O roustainguismo nas obras de Chico Xavier, por SÉRGIO ALEIXO

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O artigo que aqui se publica, da autoria de SÉRGIO ALEIXO tem muita importância e foi publicado em vários blogues (citado por vários autores) e na sua importantíssima obra “O PRIMADO DE KARDEC”

PREFÁCIO do livro da autoria de
Artur Felipe de A. Ferreira

Allan Kardec, o insigne Codificador do Espiritismo, inspirado nos ditados dos espíritos superiores, por chamou-nos a atenção para o perigo de aceitarmos sem exame o que nos chega do mundo espiritual.
Ressaltou, sempre que o pôde, a importância do estudo e do aprofundamento das questões, em nossa incessante busca pela verdade, para que não nos deixássemos levar por concepções fantasiosas e exóticas, sempre oriundas da ignorância acerca das leis naturais que nos regem a todos.
Confirmando este esforço conjunto dos espíritos verdadeiramente comprometidos com o bem e a justiça, o Espírito Erasto, presente à reunião geral dos espíritas de Bordéus—cidade em que o advogado J. B. Roustaing estava prestes a desenvolver suas estranhas teses —, advertiu acerca da luta que teriam aqueles adeptos do Espiritismo contra uma turba de espíritos inferiores, razão pela qual afirmou ser-lhe obrigação premuni-los contra o perigo.
Da mesma forma, Sérgio Aleixo nos brinda com a presente obra, cumprindo com o seu dever de espiritista, preocupado que é, e como todos o devemos ser, com os rumos do movimento espírita no Brasil e no mundo.
Deixou corajosamente de lado a postura inerme que predomina no nosso meio que, a pretexto de caridade, fecha os olhos para os desvios, adulterações e tentativas de ridicularização do Espiritismo.
Munido de dados históricos hauridos em fontes fidedignas, como bom discípulo de J. Herculano Pires, Sérgio Aleixo utiliza seu grande poder de observação e análise para mostrar que as teses rustenistas (roustainguistas) aportaram no Brasil, depois de ignoradas na França à época de Kardec, como um autêntico“Cavalo de Tróia”, que tem por objectivo provocar a cizânia, o cisma em nossas fileiras, justamente como Erasto, em Bordéus, previra que aconteceria, pela acção de “ditados mentirosos e astuciosos,emanados de uma turba de espíritos enganadores,imperfeitos e maus”.
Nada mais exacto, já que, para melhor ludibriarem, os espíritos que se comunicaram com Roustaing, através de uma só médium, Émilie Collignon, valeram-se, em seus ditados, de nomes venerados: os apóstolos de Jesus, Moisés, etc.
Porém, como os prezados leitores poderão observar,foram e ainda são muitos os artifícios utilizados na tentativa de impor aos espíritas toda uma série de conceitos, ideias e teorias que, além de antidoutrinárias, são absurdas e ilógicas e que, por diversas vezes,se chocam com a razão e o bom-senso.

Este trabalho de Sérgio Aleixo é, portanto, de fundamental importância, como mais um alerta que nos chega, para que possamos separar o joio do trigo em matéria de Espiritismo, ajudando-nos, ao demais, a entender como tudo se passou (e passa) e os meios empregados pelos espíritos mistificadores e falsos sábios na tentativa inglória de provocar a derrocada do Espiritismo com enxertias que se vão espraiando pouco a pouco, tal qual erva daninha num jardim de flores. Aproveitemos todos esta oportunidade de estudo e reflexão, de modo que possamos colaborar para a unidade doutrinária a partir do melhor entendimento do Espiritismo em suas bases sólidas, que se assentam na codificação kardeciana.
É seguindo este imperativo que o confrade Sérgio Aleixo nos presenteia, mais uma vez, com estudos diligentes e questionadores, que merecem, por parte de todos os espíritas sérios, muita atenção e respeito, a fim de que não nos tornemos pedra de tropeço àquilo que nos é mais caro: o Espiritismo.

 

Ao fim desta publicação encontra-se um vídeo recente, também da autoria de Sérgio Aleixo, que actualiza o tema do artigo.

 

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.SergAl(o termo “rustenismo” é usado no Brasil como equivalente a “roustainguismo”, isto é, referido à obra de Jean-Baptiste Roustaing)


O rustenismo é deturpação perigosa, porque se alastra sorrateiro, não em suas obras principais, mas mediante livros psicografados por Chico Xavier.

Conforme prevê o assim chamado “Pacto Áureo” (05/10/1949), “cabe aos espíritas do Brasil porem em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de maneira a acelerar a marcha evolutiva do Espiritismo”. Pois bem! Isto passou ao art. 63 do estatuto da Casa-Mater do rustenismo no mundo, que regista:

O Conselho [Federativo Nacional da F.E.B.] fará sentir a todas as sociedades espíritas do Brasil que lhes cabe pôr em prática a exposição contida no livro Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de Francisco Cândido Xavier.

