemã perseguida com uma sanha brutal e, apesar de respeitáveis testemunhos, sacrificada às exigências de mais tacanho espírito de casta. Pretendia-se o que nas mais altas rodas se apregoava, “pôr um freio a todas as manifestações de um espiritualismo rebelde aos dogmas oficiais”.
Ana Rothe foi detida e recolhida à prisão. A detenção durou oito meses. Durante esse tempo, morreram-lhe o marido e a filha, sem que ela pudesse assistir aos seus últimos momentos. Permitiram-lhe unicamente que fosse ajoelhar sobre seus túmulos, metida entre dois polícias.
Afinal, termina o inquérito; instaura-se o processo. Os depoimentos favoráveis afluem: o professor Koessinger, o filólogo Herman Eischacker e o Dr. Langsdorff presenciaram os fatos e nenhuma fraude conseguiram descobrir.
O Sr. George Sulzer, presidente da Corte de Apelação de Zurique, atesta sua convicção na inocência da Sra. Rothe.
O primeiro magistrado do cantão de Zurique, na ordem judiciária, não receia expor à publicidade suas crenças íntimas, para com elas beneficiar a acusada.
Outros magistrados afirmam a autenticidade dos transportes de flores, que ela obtinha em plena luz. Essas testemunhas viam flores ou frutos desmaterializados reconstituir-se na sua presença, condensar-se em matéria palpável, como um floco de vapor que, pouco a pouco, se transformava e solidificava, no estado de gelo. Esses objectos moviam-se horizontalmente e outras vezes desciam lentamente do forro da sala.

O director da Casa de Detenção em que ela passou os oito meses de prisão preventiva, declarou que o ensino moral dado aos seus detidos nunca se aproximou, como efeito produzido, da impressão causada pelas comovedoras práticas, do carácter mais edificante, feitas pela médium em transe a suas irmãs transviadas.
Ana Rothe não passava, entretanto, de uma simples mulher do povo, sem instrução, sem cultura de espírito.

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