Entre outras piadas de além-túmulo, no capítulo I desta obra, “a amargura divina” de Jesus “empolga” toda uma “formosa assembleia de querubins e arcanjos” e ele, “que dirige este globo”,[1] não sabe sequer onde é o Brasil.
Não bastasse isto, no cap. XXII, o confuso Jean-Baptiste Roustaing emerge do estatuto da F.E.B. para ser equiparado a Léon Denis e a Gabriel Delanne, figurando adiante destes na condição de cooperador de Allan Kardec para “o trabalho da fé”.
Subsiste ainda o questionamento levantado por Júlio Abreu Filho em O Verbo e a Carne, isto é, por que Humberto de Campos se referiu a Roustaing, Denis e Delanne em Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho de 1938 e, no livro Crónicas de Além-Túmulo, de 1937, reportou-se tão só a Denis e Delanne?

Em O Consolador, de Emmanuel, há, igualmente, certas estranhezas. Será que houve, então, uma afronta à integridade conceitual do movimento espírita, do tipo “pílula dourada”, sob a chancela do trabalho do médium de maior projecção dos últimos tempos? Foi isto à revelia dele ou, por outra, com sua anuência? Mas como provar qualquer hipótese? Da própria F.E.B., em 1942, Chico Xavier recebeu a informação de que seus originais, após publicação, eram inutilizados por aquela instituição.[2]

A contradição seguinte parece mesmo sugerir o douramento da pílula rustenista na obra de Chico Xavier: o problema do Espírito Santo, expresso nos ns. 303 e 312 de O Consolador. O Espírito Santo não pode ser “a centelha do espírito divino, que se encontra no âmago de todas as criaturas” e, a um só tempo, uma “falange de Espíritos”. Só a primeira resposta, à questão 303, faz sentido à luz do Evangelho e da codificação kardeciana. Já a segunda, à pergunta 312, reflecte o rustenismo e, se for interpolação febiana, que ironia, porque se esmera em elucidar outra interpolação, mas bíblica.

O texto oferecido pelo interlocutor da F.E.B. (abaixo, a negrito), conforme parecer insuspeito do tradutor da Bíblia de Jerusalém (Paulinas, 1985), apresenta “um inciso ausente dos antigos manuscritos gregos, das antigas versões e dos melhores manuscritos da Vulgata, […] uma glosa marginal introduzida posteriormente” em 1.ª João, cap. 5, vv. 7-8, onde se lê: “Porque há três que testemunham [no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo, e esses três são um só; há três que testemunham na terra]: o espírito, a água e o sangue, e esses três são um só”.

Portanto, o interlocutor febiano, no n. 312 de O Consolador, driblou a parte do texto bíblico que se refere ao testemunho de Jesus em “espírito, água e sangue”, para só se referir à glosa marginal, ensejando a Emmanuel esta interpretação da Trindade: “Pai” => Deus, “Verbo” => Jesus, e “Espírito Santo” => “legião dos Espíritos redimidos e santificados que cooperam com o Divino Mestre, desde os primeiros dias da organização terrestre”. Definição tipicamente rustenista do Espírito Santo, assim como, por vezes, do Espírito da Verdade e mesmo do Consolador: “conjunto dos Espíritos puros, dos Espíritos superiores e dos bons Espíritos”; ou “falange sagrada dos Espíritos do Senhor”.[3]

Há, no entanto, um prefácio amistoso de Emmanuel ao livro Vida de Jesus, de Antonio Lima (F.E.B.) Na obra é defendida a tese do corpo meramente fluídico do Cristo. Da mesma forma em relação a Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, que menciona Roustaing ao lado de Delanne e Denis como cooperador de Kardec, e que é prefaciado por Emmanuel. Sobre A Grande Síntese, de P. Ubaldi, escritor que reeditou a queda angélica e a involução como pressuposto para a evolução, postulados afins do rustenismo, o jesuíta disse:

Aqui, fala a Sua Voz [de Jesus] divina e doce, austera e compassiva. […] é o Evangelho da Ciência, renovando todas as capacidades da religião e da filosofia, reunindo-as à revelação espiritual e restaurando o messianismo do Cristo, em todos os institutos da evolução terrestre. Curvemo-nos diante da misericórdia do Mestre e agradeçamos de coração genuflexo a sua bondade. Acerquemo-nos deste altar da esperança e da sabedoria, onde a ciência e a fé se irmanam para Deus.[4]

Ante um comunicado destes, natural é que alguns mais exaltados digam que Kardec foi superado por Ubaldi. Quanto a este pensador italiano, ao indigesto Roustaing e até ao excêntrico Ramatis, será que adeptos de suas doutrinas heterodoxas podem ter pleiteado para publicações afins o “aval” dos já cultuados instrutores de Chico Xavier, na intenção de facilitar a infiltração de tais obras no movimento espírita? E Chico? Analisava tudo? Infelizmente, não. Ele dizia que não era da sua competência entrar na apreciação sequer dos livros que psicografava, sendo um simples “animal de carga”.[5] E os Espíritos que davam o “aval”? Eram mesmo os seus guias? Em caso positivo, são confiáveis?
Normal é que o estudioso se reserve o direito de duvidar, até porque a codificação kardeciana assegura que “o melhor [médium] é o que, simpatizando somente com os bons Espíritos, tem sido enganado menos vezes”, assim como preconiza que, “por melhor que seja um médium, jamais é tão perfeito que não tenha um lado fraco, pelo qual possa ser atacado”.[6] Kardec já advertira também: “Pelo próprio fato de o médium não ser perfeito, Espíritos levianos, embusteiros e mentirosos podem interferir em suas comunicações, alterar-lhes a pureza e induzir em erro o médium e os que a ele se dirigem”. Consignara o mestre que este é, sim, “o maior escolho do Espiritismo” e que o meio determinante para evitá-lo é o “discernimento”; e por quê? Kardec assim responde:

As boas intenções, a própria moralidade do médium nem sempre são suficientes para o preservarem da ingerência dos Espíritos levianos, mentirosos ou pseudossábios, nas comunicações. Além dos defeitos de seu próprio Espírito, pode dar-lhes guarida por outras causas, das quais a principal é a fraqueza de carácter e uma confiança excessiva na invariável superioridade dos Espíritos que com ele se comunicam.[7]

O problema, todavia, é mais complexo, transcende a simetria óbvia entre a F.E.B. e a obra de Roustaing. Não constitui rustenismo a doutrina das almas gémeas, que, segundo Emmanuel, são criadas umas para as outras e umas às outras destinadas na eternidade, contrariando o comentário kardeciano ao n. 303-a de O Livro dos Espíritos, que diz: “É necessário rejeitar esta ideia de que dois espíritos, criados um para o outro, devem um dia fatalmente reunir-se na eternidade”. A F.E.B. até questionou o ensino das almas gémeas na obra O Consolador, ali o deixando, contudo, a pedido do próprio jesuíta.[8]

Quanto a isto, já não faz o menor sentido a hipótese de interpolação da Casa-Mater por força do rustenismo, que nunca professou a existência de almas gémeas, assim como jamais disse, por exemplo, que Marte é mais avançado em civilização do que a Terra, ou que os exilados adâmicos vieram de um suposto orbe não purificado física e moralmente, que guarda muitas afinidades com nosso mundo na órbita do “magnífico sol” Capela; na verdade, segundo a astronomia, um sistema de sóis com ausência de planetas.[9]

De fato, consta que Emmanuel teria dito a Chico Xavier que deveria permanecer com Jesus e Kardec caso lhe aconselhasse algo em desacordo com as palavras de ambos.[10] Mas nenhum ensino contrário a Kardec deixou de ser publicado por essa razão. Eis o fato.[11] De mais consistente lógica e de melhor proveito à clareza analítica, portanto, é que se atribua ao próprio Emmanuel tudo aquilo que dos seus livros conste.
Só Chico Xavier teve o poder de dirimir as dúvidas, mas nunca o fez, nunca levantou uma suspeita sequer sobre a F.E.B.; ao contrário, não é difícil encontrar-lhe pronunciamentos com os mais efusivos aplausos à Casa do “Anjo” Ismael, assim como ao grande J. Herculano Pires, maior opositor do rustenismo febiano. O médium sempre aparece ao lado de todos os partidos.
De tudo, restam os objectos, milhares de milhares de livros, o papel e a tinta, a confusão nas estantes, sempre bem acessível aos neófitos que chegam às casas espíritas e aos incautos leitores em busca de um Consolador que lhes dê milagrosas respostas. Só se pode julgar do que foi publicado. Eis a verdade. Cabe, pois, aos espíritas atentos a apreciação rigorosa de toda obra mediúnica, segundo os padrões de Kardec. Este deve ser o procedimento dos adeptos estudiosos, e a produção atribuída a qualquer Espírito não pode nem deve escapar a isso, seja quem for ou quem se diga ser.
Não passa de temeridade, com lamentáveis consequências já em curso, a ideia de que não se deve agir deste modo para não confundir ou chocar os simples. Na prática, isto é licitar ao Espiritismo que erros manifestos sejam arrolados à conta de patrimônio das consolações que prodigaliza a seus adeptos.
Encaminhemos os simples à segurança e pureza da fonte original do Espiritismo, à codificação kardeciana, em vez de entretê-los com equívocos que, mais tarde, os surpreenderão desprevenidos e, quem sabe, os convidarão à apostasia. O que disse Erasto a Kardec?
Deve-se eliminar sem piedade toda palavra e toda frase equívocas, conservando no ditado somente o que a lógica aprova ou o que a Doutrina já ensinou. […] Na dúvida, abstém-te, diz um dos vossos antigos provérbios. Não admitais, pois, o que não for para vós de evidência inegável. Ao aparecer uma nova opinião, por menos que vos pareça duvidosa, passai-a pelo crivo da razão e da lógica. O que a razão e o bom-senso reprovam, rejeitai corajosamente. Mais vale rejeitar dez verdades do que admitir uma única mentira, uma única teoria falsa. Com efeito, sobre essa teoria poderíeis edificar todo um sistema que desmoronaria ao primeiro sopro da verdade, como um monumento construído sobre a areia movediça.[12]
Para o movimento espírita, no entanto, isto não há passado de meras frases de efeito, inseridas em retóricas quase sempre desmentidas pelo cotidiano institucional da maior parte dos adeptos do espiritismo à moda da Casa-Máter do rustenismo. Sobre o assunto espinhoso deste capítulo, decerto que muito a propósito são as reflexões de nosso valoroso confrade Artur Felipe de A. Ferreira, em seu artigo “De Que Lado Está Emmanuel?”.[13]


[1] Revista Espírita. Jan/1864. Um Caso de Possessão. Senhorita Júlia. Nota: O sábio Hahnemann é quem afirma ali que o Espírito de Verdade dirige este globo, ou seja, a Terra.
[2] Cf. SCHUBERT, Sueli Caldas. Testemunhos de Chico Xavier, p. 23-24. Apud DA SILVA, Gélio Lacerda. Conscientização Espírita. Chico Xavier, Emmanuel e a F.E.B.
[3] Os Quatro Evangelhos. Vol. I, n. 9; Vol. II, n. 187; Vol. IV, n. 1.

Nota: Quanto ao Espírito da Verdade, é curioso, o rustenismo muito se divide, porque subsiste na obra a instrução dos bons Espíritos que, em Bordéus — na casa de Roustaing e na de Sabo —, chegaram a revelar que se tratava de Jesus, como o próprio advogado fez questão de consignar a Kardec, bem antes do cisma que promoveria. (Cf. Revista Espírita. Jun/1861. Correspondência.) Evidentemente, os Espíritos que passaram a substituir os Iniciadores se valeram de uma autêntica revelação destes para impor aos bordeleses mais incautos lamentáveis sistemáticas a título de comandos do Cristo, de Moisés, dos evangelistas, de Maria e dos apóstolos. J.-B. Roustaing, infelizmente, faliu ante provável missão que não chegou a cumprir, tornando um pouco mais árdua a gigantesca tarefa do gênio lionês. Não foi sem motivo que disse o mestre sobre o livro rustenista: “[…] ao lado de coisas duvidosas, em nosso ponto de vista, encerra outras incontestavelmente boas e verdadeiras, e será consultada com proveito pelos espíritas sérios […]”. (Revista Espírita. Jun/1866. Os Evangelhos Explicados.)

[4] Ob. cit. 18.ª ed. Trad.: Carlos Torres Pastorino e Paulo Vieira da Silva. Vol. II. Z
5] Cf. Emmanuel. 15.ª ed., F.E.B., Prefácio, p. 21. Cf. DVD Pinga-Fogo 2. Clube de Arte. Cf. ALEIXO. Ensaios da Hora Extrema. Não Há Médiuns Infalíveis.
[6] O Livro dos Médiuns. XX, 226, 9.ª e 10.ª
[7] Revista Espírita. Fev/1859. Escolhos dos Médiuns.
[8] Cf. n. 323 e nota à primeira edição.
[9] Cf. Emmanuel, “A Tarefa dos Guias Espirituais”. A Caminho da Luz, cap. 3. Cf. ALEIXO. Ensaios da Hora Extrema. Kardec e os Exilados.
[10] Diálogo dos Vivos [em parceria com Herculano Pires], cap. 23: Permanecer com Jesus e Kardec.
[11] Cf. ALEIXO. Ensaios da Hora Extrema. Léon Denis, Emmanuel e as Almas Gêmeas; Mística Marciana e Segurança Doutrinária; Kardec e os Exilados; Sobre André Luiz.
[12] O Livro dos Médiuns, 230.
[13] http://coerenciaespirita.blogspot.com/2008/10/de-que-lado-est-emmanuel.html

O vídeo acima, encontra-se no YouTube horizontalmente invertido, da direita para a esquerda. Isso deforma inclusivamente o título do livros que Sérgio Aleixo segura na mão “Francisco Cândido Xavier, Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”. Tentei mudar isso, mas não consegui. O próprio rosto de Sérgio Aleixo está um pouco deformado.

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Wilson Garcia, as federações e o movimento espírita

As Federações e o seu Papel no Movimento Espírita

 

Escolhemos das nossas pesquisas na Internet um artigo escrito por Wilson Garcia, importante estudioso e autor espírita com vasta obra feita e muitíssimo conhecido no Brasil, que no trabalho a seguir inserido apresenta o problema muito sério do papel que as federações desempenharam, e desempenham ainda, no movimento espírita. Já nos interessaria muito se fosse só isso, mas a sua publicação aqui tem o intuito de levar até junto dos leitores portugueses ideias bem claras e documentadas a respeito da história do espiritismo no Brasil.

Tendo a Federação Espírita Portuguesa ao que nos parece, pelas mais do que evidentes aparências, posicionamentos estratégicos francamente coincidentes com os da FEB, embora nunca tenha inserido nos seus estatutos a divulgação organizada e sistemática da mensagem roustainguista,
julgamos muito importante o retrato bastante realista que nos apresenta Wilson Garcia, para podermos avaliar o que tais afinidades poderão significar para o espiritismo em Portugal.
O trabalho em questão foi enviado ao “Portal do Espírito”
por Wilson Garcia em 30/12/2015

Para ter acesso ao artigo é favor clicar nesta frase

 

O legado documental de Allan Kardec: queimado, escondido ou leiloado?

 

Dito assim, soa a blasfémia. Mas onde está, o que terá sofrido ou de que modo foi alienado o preciosíssimo legado documental que reunia todos os escritos, cadernos com comunicações mediúnicas, publicações, correspondências, registos e outros vestígios do prodigioso e hercúleo trabalho feito pelo abnegado professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, mais conhecido pelo seu pseudónimo: Allan Kardec?…

É disso que tratam os textos abaixo publicados, sendo elementos principais os artigos de investigação e questionamento histórico da autoria do professor João Donha da cidade de Curitiba, estado do Paraná, no Brasil.

 


As considerações de abertura feitas a seguir são da responsabilidade do autor deste blogue:

No pequeno colectivo familiar de que faço parte temos dedicado o melhor dos nossos últimos tempos a ler, directamente do francês, algumas das obras que o nosso muito estimado professor Hipólito Rivail publicou sob o pseudónimo de Allan Kardec.
Para o trazermos para junto de nós, ou para nos transportarmos até junto dele, fizemos um mínimo esforço indispensável para rememorar a História de França, na turbulenta passagem do “ancien régime” aristocraticamente absolutista, decadente e sanguinário, para situações sociais e humanas infelizmente pouco compatíveis com o almejado horizonte de “liberdade, igualdade e fraternidade”, tal como sonharam os cidadãos que fizeram, com dores de muito sofrimento, a “grande revolução”.

Uma das coisas que mais nos doeu nas conclusões que atingimos, foi verificar ter sido Hipólito Rivail um homem praticamente só, a braços com uma tarefa ciclópica.
Empreendeu o seu trabalho já numa idade avançada, com a tremenda falta de meios técnicos, que as pessoas dos dia de hoje mal podem imaginar. Num tempo de violentos contrastes e injustiças, sob o peso esmagador de conceitos religiosos dogmáticos de sentido totalitarista, sombrio e infernal.

Em 1854 o céptico e positivista Hipólito Rivail ouviu, pela primeira vez, o seu amigo Fortier falar-lhe nas mesas girantes. Em 1857 publicou a primeira edição de “O Livro dos Espíritos” e, tendo cumprido integralmente o destino que assumiu, apenas escassos doze anos depois faleceu, completamente exausto.

A história que assim tão brevemente se descreve tem a ver com as interessantíssimas informações abaixo apresentadas nos trechos do professor João Donha, que confirmam de modo inequívoco as conclusões que tirámos da leitura sossegada e da íntima convivência que tivemos o distinto prazer de estabelecer com Hipólito Rivail.
Isto, evidentemente, quanto à falta de solidariedades activas e atitudes organizadas de seguidores atentos que quisessem e pudessem ter salvaguardado, de modo digno e conveniente para todo o entendimento futuro, o verdadeiro teor das intenções e ensinamentos cientifica e filosoficamente tão bem sistematizados por Hipólito Rivail.

Tal circunstância não derivava de nenhuma vocação isolacionista; era a sua própria índole de pessoa sem pretensões de poder, que não recomendava federações nem agremiações de elevado número de adeptos, porque via nesse modelo de associação a raiz o mal, a semente daninha do poder.

Hipólito Rivail, a pessoa íntegra que lutou tudo enquanto pode, não quis fazer-se dono de nada. Nunca foi cabeça de cartaz em comícios, nem convocou concílios, nem se fez fotografar ao lado de poderosos!…

As poucas, muito poucas fotografias que restaram de Hipólito Rivail, mostram-no mais do que apenas sério e compenetrado. Hipólito Rivail revelava nessas imagens o olhar recolhido e receoso de quem teme pelo grande tesouro que lhe coube acautelar com zelo e decisão.
Onde está, ao fim e ao resto, toda documentação preciosa resultante do trabalho acumulado por Hipólito Rivail?

A primeira dramática conclusão que temos diante de nós, é de que foi, à partida, desprezada pelos próprios franceses, num país que é justamente considerado uma das vanguardas culturais e humanistas da velha e contraditória Europa!…
Depois disso, independentemente dos vários enredos incertos, uma coisa é real: a preciosa documentação dorme em esconderijos onde não há quem os estude e muito menos quem queira revelar às claras, de forma honesta e válida, o seu conteúdo, os valores de que é portadora.

Já que nada mais nos resta, não nos constituamos cúmplices desse mau cuidado e desse desprezo pelos valores mais insignes. Ainda ficou muito, muitíssimo, do generoso trabalho de Hipólito Rivail.
Vamos tentar chegar até junto dele. Ou façamos, com delicada atenção, que venha sentar-se a nosso lado.


Mãos à obra, amigos, mãos e mentes à obra!…


O blogue “João Donha – Espiritismo” é daqueles que vale a pena ler de uma ponta à outra, porque não nos diz o mesmo que muitos outros, nem o diz da mesma forma.
Pedimos desculpa do extenso preâmbulo acima, que serviu unicamente para contextualizar no domínio das nossas próprias indagações, realidades quase confidenciais, embora muito significativas. Ora vejamos :

passage saint anne
Esta imagem é interessante por dois motivos. Mostra-nos a entrada da “Passage de Sainte Anne”, à frente da qual pode ver-se o professor João Donha, autor da parte essencial deste trabalho. Foi para aqui que o casal Rivail (Rue de Sainte-Anne nº 59) se mudou em 1860, e onde residiu e tão intensamente trabalhou nos últimos 9 anos de vida de Hipólito Rivail. Foi aqui que se situou inicialmente o escritório da “Revue Spirite” e onde foram escritas as obras espíritas essenciais de Allan Kardec.

EM BUSCA DO SANTO GRAAL


 Primeiro artigo publicado por João Donha em 7 de dezembro de 2012

“Essa espontânea concentração de forças dispersas deu lugar a uma amplíssima correspondência, monumento único no mundo, quadro vivo da verdadeira história do Espiritismo moderno, onde se reflectem ao mesmo tempo os trabalhos parciais, os sentimentos múltiplos que a doutrina fez nascer, os resultados morais, as dedicações, os desfalecimentos; arquivos preciosos para a posteridade, que poderá julgar os homens e as coisas através de documentos autênticos. Em presença desses testemunhos inexpugnáveis, a que se reduzirão, com o tempo, todas as falsas alegações da inveja e do ciúme?…”
(Allan Kardec; G, I, 52, N.1).

Onde está essa “amplíssima correspondência”? Onde foram parar esses “arquivos preciosos” de “documentos autênticos” com os quais a posteridade poderia “julgar os homens”?
Os documentos históricos do espiritismo sofreram as consequências de terem sido, os negócios da doutrina, tratados sempre como algo de família, constituindo heranças e, consequentemente, dependendo de herdeiros.

Kardec pretendia criar uma sociedade impessoal, mas não deu tempo. Morreu antes de concretizar seus planos e, tudo o que era do espiritismo (sociedade, obras, revista, documentos) tornaram-se a herança de sua esposa, Amelie Boudet.
De início, ela disse que ia tudo gerir; mas, talvez pela idade ou a solidão, acabou por entregar tudo nas mãos do Pierre-Gaëtan Leymarie, que criou uma tal “Sociedade para continuar a obra de Allan Kardec”.

Após a morte da herdeira, Amélie, em 1883, e como único remanescente da tal sociedade, Leymarie tornou-se o dono absoluto dos documentos de Kardec.
Uma parte, ele foi publicando na “Revue Spirite”, e acabou por usar em “Obras Póstumas”; outra parte, segundo uma lenda, ele teria enviado para a FEB, onde se encontra sepultado num cofre-forte.
É bom lembrar que Leymarie tinha muita afinidade com o Brasil, particularmente no Rio; ele esteve exilado aqui em 1851, quando houve o golpe do Luís Napoleão. Ademais, nunca escondeu amizades e afinidades roustainguistas.

O que sobrou na França foi herdado (novamente em família!) pelo filho dele, o Paul Leymarie.
Este, após um breve intervalo de três anos em que os negócios ficaram com sua mãe Marina, tornou-se, em 1904, dono absoluto dos destinos do espiritismo até 1914, quando, em função da I Guerra Mundial, desistiu. O que não foi de todo mal, pois o Paul Leymarie vendia até bolas de cristal pela Revue.

Antes mesmo de terminar a I Guerra, em 1916, um rico empresário francês, o Jean Meyer, assumiu o movimento órfão (Léon Denis e Gabriel Delanne eram sumidades intelectuais; eram referências; mas alguém tinha que cuidar dos negócios). As pessoas malvadas, como eu, imaginamos o Meyer compensando regiamente o Paul.

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Meyer criou a Casa dos Espíritas (“Maison des Spirites”, na imagem acima), para onde levou os documentos e objetos pessoais de Kardec.
Este mesmo mecenas fundou o “Instituto de Metapsíquica”, sob o comando inicial do Gustave Geley, e onde foi gerado o “Tratado de Metapsíquica”, no qual Charles Richet diz que o “espiritismo é inimigo da ciência”.
Jean Meyer foi o dono do movimento até sua morte em 1931. Foi ele quem inaugurou a vocação assistencialista do espiritismo. Bem, até aí os jacobinos; a partir daí, os xenófobos.

Assume Hubert Forestier, e torna-se tão particularmente dono que, em 1968, chega a registrar a Revue em seu nome no órgão de propriedade industrial. Morre em 1971, deixando um movimento mais que anêmico, agonizante mesmo.
Seus herdeiros, não sabendo o que fazer de tal herança, vendem tudo por um franco para o André Dumas. A essa altura os direitos autorais das obras de Kardec já tinham caducado. O resto – muito pouco: o nome da Revue e da Societé – ficou nas mãos do Dumas.
André Dumas, seja por ter mudado suas preferências filosóficas, seja por constatar que o status de espírita não conferia mais prestigio, resolveu liquidar tudo: em 1975, mudou o nome da “Revue Spirite” para “Renaitre 2000”, e a Societé para uma tal “sociedade para pesquisa da consciência e sobrevivência”, colocando, dessa forma, duas ou três pás de cal sobre o “espiritismo francês”.

Dizem que os brasileiros tentaram recuperar o nome da Revue Spirite,uma vez que o cidadão não pretendia mais publicá-la, mas o Dumas não aceitou. Alegou que o movimento no Brasil se desviara para o religiosismo e não abriu mão.
Paralelamente, surge na França o Jacques Peccatte dizendo que o próprio Kardec se comunicou no grupo dele, o “Cercle Spirite Allan Kardec”, em 1977, e o mandou ressuscitar o movimento. Ele o tenta até hoje.
Mas, pelo lado digamos, oficial, o Roger Perez, retornando das desativadas colônias, resolveu, certamente com o patrocínio da FEB, retomar as coisas.
Conseguiu reaver do André Dumas, na justiça, o nome da Revue, e passou a editá-la pela “Federação Espírita Francesa e Francófona” (já extinta), da qual foi fundador. Ali pelo ano 2000 passou os direitos para o CEI – Conselho Espírita Internacional.

E os documentos de Kardec, suficientes para comprovar ou desmentir o famoso “controle universal” num julgamento pela posteridade, não deveriam acompanhar toda essa trajetória de mandos e poderes, acondicionados num majestoso baú?
Deveriam, mas o baú transformou-se num “cálice sagrado”, num Santo Graal, ou seja, numa lenda.
Conta Wallace Leal que quando tentava aproximação com Hubert Forestier (aquele que foi dono de 1931 a 1971) para saber dos documentos, ele respondia friamente que a “Maison des Spirites” tinha sido “pillée” (pilhada) pelos alemães.
Dizem que os papéis de Kardec foram queimados para aquecer os soldados alemães, aquartelados na “Casa dos Espíritas”, por uns quatro invernos, os mais rigorosos do século.

Mas, existe outra saga…

Em 1939, Canuto Abreu seria um adido na embaixada brasileira em Paris, quando foi procurado por algumas pessoas que se diziam a mando dos espíritos – que por certo realizaram escutas espirituais no gabinete do Hitler e souberam da iminente invasão alemã à Cidade Luz – e lhe entregaram valiosos documentos de Kardec, para que ele os salvasse trazendo para o Brasil.
Para que não se fuja à regra lendária, tais documentos, “salvos dos alemães”, acabaram transformando-se numa herança, ora sepultada em mãos dos descendentes do Canuto.

Assim, a lenda divide os famosos documentos tão cuidadosamente arquivados e citados por Kardec em três conjuntos:

  • um nos porões da FEB;
  • outro com os herdeiros do Canuto;
  • e, o que ficou na França, queimado como combustível pelos nazistas.
  • Consideremos perdido este último lote.
  • O que está em poder da FEB, segundo a lenda, foi-lhe dado pelo Leymarie, na época legítimo proprietário dos mesmos, legitimando, dessa forma, sua apropriação por essa entidade.
  • Mas, e o lote em poder dos descendentes do Canuto? Ao Wallace, Forestier teria dito que foram “pilhados”, sem se referir à história do Canuto. Teriam, aquelas misteriosas figuras, entregue ao Canuto sem o conhecimento do Forestier, seu proprietário no momento? Não teria havido, assim, uma apropriação indébita?

Por outro lado, considerando as simpatias do governo brasileiro por Hitler – o que só mudaria com as mudanças no rumo da guerra, lá por 1942 – e os agrados despendidos pelas grandes potências no jogo político internacional, se um adido da embaixada brasileira em Paris se dirigisse à autoridade militar alemã, invasora, e solicitasse permissão para “retirar alguns documentos daquela “Maison des Spirites” que seus soldados ocuparam”, seria prontamente atendido. Daí, a “pilhagem” não teria sido feita propriamente pelos nazistas.

Mas, e as datas?…

Os tais “ET’s” teriam aparecido em 1939, e a invasão alemã ocorreu em Junho de 1940. Bem, se esta for uma história dispersiva surgida duas ou três décadas após o ocorrido, um deslocamento de seis meses é bastante viável.
Neste caso – e considerando-se a moda atual de buscarem, os países, nos foros internacionais, documentos, relíquias e artefatos arqueológicos que lhes foram pilhados durantes séculos de guerras e colonizações – o que poderia acontecer se o Roger Perez, ou o Estado Francês – ou mesmo um franco-atirador – se dessem conta de que importantes documentos franceses, pilhados durante a ocupação alemã, se encontram escondidos em São Paulo?

Porque, se esta historia for verdadeira – e, não, apenas uma lenda, como parece ser – há uma diferença em relação às cartas de Kardec que temos visto em leilões.

Uma carta, uma vez enviada e recebida, passa a integrar o acervo do destinatário. Portanto, se o Freud tivesse escrito uma carta à minha bisavó, e agora ela me coubesse por herança, eu faria dela o que quisesse.

Enfim, como em toda lenda, aqui há mais perguntas que respostas.


CURIOSIDADE HISTÓRICA – Os atentados aos documentos de Kardec.



Segundo artigo publicado por João Donha em 7 de Fevereiro de 2014

“Nossa expectativa não foi em vão, e a circulação foi precariamente restabelecida; os Correios ainda estão desorganizados, mas as cartas chegam de todas as partes ao nosso escritório na Rue de Lille, salvo das chamas pela vigilância inquieta de um espírita, o Senhor X., tenente de embarcação.
Diga-se de passagem que o Senhor X., ocupando a área com os seus marinheiros, frustrou, por meio de um monitoramento constante, duas tentativas de incêndio contra o que ainda restava da Rue de Lille, o que teria por resultado condenar à aniquilação o que foi possível salvar desse maravilhoso ‘quartier’.
Estamos felizes em fazer, nesta circunstância, junto ao Senhor X., eco aos agradecimentos do mundo espírita europeu pelo papel que ele desempenhou no salvamento dos nossos documentos.”

Quem já leu os percalços pelos quais passaram os documentos de Kardec no texto “Em busca do Santo Graal”, pode acrescentar mais este aí, relatado pelo Desliens na Revista Espírita de Julho de 1871.

Em 19 de Julho de 1870, cerca de quinze meses após o decesso de Kardec, o Imperador Napoleão III, provocado por Bismarck, declarou guerra à Prússia.
A batalha decisiva ocorreu em 2 de Setembro, quando os franceses foram derrotados e o Imperador aprisionado pelos prussianos.
Mas Bismarck estendeu a guerra até o final de Janeiro do ano próximo com o fim de enfraquecer bastante a França e ficar em definitivo com a Alsácia-Lorena.
Os alemães só deixarão a França em 1873, cobrando pesadas compensações de guerra (“Levando nossas riquezas, a Prússia leva uma parte dos nossos vícios; pois ao ficarmos menos ricos, por certo ficaremos mais virtuosos”, diz uma das cartas recebidas pela Revue).
Em 8 de Fevereiro de 1871, a recém-instalada III República realiza eleições para a Assembléia Nacional.
O interior vota nos conservadores e enrustidos monarquistas;
Paris, vota nos socialistas, anarquistas, liberais e republicanos autênticos.
O líder da assembléia, Thiers, instala o governo em Bordéus, depois em Versalhes.
A cidade luz se revolta: é instalada a Comuna de Paris.
Thiers tenta, em 18 de Março, tomar os canhões da Guarda Nacional; o povo reage e fuzila os generais.
Então, Bismarck liberta e arma os cem mil prisioneiros de guerra para que se unam ao pequeno exército de Thiers e reprimam a Comuna.
O cerco se inicia em 21 de Maio.
Dada a superioridade dos conservadores, a população provoca incêndios na tentativa de conter os soldados. Paris em chamas! É a “semana sangrenta”, que dura até 28 de maio, quando a Comuna se extingue em meio a vinte mil mortos e dez mil prisioneiros ou exilados.
O último reduto caiu em Menilmontant, próximo à porta por onde eu e minha esposa entramos no Père Lachaise quando lá estivemos.

É interessante como os preciosos arquivos, com os quais “a posteridade poderia julgar os homens”, correm o risco de extinção desde o começo de sua existência.
Terá valido a pena, o arriscado esforço do valoroso marinheiro espírita e seus comandados, dando uma sobrevida a este “quadro único da história do espiritismo moderno”?
Dizem que alguns anos depois, Leymarie, então todo-poderoso gerente do espólio kardeciano, enviou vários desses documentos aos seus amigos do Brasil.
O restante do acervo foi novamente ameaçado quando seu filho, assustado com uma “reentrée” dos canhões germânicos e franceses ameaçou abandoná-los à própria sorte.
Foram salvos, desta vez, pelo Jean Meyer, que os recolheu na Maison des Spirites, onde distribuíram suas luzes por um quarto de século, até a Maison virar quartel de tropas, novamente germânicas, e serem pilhados e sepultados impunemente nos porões dos descendentes de quem os retirou de seu devido lugar.
Seria a força do destino tentando se contrapor à força das coisas?

 


A respeito do autor:

JD 02

 

 

 

 

 

 

 

 


JOÃO DONHA

de Curitiba, Paraná, BRASIL
apresentação redigida pelo próprio e vista no seu perfil Blogger
(clicar para ter acesso)

  • Ex-professor eventual de português e história; ex-quase-escritor; ex-funcionário estatal;…
  • Algumas publicações infanto-juvenis; artigos e poesias em diversos periódicos.
    E… nada a “completar”… a não ser o exercício atual de duas profissões não regulamentadas (graças a Deus):
  • a de “fiscal da natureza”, exercida na rive gauche do rio Cachoeira, e a de “palpiteiro contumaz”, que pode ser verificada aqui no blog.

PUBLICAÇÕES:


“Os Gatos de Angaetama” (1979, CooEditora;1985, Criar; 1995, HDLivros).
“Pelos Outros, Pela Gente” (1980, CooEditora).
“O Lambari Comilão” (1985, Criar). “Brás Brasileiro” (1986, HDV). “Espaço Agrário” (1980, Vozes). “Os Desconhecidos” (1979, Beija-Flor).

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